Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146823
Banca
FCC
Órgão
TRT 7
Ano
2024
Cargo
TJ TRT7

[Vida a compartilhar]

 

Um jovem amigo meu é uma pessoa exasperada e deprimida. Na semana passada, ele foi atraído por uma história edificante. Uma escola americana dedicara um anfiteatro a uma professora de escola fundamental que, depois de uma longa carreira de ensino, foi paralisada por uma distrofia muscular, e seguiu ensinando. Quando perdeu a voz, passou a ensinar surdos-mudos. Na reportagem, ela estranhava a atenção e os elogios: era uma mulher em paz consigo mesma e com o mundo, sem furores caritativos ou vocações martirológicas. Sua vida parecia simplesmente normal.

 

Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida. Essa ideia, concordei, passaria por qualquer cabeça. Mas por que a professora não foi por esse caminho? O insuportável numa doença como essa, afirmou então meu interlocutor, são os limites, as impotências.

 

Observei-lhe então que há uma infinidade de coisas que não conseguimos fazer. Afinal, não sei voar, nem ficar por respirar mais que dois minutos. Com paciência condescendente, meu amigo explicou que essas são coisas que ninguém, ou quase ninguém, consegue fazer. O que dói, acrescentou, é não conseguir fazer as coisas que os outros conseguem. E declarou que, se tivesse uma invalidez grave, talvez pudesse seguir vivendo, mas só entre pessoas tão inválidas quanto ele. Conclusão da conversa: o problema não é a invalidez, o problema são os outros. Melhor dizendo, a necessidade de se comparar aos outros.

 

De todo modo, ficamos sem apurar que tipo de energia animava aquela prejudicada professora, excepcionalmente apta e disposta a só compartilhar o que tinha de positivo.

 

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Terra de ninguém. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 70-71)

Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo.     No 3º parágrafo, ao considerar que todos nós temos limites, o autor se deparou com a seguinte posição defendida pelo jovem amigo:
  1. Aos males que acometem as outras pessoas passam a ser nossos, quando não os avaliamos com lucidez critica.
  2. Btodo sofrimento compartilhado tende a ir diminuindo na medida em que as pessoas se deem conta de sua inevitabilidade.
  3. Cas pessoas potenciam nossos males, quando não buscam entender a injustiça que se entranha na condenação que nos aflige.
  4. Da ninguém deve animar a esperança de que sua invalidez se apequene diante da invalidez de muitos outros.
  5. Eos males que nos afligem podem tornar-se suportáveis quando na mesma medida afligirem os nossos semelhantes.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — os males que nos afligem podem tornar-se suportáveis quando na mesma medida afligirem os nossos semelhantes.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A posição do jovem amigo sobre os limites e a comparação com os outros

Gabarito: letra E. A alternativa E é a única que traduz fielmente a posição defendida pelo jovem amigo no 3º parágrafo: o que torna um mal suportável é saber que ele aflige igualmente os nossos semelhantes. A passagem que ancora essa leitura é a fala do amigo: "O que dói, acrescentou, é não conseguir fazer as coisas que os outros conseguem", seguida da conclusão: "o problema não é a invalidez, o problema são os outros. Melhor dizendo, a necessidade de se comparar aos outros." A dor, para ele, não está no limite em si, mas na comparação com os outros — e, por isso, o sofrimento se tornaria suportável se fosse compartilhado por todos.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique a posição defendida pelo jovem amigo diante da observação do autor de que "há uma infinidade de coisas que não conseguimos fazer". Isso é uma questão de compreensão (localizar e parafrasear uma ideia explícita no texto), não de inferência. A resposta está literalmente no 3º parágrafo, na fala do amigo. O desafio é reconhecer a paráfrase correta entre alternativas que distorcem ou extrapolam o que foi dito.

O texto e o movimento argumentativo

O autor inicia o 3º parágrafo com uma observação sua: todos nós temos limites (não voar, não ficar dois minutos sem respirar). O jovem amigo rebate essa observação, distinguindo dois tipos de limite: os que ninguém tem (e por isso não doem) e os que os outros têm e nós não (e é isso que dói). A conclusão dele é que o problema não é a invalidez em si, mas a necessidade de se comparar aos outros. A alternativa E captura exatamente essa lógica: o mal (a invalidez, o limite) torna-se suportável quando atinge igualmente os semelhantes — ou seja, quando a comparação deixa de nos colocar em desvantagem.

A técnica que decide

A armadilha central desta questão é a extrapolação com opinião embutida. As alternativas A, B, C e D acrescentam ideias que não estão no texto — como "avaliar com lucidez crítica", "inevitabilidade do sofrimento", "injustiça na condenação" ou "esperança de que a invalidez se apequene". Nenhuma dessas noções aparece na fala do amigo. A alternativa E, ao contrário, é uma paráfrase direta da lógica do amigo: o sofrimento é suportável quando é compartilhado por todos. Teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?" — as erradas exigem, a correta não.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"os males que acometem as outras pessoas passam a ser nossos, quando não os avaliamos com lucidez critica."

Erro: extrapolação. O texto não fala em "avaliar com lucidez crítica" nem em males que "passam a ser nossos". O amigo fala de comparação com os outros, não de avaliação crítica. A expressão "lucidez crítica" é uma opinião embutida que não tem base no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"todo sofrimento compartilhado tende a ir diminuindo na medida em que as pessoas se deem conta de sua inevitabilidade."

Erro: extrapolação. O texto não menciona que o sofrimento "diminui" nem que as pessoas se dão conta de sua "inevitabilidade". O amigo diz que o problema é a comparação, não que o sofrimento diminui com a consciência da inevitabilidade. A palavra "inevitabilidade" é uma ideia estranha ao texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"as pessoas potenciam nossos males, quando não buscam entender a injustiça que se entranha na condenação que nos aflige."

Erro: extrapolação. O texto não fala em "injustiça" nem em "condenação que nos aflige". O amigo não julga os outros como injustos; ele apenas diz que a comparação é o problema. A noção de "injustiça" é uma opinião embutida que não está no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"a ninguém deve animar a esperança de que sua invalidez se apequene diante da invalidez de muitos outros."

Erro: contradiz o texto. O amigo diz exatamente o contrário: se tivesse uma invalidez grave, poderia viver "só entre pessoas tão inválidas quanto ele" — ou seja, a invalidez se apequenaria diante da invalidez de muitos outros. A alternativa D inverte o sentido da fala do amigo.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"os males que nos afligem podem tornar-se suportáveis quando na mesma medida afligirem os nossos semelhantes."

Esta é a paráfrase exata da posição do amigo. Ele diz que o que dói é não conseguir fazer o que os outros conseguem — ou seja, o sofrimento vem da comparação. Se os males afligissem igualmente os semelhantes, a comparação deixaria de doer, e o mal se tornaria suportável. A alternativa E captura essa lógica sem acrescentar nada de fora.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que usam palavras sofisticadas e abstratas ("lucidez crítica", "inevitabilidade", "injustiça") — elas costumam ser opiniões embutidas. A correta é a que parafraseia o texto com simplicidade e fidelidade.

Gabarito: letra E.

Link permanente: /questoes/fc146823