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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146720
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )

Vozes-Mulheres

 

A voz de minha bisavó

ecoou criança

nos porões do navio.

Ecoou lamentos

de uma infância perdida.

 

A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

 

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela.

 

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e

fome.

 

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem - o hoje - o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

o eco da vida-liberdade.

(EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Malê, 2017.)

Leia o poema a seguir para responder à questão.   Sobre o poema, é correto afirmar que:
  1. Aele é todo constituído por verbos no passado, usados para mostrar que o eu-lírico hoje se difere totalmente dos seus antepassados.
  2. Bo eu-lírico feminino reflete sobre a sua própria história: a consciência de sua identidade seria fruto de uma construção cultural.
  3. Ca terceira estrofe apresenta uma mulher completamente silenciada, incapaz de perceber as violências que sofre.
  4. Da mulher retratada na última estrofe, assim como todas as outras mulheres do poema, é incapaz de reagir à opressão.
  5. Eele destaca a superioridade das mulheres contemporâneas, que deixaram para trás a história de seus antepassados.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — o eu-lírico feminino reflete sobre a sua própria história: a consciência de sua identidade seria fruto de uma construção cultural.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A construção da identidade feminina em "Vozes-Mulheres"

Gabarito: letra B. O poema de Conceição Evaristo apresenta a trajetória de vozes femininas de uma mesma família — da bisavó à filha — e o eu-lírico reflete sobre sua própria história, reconhecendo que sua identidade é fruto de uma construção cultural, como se lê nos versos finais: "A voz de minha filha / recolhe todas as nossas vozes / recolhe em si / as vozes mudas caladas / engasgadas nas gargantas". A alternativa B é a única que sintetiza essa ideia central sem extrapolar ou contradizer o texto.

O comando pede que se identifique a afirmação correta sobre o poema — uma questão de compreensão global, não de análise gramatical. É preciso captar o movimento do texto: cada estrofe apresenta uma geração (bisavó, avó, mãe, eu-lírico, filha) e mostra como as vozes se transformam ao longo do tempo, culminando na filha, que "recolhe em si / a fala e o ato" e em quem "se fará ouvir a ressonância / o eco da vida-liberdade".

A tese do poema é a de que a identidade feminina negra é construída historicamente: as vozes das antepassadas — marcadas pela escravidão, pela obediência e pela revolta silenciada — são herdadas e transformadas pela geração atual, que as projeta para o futuro. A filha não é uma voz nova isolada; ela recolhe as vozes anteriores, ou seja, a memória e a luta das mulheres que a precederam. Essa ideia de continuidade e construção cultural é o coração do texto.

A técnica para resolver: leia o poema identificando o sujeito lírico (quem fala) e o movimento temporal (passado → presente → futuro). Perceba que o eu-lírico não se coloca como alguém totalmente diferente das antepassadas, mas como elo de uma corrente: "A minha voz ainda / ecoa versos perplexos / com rimas de sangue / e / fome". A palavra "ainda" indica continuidade, não ruptura. E a filha é o ponto de chegada que recolhe todas as vozes, transformando o sofrimento em "eco da vida-liberdade".

Agora, teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora? A correta é a única inteiramente sustentada pelos versos.

1Movimento temporal
Passado (bisavó, avó, mãe)
Presente (eu-lírico)
Futuro (filha)
2Tese central
Identidade como construção cultural
Continuidade entre gerações
Filha recolhe as vozes
3Elementos-chave
"ainda" → continuidade
"recolhe" → herança
"eco da vida-liberdade" → reação
Vozes-Mulheres (Evaristo)
LEVELsoulevel.com.br
Vozes-Mulheres (Evaristo): Movimento temporal (Passado (bisavó, avó, mãe), Presente (eu-lírico), Futuro (filha)); Tese central (Identidade como construção cultural, Continuidade entre gerações, Filha recolhe as vozes); Elementos-chave ("ainda" → continuidade, "recolhe" → herança, "eco da vida-liberdade" → reação)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o poema é "todo constituído por verbos no passado" e que o eu-lírico "hoje se difere totalmente dos seus antepassados". Isso contradiz o texto em dois pontos:

  • Não é todo no passado: o eu-lírico usa o presente em "A minha voz ainda / ecoa versos perplexos" e o futuro na última estrofe: "Na voz de minha filha / se fará ouvir a ressonância".

  • Não há diferença total: a palavra "ainda" e o verbo "recolhe" (presente) mostram continuidade entre as gerações, não ruptura. A filha "recolhe todas as nossas vozes", ou seja, carrega o passado, não o abandona.

Erro: contradiz o texto (inverte o sentido de continuidade e ignora os tempos verbais presentes e futuros).

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa B afirma que "o eu-lírico feminino reflete sobre a sua própria história: a consciência de sua identidade seria fruto de uma construção cultural". Isso é exatamente o que o poema mostra:

  • O eu-lírico percorre a história das mulheres de sua família (bisavó, avó, mãe) e reconhece que sua voz é herdeira dessas vozes.

  • A filha "recolhe todas as nossas vozes", ou seja, a identidade não nasce do nada, mas é construída a partir da memória e das experiências das gerações anteriores.

  • A última estrofe projeta o futuro: "Na voz de minha filha / se fará ouvir a ressonância / o eco da vida-liberdade". A liberdade é um processo que se constrói ao longo do tempo, não um dado imediato.

Por que é a única correta: não extrapola, não restringe, não contradiz. Sintetiza a tese central do poema com fidelidade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C diz que "a terceira estrofe apresenta uma mulher completamente silenciada, incapaz de perceber as violências que sofre". Isso extrapola e contradiz o texto:

  • A mãe "ecoou baixinho revolta / no fundo das cozinhas alheias". Ela sente revolta, ou seja, percebe a violência e a opressão. Não é "incapaz de perceber".

  • O advérbio "baixinho" indica que a revolta é silenciada, mas não que ela não exista. A mulher não é "completamente silenciada" — ela tem voz, ainda que abafada.

Erro: contradiz o texto (a mãe tem revolta) e extrapola (o texto não diz que ela é incapaz de perceber).

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D afirma que "a mulher retratada na última estrofe, assim como todas as outras mulheres do poema, é incapaz de reagir à opressão". Isso contradiz frontalmente o texto:

  • A filha "recolhe em si / a fala e o ato" — ela age, não é passiva.

  • A última estrofe fala em "eco da vida-liberdade", ou seja, a filha é o símbolo da reação e da libertação, não da incapacidade.

  • As outras mulheres também reagem: a mãe tem "revolta", a avó "ecoou obediência" (mas isso é uma reação de submissão, não de incapacidade).

Erro: contradiz o texto (a filha é ativa e libertadora).

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E diz que o poema "destaca a superioridade das mulheres contemporâneas, que deixaram para trás a história de seus antepassados". Isso extrapola e contradiz o texto:

  • O texto não fala em "superioridade" — fala em continuidade e recolhimento das vozes. A filha "recolhe todas as nossas vozes", não as abandona.

  • A ideia de "deixaram para trás" é oposta ao movimento do poema, que valoriza a memória e a herança. O eu-lírico não se coloca como superior, mas como parte de uma corrente.

Erro: extrapola (introduz a noção de superioridade, ausente no texto) e contradiz (o poema valoriza a herança, não o abandono).

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora oferecer alternativas que parecem verdadeiras no mundo real (como a ideia de que mulheres silenciadas são incapazes de reagir, ou que as contemporâneas são superiores), mas que o texto não sustenta. A correta é a única que se ancora em versos concretos.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler um poema, identifique o sujeito lírico e o movimento temporal (passado → presente → futuro). Pergunte: o eu-lírico se vê como continuidade ou ruptura? No poema, a palavra "ainda" e o verbo "recolhe" indicam continuidade.

Conclusão: a alternativa B é a única que expressa a tese central do poema — a identidade feminina como construção cultural, herdada e transformada pelas gerações. As demais ou contradizem o texto (A, C, D) ou extrapolam (E).

Gabarito: letra B

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