Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146725
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )
Estatuto do Amor
Não esperes aquele ano em que, por obra de tua violência, a tua família seja dizimada, para só então descobrires a gravidade indizível de tua infância. Para saberes que gozo terias sentido se, em vez de matá-la, a tivesses levado ao pélo enquanto vivia.
Mergulha, sim, na liturgia do amor e renuncia à tua descabida ira. O amor é e será sempre teu melhor gesto na terra. O único capaz de projetar luz sobre esta precária existência humana.
Não permitas que, sob o jugo de tua ira, mulher e filhos fiquem ao desabrigo da sorte, ingrata e imprevidente.
Defende o teu lar de ti mesmo. Da tua ferocidade, da tua paixão desenfreada, da ânsia de golpear, de mutilar, de maltratar, como se te coubesse este desapiedado e falso exercício da Justiça.
Mas se, no futuro, o amor à mulher se esgote, não é razão para deixar em seu lugar os traços do desamor, o estigma da maldade. Nenhum pedaço de carne humana merece ser golpeado pela indiferença, pela violência, pela injustiça. Portanto, não abatas a tiro, a tapas, a arranhões, o corpo da mulher.
Não lhe negues, então, o olhar compassivo, as lágrimas conspurcadas por uma realidade que traiu teus sonhos. Quem quer que esteja no recinto sagrado do lar é, ao mesmo tempo, o sucessor do teu horror e da tua capacidade de maravilhar-se.
Aprenda que o outro é o teu lar. É o teu corpo, o teu nome, o teu outro rosto. É o verso e o reverso de tuas entranhas. É o espelho de tua inalienável humanidade.
(Adaptado de: PICON, Nélida. Uma furtiva lágrima. Rio de Janeiro: Record, 2019. pp. 15-19)
Leia o texto abaixo para responder à questão. No segmento: Não permitas que, sob o jugo de tua ira, mulher e filhos fiquem ao desabrigo da sorte, ingrata e imprevidente. Defende o teu lar de ti mesmo. O uso do modo imperativo
Arevela a intenção de chamada à consciência e captura sensível de um receptor hipotético.
Breforça o caráter moralizante do texto, que pretende delimitar o que cabe a cada um dos membros de uma família ideal.
Cdescreve uma ação efetiva a ser realizada por todos os membros de uma família.
Dtem a função de destacar a precariedade das relações humanas fora do âmbito familiar.
Eaproxima afetivamente o leitor das ideias expostas, por meio de uma informalidade discursiva.
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GabaritoA — revela a intenção de chamada à consciência e captura sensível de um receptor hipotético.
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O modo imperativo e a função apelativa no texto de Nélida Piñon
Gabarito: letra A. O uso do modo imperativo em "Não permitas" e "Defende" revela a intenção de chamada à consciência e captura sensível de um receptor hipotético, pois o texto se dirige diretamente a um "tu" (receptor) para persuadi-lo a agir de determinada forma, apelando para sua sensibilidade e consciência moral. A passagem que ancora essa leitura é o trecho em que o autor convoca o interlocutor a uma reflexão profunda sobre suas ações, como se lê em "Defende o teu lar de ti mesmo".
O comando da questão pede que se analise o efeito de sentido do uso do modo imperativo no segmento destacado. Isso não é uma questão de mera classificação gramatical (identificar que "Não permitas" e "Defende" são verbos no imperativo), mas sim de interpretação textual: qual a intenção comunicativa do autor ao empregar esse modo verbal? O imperativo é o modo da ordem, do conselho, do pedido, da súplica — ou seja, da função apelativa/conativa da linguagem, que busca influenciar o comportamento do interlocutor. No texto, o autor não está descrevendo uma ação (o que seria o indicativo), nem expressando uma possibilidade (subjuntivo), mas convocando o leitor a uma mudança de postura.
O texto de Nélida Piñon é um texto injuntivo-argumentativo: ele mistura a estrutura de conselhos/ordens (típica do injuntivo) com uma forte carga argumentativa e emocional. A tese central é a defesa do amor e da não violência no lar. O autor se dirige diretamente a um "tu" hipotético — alguém que poderia cometer violência doméstica — e o exorta a não fazê-lo. Os verbos no imperativo são o principal recurso para essa exortação: "Mergulha", "renuncia", "Não permitas", "Defende", "não abatas", "Não lhe negues". Todos esses verbos têm a função de capturar a atenção do receptor e apelar à sua consciência, criando um efeito de proximidade e urgência.
A técnica para resolver esta questão é identificar a função da linguagem predominante no trecho. O imperativo é a marca morfológica da função apelativa. A alternativa correta (A) captura exatamente isso: "chamada à consciência" (apelo à reflexão moral) e "captura sensível" (apelo emocional) de um "receptor hipotético" (o "tu" a quem o texto se dirige, que não é uma pessoa específica, mas um interlocutor genérico). As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou restringem seu alcance, ou contradizem o que está escrito.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o efeito de sentido do imperativo (função apelativa) e outras possíveis leituras. A alternativa B, por exemplo, parece plausível porque o texto tem um tom moralizante, mas ela restringe o alcance ao dizer que o texto "pretende delimitar o que cabe a cada um dos membros de uma família ideal" — o texto não delimita papéis, apenas exorta a não violência. A alternativa E também é sedutora, mas o texto não é informal; ele é solene e poético.
Modo imperativo: Função apelativa/conativa (Ordem, conselho, súplica, Convoca o interlocutor a agir); Efeito no texto (Chamada à consciência, Captura sensível do receptor, Receptor hipotético (tu genérico)); O que NÃO é (Descrever ação (indicativo), Expressar dúvida (subjuntivo), Informalidade discursiva)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A está correta porque descreve com precisão o efeito do imperativo no trecho. O verbo "Defende" e a locução "Não permitas" são formas verbais que expressam uma ordem, um conselho, uma exortação. O autor não está descrevendo uma ação (indicativo), nem expressando uma dúvida (subjuntivo), mas convocando o interlocutor a agir. Essa convocação é uma "chamada à consciência" porque o texto apela para a reflexão moral do receptor ("Defende o teu lar de ti mesmo" — ou seja, reflita sobre seus próprios impulsos violentos). E é uma "captura sensível" porque o texto usa uma linguagem poética e emocional ("liturgia do amor", "lágrimas conspurcadas") para tocar o leitor. O receptor é "hipotético" porque não é uma pessoa específica, mas um "tu" genérico, qualquer pessoa que possa se identificar com a situação descrita.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B erra ao afirmar que o texto "pretende delimitar o que cabe a cada um dos membros de uma família ideal". O texto não delimita papéis ou funções de cada membro da família; ele faz um apelo genérico à não violência. O trecho "Defende o teu lar de ti mesmo" não diz o que cada membro deve fazer, mas exorta o interlocutor a controlar sua própria ira. A palavra "ideal" também é uma extrapolação: o texto não fala de uma família ideal, mas de um lar real que pode ser destruído pela violência. O erro aqui é de restrição/extrapolação: a alternativa restringe o alcance do texto (delimitar papéis) e acrescenta uma ideia que não está presente (família ideal).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C erra ao afirmar que o imperativo "descreve uma ação efetiva a ser realizada por todos os membros de uma família". O modo imperativo não descreve uma ação; ele ordena, aconselha, exorta. Descrever é função do modo indicativo (ex.: "ele defende o lar"). Além disso, o texto não se dirige a "todos os membros da família", mas a um interlocutor específico (o "tu" que pode cometer violência). A alternativa confunde a função do modo verbal (descrever × ordenar) e generaliza o receptor (todos os membros × um interlocutor específico). O erro é de troca de conceito (função do imperativo) e generalização.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D erra ao afirmar que o imperativo "tem a função de destacar a precariedade das relações humanas fora do âmbito familiar". O texto não fala de relações humanas fora do âmbito familiar; ele foca exclusivamente no lar, na família e na violência doméstica. A expressão "fora do âmbito familiar" é uma extrapolação: o texto não aborda esse tema. O imperativo, no trecho, serve para exortar o interlocutor a proteger o lar, não para destacar a precariedade de relações externas. O erro é de fuga ao tema (tangenciar um assunto que o texto não aborda).
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E erra ao afirmar que o imperativo "aproxima afetivamente o leitor das ideias expostas, por meio de uma informalidade discursiva". Embora o imperativo crie proximidade, o texto não é informal. A linguagem é solene, poética e rebuscada: "liturgia do amor", "lágrimas conspurcadas", "recinto sagrado do lar". Não há marcas de informalidade (gírias, coloquialismos, contrações típicas da fala). A alternativa acrescenta uma opinião (informalidade) que não se sustenta no texto. O erro é de acréscimo de opinião (atribuir ao texto uma característica que ele não tem).
PEGA ESSA DICA!
Para questões sobre o efeito do modo verbal, pergunte-se: "qual a intenção do autor ao usar essa forma?" O imperativo sempre aponta para a função apelativa (convencer, ordenar, aconselhar). Se a alternativa falar em "descrever" ou "informar", desconfie — isso é função do indicativo.
Gabarito: letra A. A única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a que reconhece no imperativo a função de chamada à consciência e captura sensível de um receptor hipotético, como se vê em "Defende o teu lar de ti mesmo" — um apelo direto, emocional e moral ao interlocutor.