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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FCC 2024

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
fc146842
Banca
FCC
Órgão
SEAD PI
Ano
2024
Cargo
Ana Gov ( )

Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, - ou depois, - um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.

Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome: mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.

Não deixou logo a irmandade: a esposa pôde contê-lo no exercício do cargo de mesário e levava-o às festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá.

Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religião. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.

Aos sessenta anos, já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.

Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas já aparecia alguém que o convidava a ficar com um bom número, comprava o número e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.

(Adaptado de: ASSIS. Machado de. Contos: uma antologia. volume II. São Paulo: Companhia das Letras. 1998)

Atenção: Leia o trecho inicial do conto "O escrivão Coimbra", de Machado de Assis, para responder a questão.

 

No trecho "Uma coisa não vai sem outra.", o narrador ressalta que:

  1. Aa fé e a esperança andam juntas.
  2. Ba fé e a esperança estão ausentes.
  3. Ca esperança atrapalha a fé.
  4. Da fé atrapalha a esperança.
  5. Ea sorte depende da fé e da esperança.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — a fé e a esperança andam juntas.

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A interdependência entre fé e esperança no conto de Machado

Gabarito: letra A. No trecho "Uma coisa não vai sem outra.", o narrador afirma que fé e esperança andam juntas, ou seja, são interdependentes: onde há uma, há a outra. A passagem que sustenta isso é imediatamente anterior: "Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança." — o narrador diz que ambas estavam presentes, e a frase seguinte explica que isso é natural, pois uma não existe sem a outra.

O comando da questão

O enunciado pede que você interprete o sentido de uma expressão dentro do contexto. Não é uma questão de gramática, mas de compreensão textual: você deve dizer o que o narrador quis transmitir ao afirmar que "uma coisa não vai sem outra". Para isso, é essencial voltar ao texto e ver o que vem antes e depois da expressão.

O texto e o movimento argumentativo

No segundo parágrafo, o narrador apresenta o escrivão Coimbra e diz que ele tinha fé e esperança na loteria. Veja o trecho:

"Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra."

Aqui, o narrador estabelece uma relação de interdependência: fé e esperança caminham juntas. Se alguém tem fé, tem esperança; se tem esperança, tem fé. Não há uma sem a outra. Essa é a ideia central que a alternativa A captura.

A técnica para resolver

Quando a questão pergunta "o narrador ressalta que", você deve buscar a ideia que o autor quer destacar. No caso, a expressão "uma coisa não vai sem outra" é uma máxima que generaliza a relação entre fé e esperança. O narrador não está dizendo que elas se opõem, nem que uma depende da outra para existir de forma hierárquica — ele está afirmando que são inseparáveis.

Análise das alternativas

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A afirma que "a fé e a esperança andam juntas", o que é exatamente o que o narrador diz. A expressão "uma coisa não vai sem outra" significa que fé e esperança são interdependentes: se uma está presente, a outra também está. O texto confirma isso ao dizer que Coimbra tinha ambas: "Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança." Portanto, a alternativa A é a única que captura a relação de reciprocidade.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B afirma que "a fé e a esperança estão ausentes". Isso contradiz o texto, que diz explicitamente que Coimbra tinha fé e esperança na loteria. O narrador afirma: "Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança." Portanto, a alternativa B está errada por contradizer o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que "a esperança atrapalha a fé". Isso não está no texto. O narrador não estabelece nenhuma relação de oposição ou de interferência negativa entre esperança e fé. Pelo contrário, ele as apresenta como complementares. A alternativa C extrapola ao introduzir uma ideia de conflito que não existe no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D afirma que "a fé atrapalha a esperança". Assim como a C, isso não está no texto. O narrador não diz que uma atrapalha a outra; ele diz que uma não vai sem a outra, ou seja, elas são inseparáveis e harmônicas. A alternativa D extrapola ao inverter a relação de interdependência em uma relação de oposição.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que "a sorte depende da fé e da esperança". Isso não está no texto. O narrador fala sobre a relação entre fé e esperança, mas não menciona que a sorte depende delas. Na verdade, o texto diz que Coimbra acreditava que a sorte grande viria para quem comprasse bilhete com fé, mas isso é uma crença do personagem, não uma afirmação do narrador sobre a relação entre sorte, fé e esperança. A alternativa E extrapola ao introduzir a ideia de dependência da sorte, que não é o foco da expressão.

Conclusão

A alternativa A é a única que está inteiramente sustentada pelo texto. As demais ou contradizem o que está escrito (B) ou extrapolam ao introduzir relações que não existem (C, D, E). Lembre-se: quando a questão pede o sentido de uma expressão, volte ao texto e veja o que ela realmente significa no contexto.

Gabarito: letra A

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