Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146822
Banca
FCC
Órgão
TRT 7
Ano
2024
Cargo
TJ TRT7
[Vida a compartilhar]
Um jovem amigo meu é uma pessoa exasperada e deprimida. Na semana passada, ele foi atraído por uma história edificante. Uma escola americana dedicara um anfiteatro a uma professora de escola fundamental que, depois de uma longa carreira de ensino, foi paralisada por uma distrofia muscular, e seguiu ensinando. Quando perdeu a voz, passou a ensinar surdos-mudos. Na reportagem, ela estranhava a atenção e os elogios: era uma mulher em paz consigo mesma e com o mundo, sem furores caritativos ou vocações martirológicas. Sua vida parecia simplesmente normal.
Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida. Essa ideia, concordei, passaria por qualquer cabeça. Mas por que a professora não foi por esse caminho? O insuportável numa doença como essa, afirmou então meu interlocutor, são os limites, as impotências.
Observei-lhe então que há uma infinidade de coisas que não conseguimos fazer. Afinal, não sei voar, nem ficar por respirar mais que dois minutos. Com paciência condescendente, meu amigo explicou que essas são coisas que ninguém, ou quase ninguém, consegue fazer. O que dói, acrescentou, é não conseguir fazer as coisas que os outros conseguem. E declarou que, se tivesse uma invalidez grave, talvez pudesse seguir vivendo, mas só entre pessoas tão inválidas quanto ele. Conclusão da conversa: o problema não é a invalidez, o problema são os outros. Melhor dizendo, a necessidade de se comparar aos outros.
De todo modo, ficamos sem apurar que tipo de energia animava aquela prejudicada professora, excepcionalmente apta e disposta a só compartilhar o que tinha de positivo.
(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Terra de ninguém. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 70-71)
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. A história edificante, referida no primeiro parágrafo, provocou no jovem amigo do autor uma
Aavaliação pessoal, na qual reconheceu sua incapacidade para superar um limite seu por conta de decisões altruístas.
Bexasperação depressiva, por conta do mau exemplo que ele viu na conduta moral da professora.
Creação positiva, de vez que reconheceu na atitude da professora um exemplo superior de resiliência.
Dresposta compassiva, quando se sentiu um ardoroso admirador de quem se dispõe a sofrer pelos outros.
Ecensura discreta, ao considerar que a escolha da professora podia ser interpretada como um martírio caridoso.
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GabaritoA — avaliação pessoal, na qual reconheceu sua incapacidade para superar um limite seu por conta de decisões altruístas.
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A reação do jovem amigo à história edificante
Gabarito: letra A. A história da professora que seguiu ensinando mesmo após ser paralisada por distrofia muscular provocou no jovem amigo uma avaliação pessoal — ele se colocou no lugar dela e reconheceu sua própria incapacidade de suportar os limites que a doença impõe. A passagem que ancora essa leitura está no segundo parágrafo: "Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida." A alternativa A é a única que capta exatamente esse movimento: o amigo não julga a professora, mas projeta-se nela e avalia a si mesmo.
O comando pede compreensão — "provocou no jovem amigo" —, ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que o texto afirma, sem deduções que ultrapassem as pistas. A tarefa é localizar a reação do amigo diante da história e identificar qual alternativa a descreve com precisão. Não se trata de inferir o que ele sentiu, mas de reconhecer o que o texto registra explicitamente.
O texto narra a história de uma professora que, mesmo após ser paralisada por distrofia muscular e perder a voz, seguiu ensinando — inclusive surdos-mudos. A reação do jovem amigo é imediata e reveladora: ele afirma que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com a própria vida. Essa fala não expressa admiração, compaixão ou censura; expressa uma avaliação pessoal de sua própria capacidade de lidar com a situação. Ele não diz que a professora deveria ter feito algo diferente; diz que ele não suportaria.
A técnica que decide esta questão é a paráfrase com fidelidade ao alcance do texto. Cada alternativa errada ou acrescenta um sentimento que o texto não registra (extrapolação), ou inverte o sentido da reação (contradição), ou foge ao que foi dito. A correta, por sua vez, traduz com precisão o gesto do amigo: ele se compara à professora e reconhece sua própria limitação — "reconheceu sua incapacidade para superar um limite seu". O texto não diz que ele tomou alguma decisão altruísta; diz apenas que ele se colocou no lugar dela e concluiu que não suportaria. A alternativa A, ao falar em "avaliação pessoal", capta exatamente esse movimento de autoavaliação.
"Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida."
Essa fala é a chave: o amigo não elogia, não critica, não se compadece — ele se projeta na situação e avalia a si mesmo. A alternativa A é a única que traduz esse gesto sem acrescentar nada.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve com precisão a reação do jovem amigo: uma avaliação pessoal em que ele reconhece sua incapacidade de superar um limite seu. O texto registra: "Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida." Ele não julga a professora; ele se coloca no lugar dela e conclui que não teria forças para seguir. A expressão "avaliação pessoal" capta exatamente esse movimento de autoanálise, e "reconheceu sua incapacidade para superar um limite seu" é a paráfrase fiel de "já teria acabado com sua própria vida".
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa contradiz o texto. O jovem amigo não ficou "exasperado e deprimido" por causa da história; ele já era assim antes de conhecê-la — o texto diz, no primeiro parágrafo, que ele é "uma pessoa exasperada e deprimida". Além disso, ele não viu na professora um "mau exemplo": a reação dele é de autoavaliação, não de reprovação moral. A alternativa inverte o sentido: transforma uma reação de projeção pessoal em uma reação de censura à conduta alheia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa extrapola o texto. O jovem amigo não teve uma "reação positiva" nem reconheceu na professora um "exemplo superior de resiliência". Ele disse que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com a própria vida — o que revela justamente o oposto de uma admiração pela resiliência. A alternativa acrescenta um sentimento de admiração que o texto não registra em nenhum momento.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa extrapola e acrescenta opinião. O texto não diz que o jovem amigo se sentiu um "ardoroso admirador" nem que sentiu compaixão pela professora. A reação dele é de autoavaliação, não de compaixão. A alternativa embute um sentimento nobre que não está no texto — é uma leitura sentimental que o autor não autoriza.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa contradiz o texto. O jovem amigo não fez uma "censura discreta" à professora, nem considerou a escolha dela um "martírio caridoso". Pelo contrário: o texto diz que a professora era "uma mulher em paz consigo mesma e com o mundo, sem furores caritativos ou vocações martirológicas". A alternativa atribui ao amigo uma opinião que o texto explicitamente nega — a de que a atitude da professora poderia ser vista como martírio.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a reação do amigo (autoavaliação) e um julgamento sobre a professora (admiração, compaixão, censura). O texto deixa claro que o amigo se projeta na situação — "se estivesse no lugar dela" — e não emite juízo sobre a conduta alheia.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de compreensão, grife o verbo do enunciado ("provocou") e localize no texto a passagem que descreve a reação. Depois, teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?