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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — FCC 2024

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
fc146846
Banca
FCC
Órgão
SEAD PI
Ano
2024
Cargo
Ana Gov ( )

Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, - ou depois, - um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.

Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome: mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.

Não deixou logo a irmandade: a esposa pôde contê-lo no exercício do cargo de mesário e levava-o às festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá.

Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religião. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.

Aos sessenta anos, já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.

Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas já aparecia alguém que o convidava a ficar com um bom número, comprava o número e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.

(Adaptado de: ASSIS. Machado de. Contos: uma antologia. volume II. São Paulo: Companhia das Letras. 1998)

Atenção: Leia o trecho inicial do conto "O escrivão Coimbra", de Machado de Assis, para responder a questão.

 

Retoma uma expressão mencionada anteriormente no texto a palavra sublinhada em:

  1. AAssim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana.
  2. BNão buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém.
  3. Co ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã.
  4. Da idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.
  5. EMas lá aparecia alguém que o convidava a ficar com um bonito número, comprava o número e esperava.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial: o pronome demonstrativo "aquele" e seu referente

Gabarito: letra D. A palavra sublinhada que retoma uma expressão mencionada anteriormente no texto é "aquele", em "a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume". O pronome demonstrativo "aquele" faz referência anafórica ao "costume" de comprar bilhetes de loteria, mencionado no parágrafo anterior: "Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume". A resposta está ancorada no 5º parágrafo do texto.

O comando da questão é claro: identificar a palavra que retoma uma expressão mencionada anteriormente — ou seja, um elemento de coesão referencial anafórica. Não se trata de interpretar o sentido do texto, mas de reconhecer o mecanismo linguístico pelo qual um termo remete a outro já dito. A banca testa se o candidato distingue a anáfora (retomada de algo anterior) da catáfora (antecipação de algo posterior) e se consegue rastrear o referente de cada pronome/demonstrativo.

No texto de Machado de Assis, o narrador descreve a progressão do hábito do escrivão Coimbra: "Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete". O termo "aquele costume" só faz sentido porque remete ao hábito de comprar bilhetes, já estabelecido no parágrafo anterior. É exatamente isso que a questão pede: a palavra que retoma uma expressão anterior.

A técnica para resolver: em cada alternativa, pergunte-se "a que termo anterior esta palavra se refere?". Se a palavra não tiver um referente explícito no texto (ou se referir a algo posterior), ela não é anafórica. Vamos analisar cada uma.

Coesão referencial
  • 1Anáfora (retoma anterior)
    • Aquele costume → hábito de comprar bilhetes
    • Ele → escrivão Coimbra
    • Que → número / alguém
  • 2Catáfora (antecipa posterior)
    • Aquele em que loterias rimaram
  • 3Distinção-chave
    • Retoma expressão (substantiva) → demonstrativo "aquele"
    • Retoma nome próprio → pronome pessoal "ele"
    • Retoma substantivo concreto → relativo "que"
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias"

Aqui, "aquele" não retoma uma expressão anterior; ele antecipa o que vem depois: "aquele em que loterias rimaram com dias". Trata-se de um pronome demonstrativo com valor catafórico (antecipa o referente), funcionando como núcleo de uma oração adjetiva restritiva. O referente é posterior, não anterior. Erro: troca de conceito — confunde anáfora com catáfora.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"ele é que já não rezava por si nem por ninguém"

O pronome "ele" retoma "o escrivão Coimbra" (ou "o viúvo"), mencionado anteriormente. Embora seja uma anáfora, a questão pede a palavra sublinhada — e no enunciado original, a palavra sublinhada nesta alternativa é "ele". Porém, a banca considera que "ele" é um pronome pessoal que retoma o sujeito, mas a alternativa correta é a D, que traz o demonstrativo "aquele". A diferença: "ele" é um pronome pessoal retomando diretamente o nome próprio, enquanto "aquele" retoma uma expressão ("costume"). A banca entende que a palavra sublinhada que melhor exemplifica a retomada de uma expressão (e não de um nome) é "aquele". Erro: troca de conceito — "ele" retoma um nome, não uma expressão substantiva.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã"

O pronome relativo "que" retoma "o número" — é uma anáfora. Porém, novamente, a palavra sublinhada na alternativa original é "que", e a banca entende que o pronome relativo "que" retoma um substantivo concreto ("número"), não uma expressão mencionada anteriormente. A alternativa D é mais precisa porque "aquele costume" retoma uma expressão (o hábito de comprar bilhetes), não um substantivo isolado. Erro: troca de conceito — "que" é um relativo, não um demonstrativo anafórico de expressão.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete"

O pronome demonstrativo "aquele" retoma, de forma anafórica, a expressão "costume" — o hábito de comprar bilhetes de loteria, descrito no parágrafo anterior: "Poucos bilhetes comprava a princípio". A palavra "costume" já foi mencionada, e "aquele" a recupera, evitando a repetição. É o exemplo clássico de coesão referencial por anáfora com pronome demonstrativo. Correta.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Mas lá aparecia alguém que o convidava a ficar com um bonito número, comprava o número e esperava"

O pronome relativo "que" retoma "alguém" — é uma anáfora. Porém, a palavra sublinhada na alternativa original é "que", e a banca entende que "que" retoma um pronome indefinido ("alguém"), não uma expressão mencionada anteriormente. A alternativa D é mais precisa porque "aquele costume" retoma uma expressão substantiva (o hábito de comprar bilhetes). Erro: troca de conceito — "que" é um relativo, não um demonstrativo anafórico de expressão.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre os diferentes tipos de retomada. Todas as alternativas têm pronomes que retomam algo, mas apenas a D retoma uma expressão ("costume") com um demonstrativo ("aquele"). As demais retomam nomes próprios, substantivos concretos ou pronomes indefinidos — não uma expressão mencionada anteriormente.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de coesão referencial, sublinhe o pronome e pergunte: "a que termo anterior ele se refere?". Se o referente for uma expressão (como "costume"), a retomada é anafórica de expressão; se for um nome próprio, é retomada de nome. A banca costuma cobrar a distinção entre anáfora (retomada) e catáfora (antecipação).

Conclusão: a única alternativa em que a palavra sublinhada retoma uma expressão mencionada anteriormente é a D, com o pronome demonstrativo "aquele" retomando "costume". As demais retomam nomes próprios, substantivos concretos ou pronomes indefinidos — não uma expressão. Gabarito: letra D.

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