Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024
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Código
fc146726
Banca
FCC
Órgão
TJ AL
Ano
2024
Cargo
TJ ( )
Estatuto do Amor
Não esperes aquele ano em que, por obra de tua violência, a tua família seja dizimada, para só então descobrires a gravidade indizível de tua infância. Para saberes que gozo terias sentido se, em vez de matá-la, a tivesses levado ao pélo enquanto vivia.
Mergulha, sim, na liturgia do amor e renuncia à tua descabida ira. O amor é e será sempre teu melhor gesto na terra. O único capaz de projetar luz sobre esta precária existência humana.
Não permitas que, sob o jugo de tua ira, mulher e filhos fiquem ao desabrigo da sorte, ingrata e imprevidente.
Defende o teu lar de ti mesmo. Da tua ferocidade, da tua paixão desenfreada, da ânsia de golpear, de mutilar, de maltratar, como se te coubesse este desapiedado e falso exercício da Justiça.
Mas se, no futuro, o amor à mulher se esgote, não é razão para deixar em seu lugar os traços do desamor, o estigma da maldade. Nenhum pedaço de carne humana merece ser golpeado pela indiferença, pela violência, pela injustiça. Portanto, não abatas a tiro, a tapas, a arranhões, o corpo da mulher.
Não lhe negues, então, o olhar compassivo, as lágrimas conspurcadas por uma realidade que traiu teus sonhos. Quem quer que esteja no recinto sagrado do lar é, ao mesmo tempo, o sucessor do teu horror e da tua capacidade de maravilhar-se.
Aprenda que o outro é o teu lar. É o teu corpo, o teu nome, o teu outro rosto. É o verso e o reverso de tuas entranhas. É o espelho de tua inalienável humanidade.
(Adaptado de: PICON, Nélida. Uma furtiva lágrima. Rio de Janeiro: Record, 2019. pp. 15-19)
Leia o texto abaixo para responder à questão.
Não lhe negues, então, o olhar compassivo, as lágrimas conspurcadas por uma realidade que traiu teus sonhos. Quem quer que esteja no recinto sagrado do lar é, ao mesmo tempo, o sucessor do teu horror e da tua capacidade de maravilhar-se.
No trecho:
Auma mulher "ideal" é projetada como receptora da mensagem ética ali exposta.
Ba autora define o "estatuto do amor" como um elemento provocador tanto de horror quanto de maravilhamento.
Ca autora afirma que somente aqueles que compreendem a realidade seriam dignos de compaixão.
Da autora opõe-se à banalização da violência doméstica e afirma que, mesmo com o fim do amor, as mulheres seriam dignas de compaixão.
Ea autora argumenta que as lágrimas não deveriam ser conspurcadas por sonhos irrealizáveis.
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GabaritoD — a autora opõe-se à banalização da violência doméstica e afirma que, mesmo com o fim do amor, as mulheres seriam dignas de compaixão.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Interpretação do trecho: a dignidade da mulher mesmo após o fim do amor
Gabarito: letra D. A alternativa correta é a única que sintetiza com fidelidade o núcleo argumentativo do trecho: a autora opõe-se à banalização da violência doméstica e afirma que, mesmo com o fim do amor, as mulheres seriam dignas de compaixão. Essa leitura é autorizada diretamente pela passagem "Mas se, no futuro, o amor à mulher se esgote, não é razão para deixar em seu lugar os traços do desamor, o estigma da maldade" e pelo imperativo "Portanto, não abatas a tiro, a tapas, a arranhões, o corpo da mulher". As demais alternativas ou extrapolam o que está escrito, ou restringem indevidamente o alcance da mensagem, ou contradizem o texto.
O comando pede uma interpretação do trecho — não uma mera localização de informação explícita, mas a compreensão do sentido global que o autor constrói. Isso significa que a resposta correta deve ser uma paráfrase fiel do que está dito, sem acrescentar ideias de fora (extrapolação) e sem reduzir o alcance do que foi afirmado (restrição). Vamos ao método: primeiro, identificar o tema e a tese do trecho; depois, testar cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige que eu acrescente algo de fora?".
O trecho em questão é o clímax argumentativo do texto "Estatuto do Amor". A autora constrói um conselho direto ao leitor (uso da 2ª pessoa: "Não lhe negues"), exortando-o a não abandonar a compaixão mesmo quando o amor acabar. A estrutura é clara: há uma condição ("se, no futuro, o amor à mulher se esgote") e uma conclusão imperativa ("não abatas... o corpo da mulher"). O conectivo "Portanto" sela a relação lógica: o fim do amor não justifica a violência. A tese, portanto, é a defesa incondicional da dignidade da mulher, independentemente dos sentimentos do agressor.
A armadilha central desta questão é a extrapolação com aparência de verdade. A banca oferece alternativas que soam plausíveis — como a ideia de uma "mulher ideal" (A) ou a de que o amor provoca horror e maravilhamento (B) — mas que não encontram respaldo no trecho. A técnica decisiva é ancorar cada alternativa em uma passagem específica: se não houver passagem que a sustente, a alternativa está errada, ainda que pareça razoável no mundo real. Vamos aplicar isso a cada letra.
Tese do trecho
1Oposição à banalização da violência doméstica
Não abatas o corpo da mulher
2Dignidade da mulher mesmo sem amor
Fim do amor não justifica desamor
Nenhum pedaço de carne humana merece golpe
3Estrutura argumentativa
Condição: "se o amor se esgote"
Conclusão: "Portanto, não abatas"
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Não lhe negues, então, o olhar compassivo..."
A alternativa afirma que uma mulher "ideal" é projetada como receptora da mensagem. O texto, porém, não fala em mulher "ideal" — fala em mulher concreta, vítima potencial de violência doméstica. A palavra "ideal" é uma extrapolação: o texto não qualifica a mulher como ideal, nem sugere que a compaixão seja reservada a um modelo perfeito. Pelo contrário, a mensagem é universal: "Quem quer que esteja no recinto sagrado do lar". A alternativa restringe o alcance da mensagem ao inventar uma categoria ("ideal") que o texto não menciona.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Quem quer que esteja no recinto sagrado do lar é, ao mesmo tempo, o sucessor do teu horror e da tua capacidade de maravilhar-se."
A alternativa diz que a autora define o "estatuto do amor" como um elemento provocador tanto de horror quanto de maravilhamento. Há uma troca de referente: no texto, quem é "sucessor do horror e da capacidade de maravilhar-se" é a pessoa que está no lar (o outro, o familiar), não o "estatuto do amor". Além disso, o texto não define o amor como provocador de horror — o horror é uma característica humana (a ferocidade, a ira) que o amor deve combater. A alternativa contradiz a tese central, que apresenta o amor como o "melhor gesto na terra", capaz de "projetar luz", e não como fonte de horror.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Não lhe negues, então, o olhar compassivo..."
A alternativa afirma que "somente aqueles que compreendem a realidade seriam dignos de compaixão". O texto diz exatamente o oposto: a compaixão deve ser dada mesmo quando a realidade traiu os sonhos ("as lágrimas conspurcadas por uma realidade que traiu teus sonhos"). A palavra "somente" é um absoluto restritivo que inverte o sentido: o texto não condiciona a compaixão à compreensão da realidade; pelo contrário, ele a exige justamente quando a realidade é adversa. A alternativa contradiz o texto ao introduzir uma condição que não existe.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Mas se, no futuro, o amor à mulher se esgote, não é razão para deixar em seu lugar os traços do desamor, o estigma da maldade. Nenhum pedaço de carne humana merece ser golpeado pela indiferença, pela violência, pela injustiça. Portanto, não abatas a tiro, a tapas, a arranhões, o corpo da mulher."
A alternativa D é uma paráfrase fiel do trecho. Ela capta os dois movimentos centrais: (1) a oposição à banalização da violência doméstica — o texto condena explicitamente o ato de "abater a tiro, a tapas, a arranhões o corpo da mulher"; e (2) a afirmação de que, mesmo com o fim do amor, a mulher é digna de compaixão — o texto diz que o esgotamento do amor "não é razão" para deixar "os traços do desamor" e que "nenhum pedaço de carne humana merece ser golpeado". A conjunção "mesmo" da alternativa corresponde à concessão expressa por "Mas se... se esgote" no texto: a condição adversa não elimina o dever de compaixão. Nada aqui é acrescentado ou suprimido — é exatamente o que o trecho afirma.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Não lhe negues, então, o olhar compassivo, as lágrimas conspurcadas por uma realidade que traiu teus sonhos."
A alternativa afirma que as lágrimas "não deveriam ser conspurcadas por sonhos irrealizáveis". Há uma troca de vocábulo que inverte o sentido: no texto, as lágrimas são conspurcadas pela realidade que traiu os sonhos — e, ainda assim, devem ser oferecidas com compaixão. A alternativa transforma a constatação (as lágrimas estão conspurcadas) em uma recomendação negativa (não deveriam ser conspurcadas), o que não está no texto. Além disso, o texto não qualifica os sonhos como "irrealizáveis" — diz apenas que a realidade os "traiu". A alternativa extrapola ao acrescentar o juízo de "irrealizáveis" e contradiz ao inverter a relação entre lágrimas e conspurcação.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação, grife os conectivos (mas, portanto, se) e os imperativos (não abatas, não lhe negues). Eles revelam a estrutura argumentativa: a condição, a oposição e a conclusão. A alternativa correta é a que respeita essa estrutura sem acrescentar nada.
Gabarito: letra D. A regra de ouro: teste cada alternativa perguntando "o texto autoriza isto, ou exige que eu acrescente algo de fora?". A correta é a única inteiramente sustentada pelo trecho — nem mais, nem menos do que ele diz.