Questão de Português — Correlação Verbal — FCC 2024
Português›Correlação Verbal
Código
fc146824
Banca
FCC
Órgão
TRT 7
Ano
2024
Cargo
TJ TRT7
[Vida a compartilhar]
Um jovem amigo meu é uma pessoa exasperada e deprimida. Na semana passada, ele foi atraído por uma história edificante. Uma escola americana dedicara um anfiteatro a uma professora de escola fundamental que, depois de uma longa carreira de ensino, foi paralisada por uma distrofia muscular, e seguiu ensinando. Quando perdeu a voz, passou a ensinar surdos-mudos. Na reportagem, ela estranhava a atenção e os elogios: era uma mulher em paz consigo mesma e com o mundo, sem furores caritativos ou vocações martirológicas. Sua vida parecia simplesmente normal.
Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida. Essa ideia, concordei, passaria por qualquer cabeça. Mas por que a professora não foi por esse caminho? O insuportável numa doença como essa, afirmou então meu interlocutor, são os limites, as impotências.
Observei-lhe então que há uma infinidade de coisas que não conseguimos fazer. Afinal, não sei voar, nem ficar por respirar mais que dois minutos. Com paciência condescendente, meu amigo explicou que essas são coisas que ninguém, ou quase ninguém, consegue fazer. O que dói, acrescentou, é não conseguir fazer as coisas que os outros conseguem. E declarou que, se tivesse uma invalidez grave, talvez pudesse seguir vivendo, mas só entre pessoas tão inválidas quanto ele. Conclusão da conversa: o problema não é a invalidez, o problema são os outros. Melhor dizendo, a necessidade de se comparar aos outros.
De todo modo, ficamos sem apurar que tipo de energia animava aquela prejudicada professora, excepcionalmente apta e disposta a só compartilhar o que tinha de positivo.
(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Terra de ninguém. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 70-71)
Para responder a questão, baseie-se no texto abaixo. É adequada a articulação entre os tempos e modos verbais na seguinte frase:
AFicamos sem saber por que vem ela se dedicado a atos virtuosos que sua doença lhe impedisse de haver praticado,
BQuando perdesse a voz, em função da distrofia que lhe acometeria, ela passará a ensinar surdos e mudos.
CFora uma mulher em paz consigo mesma, apesar dos sofrimentos que a vida lhe reserve, ao desafiar seus limites.
DQuando me confessou que se mataria, não me surpreendi e disse que muita gente poderia vir a tomar igual decisão.
ESegundo meu amigo, a dor maior comparece quando nos convencêssemos de que não sejamos os únicos a sofrer.
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GabaritoD — Quando me confessou que se mataria, não me surpreendi e disse que muita gente poderia vir a tomar igual decisão.
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Correlação verbal: a harmonia entre tempos e modos
Gabarito: letra D. A frase "Quando me confessou que se mataria, não me surpreendi e disse que muita gente poderia vir a tomar igual decisão" é a única em que os tempos e modos verbais se articulam com perfeita harmonia: o pretérito perfeito do indicativo (confessou, surpreendi, disse) estabelece o fato passado, e o futuro do pretérito (se mataria, poderia vir a tomar) expressa a consequência hipotética desse fato passado — exatamente a "dobradinha" que a norma culta consagra. As demais alternativas misturam tempos que se contradizem, criando frases sem sentido lógico-temporal.
O comando pede que você julgue a articulação entre tempos e modos verbais — ou seja, a correlação verbal. Trata-se de uma questão de gramática normativa aplicada ao texto: não se busca o que o texto diz, mas se a frase reescrita mantém uma relação harmônica entre os verbos. A técnica central é perceber que cada tempo/modo carrega um valor semântico (certeza, hipótese, fato passado, futuro) e que esses valores precisam se complementar, não se contradizer. A banca monta cada distratora misturando um tempo que indica hipótese com outro que indica certeza, ou um passado com um futuro incompatível.
O texto-base narra a conversa entre o autor e um jovem amigo deprimido, que diz que, se estivesse no lugar da professora, já teria acabado com a própria vida. O trecho que ancora a alternativa D é exatamente este:
"Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida."
A alternativa D parafraseia essa passagem com correção: "Quando me confessou que se mataria" retoma o "comentou que... teria acabado com sua própria vida" (confessou = pretérito perfeito; se mataria = futuro do pretérito, equivalente a "teria acabado"). A sequência "não me surpreendi e disse que muita gente poderia vir a tomar igual decisão" mantém a mesma lógica: fatos passados (surpreendi, disse) + consequência hipotética (poderia vir a tomar). Tudo no mesmo eixo temporal — passado + futuro do pretérito —, que é a combinação clássica para expressar uma possibilidade que não se concretizou.
A regra que decide a questão é a correlação modo-temporal: quando a oração principal está no pretérito (perfeito, imperfeito ou mais-que-perfeito), a oração subordinada que expressa uma ação posterior deve estar no futuro do pretérito (não no futuro do presente). É o par "confessou → se mataria", "disse → poderia vir a tomar". Misturar pretérito com futuro do presente (como em B) ou com presente (como em E) quebra a harmonia, porque mistura um fato passado com uma ação atual ou futura certa — valores semânticos incompatíveis.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a correlação verbal oferecendo combinações que parecem plausíveis, mas quebram a harmonia modo-temporal. A correta é a única em que todos os verbos se alinham no mesmo eixo: passado + futuro do pretérito. Desconfie de frases que misturam presente com pretérito, ou futuro do presente com pretérito — quase sempre são as erradas.
Correlação verbal
1Eixo temporal da principal
Presente
combina com presente/futuro do presente
Pretérito
combina com pretérito/futuro do pretérito
Hipótese (subjuntivo)
combina com hipótese (futuro do pretérito)
2Erros comuns
Misturar pretérito com futuro do presente
Misturar presente com pretérito do subjuntivo
Misturar hipótese com certeza
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A frase "Ficamos sem saber por que vem ela se dedicado a atos virtuosos que sua doença lhe impedisse de haver praticado" apresenta dois erros graves de correlação. Primeiro, "vem ela se dedicado" é uma construção inexistente: o verbo vir não se combina com particípio para formar locução (o correto seria "tem se dedicado"). Segundo, "impedisse" (pretérito imperfeito do subjuntivo, hipótese) não se harmoniza com "vem se dedicado" (presente, fato atual) — mistura hipótese com certeza na mesma frase, o que o texto de apoio condena explicitamente: "Podemos misturar hipótese e certeza na mesma frase? Faz sentido? NENHUM!". Erro: contradiz a norma de correlação verbal.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Quando perdesse a voz, em função da distrofia que lhe acometeria, ela passará a ensinar surdos e mudos." Aqui há uma inversão temporal absurda: "perdesse" (pretérito imperfeito do subjuntivo) e "acometeria" (futuro do pretérito) indicam hipótese/passado, mas "passará" (futuro do presente) indica certeza futura. A combinação correta seria "Quando perdesse a voz... ela passaria a ensinar" (hipótese + consequência hipotética) ou "Quando perder a voz... ela passará a ensinar" (fato futuro certo + consequência certa). Misturar os dois eixos quebra a harmonia. Erro: contradiz a correlação verbal (futuro do presente com pretérito do subjuntivo).
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Fora uma mulher em paz consigo mesma, apesar dos sofrimentos que a vida lhe reserve, ao desafiar seus limites." O verbo "fora" (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) indica um fato passado concluído, mas "reserve" (presente do subjuntivo) indica uma hipótese atual ou futura. A combinação correta seria "apesar dos sofrimentos que a vida lhe reservasse" (pretérito imperfeito do subjuntivo, harmonizando com o passado) ou "apesar dos sofrimentos que a vida lhe reserva" (presente do indicativo, harmonizando com um presente). Misturar mais-que-perfeito com presente do subjuntivo cria um descompasso temporal. Erro: contradiz a correlação verbal (passado com presente).
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Quando me confessou que se mataria, não me surpreendi e disse que muita gente poderia vir a tomar igual decisão." Todos os verbos se alinham no mesmo eixo temporal: "confessou", "surpreendi" e "disse" estão no pretérito perfeito do indicativo (fatos passados); "se mataria" e "poderia vir a tomar" estão no futuro do pretérito (consequências hipotéticas de um fato passado). Essa é a "dobradinha" clássica: pretérito + futuro do pretérito, que expressa uma possibilidade que não se concretizou. A frase é uma paráfrase fiel do trecho do texto: "Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida" — e mantém a mesma harmonia modo-temporal do original. Correta: única frase com correlação verbal perfeita.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Segundo meu amigo, a dor maior comparece quando nos convencêssemos de que não sejamos os únicos a sofrer." O verbo "comparece" (presente do indicativo, fato atual) não se harmoniza com "convencêssemos" (pretérito imperfeito do subjuntivo, hipótese passada) nem com "sejamos" (presente do subjuntivo, hipótese atual). A combinação correta seria "a dor maior comparece quando nos convencemos de que não somos os únicos a sofrer" (presente + presente, fato + fato) ou "a dor maior compareceria quando nos convencêssemos de que não fôssemos os únicos a sofrer" (futuro do pretérito + pretérito imperfeito do subjuntivo, hipótese + hipótese). Misturar presente do indicativo com pretérito do subjuntivo quebra a harmonia. Erro: contradiz a correlação verbal (presente com pretérito do subjuntivo).
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de correlação verbal, identifique primeiro o eixo temporal da oração principal (presente, pretérito ou futuro). Depois, verifique se a oração subordinada usa o tempo que completa esse eixo: presente combina com presente/futuro do presente; pretérito combina com pretérito/futuro do pretérito; hipótese (subjuntivo) combina com hipótese (futuro do pretérito). Se a frase misturar eixos, está errada.
Gabarito: letra D — a única em que todos os verbos se articulam com harmonia, mantendo o eixo passado + futuro do pretérito que o texto original consagra.