Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024
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Código
fc146723
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )
Estatuto do Amor
Não esperes aquele ano em que, por obra de tua violência, a tua família seja dizimada, para só então descobrires a gravidade indizível de tua infância. Para saberes que gozo terias sentido se, em vez de matá-la, a tivesses levado ao pélo enquanto vivia.
Mergulha, sim, na liturgia do amor e renuncia à tua descabida ira. O amor é e será sempre teu melhor gesto na terra. O único capaz de projetar luz sobre esta precária existência humana.
Não permitas que, sob o jugo de tua ira, mulher e filhos fiquem ao desabrigo da sorte, ingrata e imprevidente.
Defende o teu lar de ti mesmo. Da tua ferocidade, da tua paixão desenfreada, da ânsia de golpear, de mutilar, de maltratar, como se te coubesse este desapiedado e falso exercício da Justiça.
Mas se, no futuro, o amor à mulher se esgote, não é razão para deixar em seu lugar os traços do desamor, o estigma da maldade. Nenhum pedaço de carne humana merece ser golpeado pela indiferença, pela violência, pela injustiça. Portanto, não abatas a tiro, a tapas, a arranhões, o corpo da mulher.
Não lhe negues, então, o olhar compassivo, as lágrimas conspurcadas por uma realidade que traiu teus sonhos. Quem quer que esteja no recinto sagrado do lar é, ao mesmo tempo, o sucessor do teu horror e da tua capacidade de maravilhar-se.
Aprenda que o outro é o teu lar. É o teu corpo, o teu nome, o teu outro rosto. É o verso e o reverso de tuas entranhas. É o espelho de tua inalienável humanidade.
(Adaptado de: PICON, Nélida. Uma furtiva lágrima. Rio de Janeiro: Record, 2019. pp. 15-19)
Leia o texto abaixo para responder à questão. O "estatuto do amor" sugerido no texto
Apretende instaurar um regulador moral para o papel feminino na vida doméstica.
Brepele a ideia da autoridade masculina fundamentada no exercício da violência.
Crestringe a experiência humana plena à vida familiar.
Datribui ao homem o exercício integral da justiça, tanto na esfera pública quanto privada.
Ealerta-nos para a necessidade de se defender o lar de ameaças externas.
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GabaritoB — repele a ideia da autoridade masculina fundamentada no exercício da violência.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O "estatuto do amor" e a rejeição da violência como fundamento da autoridade
Gabarito: letra B. O texto repele a ideia de autoridade masculina fundamentada na violência, como se prova na passagem em que o autor ordena: "Defende o teu lar de ti mesmo. Da tua ferocidade, da tua paixão desenfreada, da ânsia de golpear, de mutilar, de maltratar, como se te coubesse este desapiedado e falso exercício da Justiça." O trecho desqualifica a violência como exercício legítimo de justiça, exatamente o que a alternativa B afirma.
O comando pede compreensão — "O 'estatuto do amor' sugerido no texto" —, ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel de uma ideia que o texto sustenta, sem deduções nem acréscimos. Não se trata de inferir algo nas entrelinhas, mas de localizar a tese central e reconhecer sua reescritura correta entre as opções.
O texto é um texto argumentativo em tom de exortação (uso constante do imperativo: "Mergulha", "Não permitas", "Defende"). A tese nuclear é a condenação da violência doméstica e a defesa do amor como único gesto digno. O autor fala diretamente a um "tu" — o homem, o marido, o pai — e o adverte contra a própria ira. O movimento argumentativo é claro: a violência é um "falso exercício da Justiça" e o lar deve ser defendido "de ti mesmo", ou seja, da ferocidade interna, não de ameaças externas.
A técnica que decide a questão é o teste da autorização textual: cada alternativa deve ser confrontada com uma passagem que a sustente integralmente. A alternativa correta é a única que encontra respaldo literal; as demais ou extrapolam, ou restringem, ou contradizem o texto. Vejamos:
"Defende o teu lar de ti mesmo. Da tua ferocidade, da tua paixão desenfreada, da ânsia de golpear, de mutilar, de maltratar, como se te coubesse este desapiedado e falso exercício da Justiça."
Aqui está a chave: o texto repele a violência como forma de autoridade. A expressão "falso exercício da Justiça" é decisiva — o autor nega que a violência seja justiça. A alternativa B parafraseia exatamente isso: "repele a ideia da autoridade masculina fundamentada no exercício da violência".
Teste da autorização textual
1✅ Paráfrase fiel
Repele violência como autoridade
"Falso exercício da Justiça"
2❌ Extrapolação
Regulador moral do papel feminino
3❌ Restrição indevida
Experiência plena limitada à família
4❌ Contradição
Atribui justiça integral ao homem
Defesa contra ameaças externas
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa afirma que o texto "pretende instaurar um regulador moral para o papel feminino na vida doméstica". O texto não fala do papel feminino; fala do comportamento do homem ("tu", "tua ira", "teu lar"). A mulher aparece como vítima potencial da violência, não como destinatária de regras. Não há nenhuma passagem que atribua à mulher um papel doméstico a ser regulado. A alternativa extrapola ao inventar um propósito que o texto não declara.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A única sustentada pelo texto. A passagem "Defende o teu lar de ti mesmo... como se te coubesse este desapiedado e falso exercício da Justiça" mostra que o autor rejeita a violência como fundamento de autoridade. A expressão "falso exercício da Justiça" desqualifica a violência; o texto a repele explicitamente. A alternativa é uma paráfrase fiel dessa ideia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: restrição indevida. A alternativa diz que o texto "restringe a experiência humana plena à vida familiar". O texto valoriza o amor e o lar, mas não diz que a experiência humana plena se limita à família. Pelo contrário, o último parágrafo amplia o conceito: "Aprenda que o outro é o teu lar. É o teu corpo, o teu nome, o teu outro rosto." O texto universaliza o amor para o outro, não o restringe ao âmbito familiar. A alternativa restringe indevidamente o alcance do texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que o texto "atribui ao homem o exercício integral da justiça, tanto na esfera pública quanto privada". O texto faz o oposto: chama a violência de "falso exercício da Justiça". O autor não atribui justiça ao homem; ele nega que a violência seja justiça. A alternativa contradiz frontalmente a tese central.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o texto alerta "para a necessidade de se defender o lar de ameaças externas". O texto diz o contrário: "Defende o teu lar de ti mesmo." A ameaça é interna — a ira, a ferocidade do próprio homem —, não externa. A alternativa inverte o sentido da passagem, trocando o alvo da defesa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a inversão de sentido nas alternativas D e E, que trocam o alvo da crítica (a violência como justiça; a ameaça interna como externa). A alternativa C usa restrição indevida com o absoluto "restringe". A correta é a única que mantém a direção argumentativa do texto.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". Palavras absolutas como "restringe", "integral", "externas" acendem alerta — confronte-as com o alcance real do texto.
Gabarito: letra B. A regra de ouro: a resposta correta é a única que o texto sustenta integralmente — nem mais, nem menos do que ele diz. As demais ou extrapolam, ou restringem, ou contradizem a tese central.