Não esperes aquele ano em que, por obra de tua violência, a tua família seja dizimada, para só então descobrires a gravidade indizível de tua infância. Para saberes que gozo terias sentido se, em vez de matá-la, a tivesses levado ao pélo enquanto vivia.
Mergulha, sim, na liturgia do amor e renuncia à tua descabida ira. O amor é e será sempre teu melhor gesto na terra. O único capaz de projetar luz sobre esta precária existência humana.
Não permitas que, sob o jugo de tua ira, mulher e filhos fiquem ao desabrigo da sorte, ingrata e imprevidente.
Defende o teu lar de ti mesmo. Da tua ferocidade, da tua paixão desenfreada, da ânsia de golpear, de mutilar, de maltratar, como se te coubesse este desapiedado e falso exercício da Justiça.
Mas se, no futuro, o amor à mulher se esgote, não é razão para deixar em seu lugar os traços do desamor, o estigma da maldade. Nenhum pedaço de carne humana merece ser golpeado pela indiferença, pela violência, pela injustiça. Portanto, não abatas a tiro, a tapas, a arranhões, o corpo da mulher.
Não lhe negues, então, o olhar compassivo, as lágrimas conspurcadas por uma realidade que traiu teus sonhos. Quem quer que esteja no recinto sagrado do lar é, ao mesmo tempo, o sucessor do teu horror e da tua capacidade de maravilhar-se.
Aprenda que o outro é o teu lar. É o teu corpo, o teu nome, o teu outro rosto. É o verso e o reverso de tuas entranhas. É o espelho de tua inalienável humanidade.
(Adaptado de: PICON, Nélida. Uma furtiva lágrima. Rio de Janeiro: Record, 2019. pp. 15-19)
Leia o texto abaixo para responder à questão.
O trecho Portanto, não abatas a tiro, a tapas, a arranhões, o corpo da mulher. indica a
Aoposição entre duas premissas.
Bexplicação sobre determinado fenômeno.
Cexposição de uma alternativa a determinada proposição.
Dconclusão de uma determinada premissa.
Erelativização de um argumento pré-determinado.
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GabaritoD — conclusão de uma determinada premissa.
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O valor conclusivo de "portanto" no texto
Gabarito: letra D. O trecho "Portanto, não abatas a tiro, a tapas, a arranhões, o corpo da mulher" indica a conclusão de uma determinada premissa, pois a conjunção portanto é uma conjunção coordenativa conclusiva, que introduz uma consequência lógica do que foi afirmado anteriormente. No texto, a premissa é a de que "nenhum pedaço de carne humana merece ser golpeado pela indiferença, pela violência, pela injustiça", e a conclusão é a ordem de não agredir a mulher.
O comando da questão
A questão pede que você identifique a relação semântica estabelecida pela conjunção portanto no trecho destacado. Isso é uma questão de compreensão de texto com foco em conectivos: você não precisa inferir nada além do que está escrito, apenas reconhecer o valor lógico do conectivo no contexto. O verbo "indica" aponta para uma relação explícita — a resposta está na própria estrutura do período.
O texto e a premissa
O texto é um texto argumentativo-injuntivo: o autor (Nélida Piçon) defende a não violência doméstica e dá conselhos diretos ao leitor. No parágrafo em questão, ele constrói um raciocínio:
"Nenhum pedaço de carne humana merece ser golpeado pela indiferença, pela violência, pela injustiça. Portanto, não abatas a tiro, a tapas, a arranhões, o corpo da mulher."
A primeira oração é a premissa (a justificativa: ninguém merece ser agredido). A segunda, introduzida por portanto, é a conclusão (a ordem: não agrida a mulher). O conectivo portanto sinaliza exatamente essa passagem de premissa para conclusão.
A técnica: reconhecer a conjunção conclusiva
As conjunções coordenativas conclusivas são: logo, portanto, por conseguinte, por isso, assim, pois (quando deslocado). Elas introduzem uma conclusão ou consequência lógica do que foi dito antes. A estrutura típica é: [premissa] + portanto + [conclusão].
No trecho, a relação é clara:
Premissa: "Nenhum pedaço de carne humana merece ser golpeado..."
Conclusão: "não abatas... o corpo da mulher"
A banca quer que você perceba que portanto não estabelece oposição, nem explicação, nem alternativa, nem relativização — apenas conclusão.
Análise das alternativas
Conjunções coordenativas: Conclusivas (logo, portanto, por conseguinte, por isso, assim, pois (deslocado), premissa → conclusão); Adversativas (mas, porém, contudo, todavia, oposição/contraste); Explicativas (porque, pois, porquanto, justificativa); Alternativas (ou, ou...ou, ora...ora, alternância/escolha); Concessivas (embora, ainda que, conquanto, ressalva/relativização)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Oposição entre duas premissas. A conjunção portanto não é adversativa; ela não contrapõe ideias. Oposição seria marcada por mas, porém, contudo, todavia. No trecho, não há quebra de expectativa nem contraste — há uma sequência lógica de premissa para conclusão. A alternativa confunde o valor de portanto com o de mas.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Explicação sobre determinado fenômeno. A conjunção portanto não introduz explicação; explicação seria marcada por porque, pois, porquanto (no início da oração). A oração introduzida por portanto não justifica o que foi dito antes; ela decorre do que foi dito. A alternativa troca o valor conclusivo pelo explicativo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Exposição de uma alternativa a determinada proposição. A conjunção portanto não expressa alternância ou escolha; isso seria marcado por ou, ou...ou, ora...ora. No trecho, não há duas opções — há uma ordem que decorre de uma justificativa. A alternativa inventa uma relação que o texto não estabelece.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Conclusão de uma determinada premissa. Exatamente o valor de portanto. A premissa é a afirmação de que ninguém merece ser agredido; a conclusão é a ordem de não agredir a mulher. O conectivo portanto sinaliza essa relação de consequência lógica. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Relativização de um argumento pré-determinado. A conjunção portanto não relativiza nem atenua um argumento; relativização seria marcada por embora, ainda que, conquanto (concessivas). No trecho, o autor não faz ressalva — ele reforça a conclusão. A alternativa confunde conclusão com concessão.
Fechamento
A regra de ouro: conjunção conclusiva = premissa + portanto + conclusão. Quando a banca perguntar o valor de um conectivo, teste mentalmente qual relação ele estabelece entre as orações: se a segunda é consequência da primeira, é conclusão; se é justificativa, é explicação; se é contraste, é oposição. Aqui, portanto só pode ser conclusão.