(EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Rio de Janeiro: Malê, 2017.)
Leia o poema a seguir para responder à questão.
Sobre o uso da palavra "ainda" no trecho A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome. É correto afirmar que:
Areforça a ideia de repetição.
Brefere-se a uma prática encerrada no passado.
Crefere-se a uma prática futura.
Dqualifica a voz do eu-lírico.
Equalifica os versos ecoados.
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GabaritoA — reforça a ideia de repetição.
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O valor semântico de "ainda" no poema de Conceição Evaristo
Gabarito: letra A. No trecho "A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome", o advérbio ainda reforça a ideia de repetição/continuidade: a voz do eu-lírico continua ecoando versos, assim como as vozes de suas ancestrais ecoaram antes. A passagem que ancora essa leitura é a sequência de vozes que se repetem de geração em geração — da bisavó à filha —, e o "ainda" marca que essa voz permanece ecoando no presente, não que tenha cessado.
O comando da questão
A questão pede que se analise o uso da palavra "ainda" — ou seja, seu valor semântico no contexto. Não se trata de classificar a palavra isoladamente (advérbio de tempo, por exemplo), mas de perceber que efeito de sentido ela produz no poema. Isso muda a resolução: não basta saber que "ainda" é um advérbio; é preciso ver o que ele significa ali, naquele verso, em relação ao restante do texto.
O texto e o movimento argumentativo
O poema "Vozes-Mulheres" constrói uma linhagem de vozes femininas: a bisavó ecoou criança nos porões do navio; a avó ecoou obediência; a mãe ecoou revolta baixinho; e o eu-lírico diz que "a minha voz ainda ecoa versos perplexos". O advérbio "ainda" estabelece uma ponte temporal: as vozes anteriores ecoaram no passado, e a voz do eu-lírico continua ecoando no presente. Não é uma prática encerrada (elimina B), nem algo futuro (elimina C) — é uma ação que se repete, que persiste.
A técnica que decide
A chave está em perceber que "ainda" aqui tem valor de continuidade/repetição, e não de tempo futuro ("ainda vou fazer") nem de tempo passado encerrado. No poema, o eco das vozes é um fio contínuo que atravessa gerações: a voz da filha "recolhe todas as nossas vozes". O "ainda" do eu-lírico sinaliza que essa corrente não se rompeu — sua voz segue ecoando, como as anteriores. É o mesmo valor de "ainda" em "ela ainda mora aqui" (continua morando), e não de "ainda não cheguei" (futuro) nem de "ainda ontem choveu" (passado recente).
"A voz de minha bisavó ecoou criança... A voz de minha avó ecoou obediência... A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta... A minha voz ainda ecoa versos perplexos"
A sequência de "ecoo(u)" — repetida de geração em geração — é a pista textual que autoriza a leitura de repetição/continuidade. O "ainda" liga a voz do eu-lírico à cadeia de vozes anteriores, indicando que ela permanece ecoando.
Análise das alternativas
1Identificar o que modifica
2Verbo "ecoa" (presente)
3Valor: continuidade/repetição
4Cadeia de vozes ancestrais
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O "ainda" reforça a ideia de repetição: a voz do eu-lírico continua ecoando, assim como as vozes da bisavó, da avó e da mãe ecoaram antes. A repetição do verbo "ecoar" ao longo do poema — "ecoou criança", "ecoou obediência", "ecoou baixinho revolta", "ainda ecoa versos perplexos" — mostra que o "ainda" marca a persistência desse eco, ou seja, a repetição da ação no presente. É o valor de continuidade, de algo que não parou.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que "ainda" se refere a uma prática encerrada no passado. O texto contradiz isso: o eu-lírico diz "a minha voz ainda ecoa" — o verbo está no presente ("ecoa"), e o "ainda" reforça que essa ação continua acontecendo. Se fosse encerrada, o verbo estaria no pretérito ("ecoou"), como nas estrofes anteriores. A alternativa contradiz o texto ao inverter o valor temporal.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que "ainda" se refere a uma prática futura. O verbo "ecoa" está no presente do indicativo, indicando ação que ocorre agora, não no futuro. O "ainda" aqui não tem valor de "ainda vou fazer" (futuro), mas de "continua fazendo" (presente contínuo). A alternativa extrapola ao atribuir ao advérbio um valor temporal que o contexto não autoriza.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que "ainda" qualifica a voz do eu-lírico. "Qualificar" significa atribuir uma característica, como faz um adjetivo ("voz forte", "voz doce"). O "ainda" não atribui qualidade à voz; ele modifica o verbo "ecoa", indicando a circunstância de tempo/continuidade da ação. É um advérbio que se liga ao verbo, não um adjetivo que qualifica o substantivo "voz". A alternativa troca o conceito: confunde a função do advérbio com a do adjetivo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que "ainda" qualifica os versos ecoados. Os "versos perplexos" são qualificados pelo adjetivo "perplexos" ("versos perplexos"), não pelo advérbio "ainda". O "ainda" modifica o verbo "ecoa", indicando que a ação de ecoar continua. A alternativa troca o referente: atribui ao advérbio uma função que pertence ao adjetivo "perplexos".
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre advérbio (que modifica verbo, adjetivo ou outro advérbio) e adjetivo (que qualifica substantivo). As alternativas D e E tentam fazer o candidato achar que "ainda" qualifica algo, quando na verdade ele modifica o verbo "ecoa", indicando continuidade/repetição.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar o valor de um advérbio, pergunte: o que ele modifica? Se modifica verbo, indica circunstância (tempo, modo, intensidade...). Se modifica adjetivo/advérbio, intensifica. Aqui, "ainda" modifica "ecoa" (verbo) e indica tempo com valor de continuidade — a ação se repete no presente.
Gabarito: letra A. A resposta se prova pela cadeia de vozes que ecoam de geração em geração: o "ainda" marca que a voz do eu-lírico permanece ecoando, repetindo o gesto das ancestrais. Teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta leitura, ou exige acrescentar algo de fora? B e C inventam valores temporais que o contexto nega; D e E confundem advérbio com adjetivo. A única inteiramente sustentada pelo poema é a A.