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Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — FCC 2024

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
fc146849
Banca
FCC
Órgão
SEAD PI
Ano
2024
Cargo
Ana Gov ( )

Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, - ou depois, - um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.

Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome: mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.

Não deixou logo a irmandade: a esposa pôde contê-lo no exercício do cargo de mesário e levava-o às festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá.

Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religião. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.

Aos sessenta anos, já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a princípio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.

Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas já aparecia alguém que o convidava a ficar com um bom número, comprava o número e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.

(Adaptado de: ASSIS. Machado de. Contos: uma antologia. volume II. São Paulo: Companhia das Letras. 1998)

Atenção: Leia o trecho inicial do conto "O escrivão Coimbra", de Machado de Assis, para responder a questão.

 

Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.

Nesse trecho, o narrador relata uma série de fatos ocorridos no passado. Um fato anterior a esse tempo passado está indicado pela seguinte forma verbal sublinhada no texto:

  1. Avai.
  2. Bachou.
  3. Cfaltava.
  4. Dera.
  5. Etivera.
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GabaritoE — tivera.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O pretérito mais-que-perfeito: o passado do passado

Gabarito: letra E. A forma "tivera" é a única que indica um fato anterior ao tempo passado em que se situa a narração: é o pretérito mais-que-perfeito do verbo ter (tivera = tinha tido). No trecho, o narrador conta que Coimbra "achou-se incrédulo" aos cinquenta anos — e, para explicar essa incredulidade, recua a um momento ainda mais remoto: "Também tivera esta [fé] em anos verdes e maduros". Ou seja, a fé religiosa foi antes de ele se tornar incrédulo. As demais formas (vai, achou, faltava, era) situam-se no presente ou no mesmo plano passado da narração, não antes dele.

O comando: o que a banca pede

A questão é de gramática aplicada ao texto: não basta saber conjugar; é preciso reconhecer o valor temporal de cada forma e identificar qual delas expressa anterioridade em relação ao tempo da narrativa. O verbo do enunciado — "relata uma série de fatos ocorridos no passado" — já delimita o plano: estamos no pretérito. A pergunta é: qual forma verbal aponta para um fato ainda mais antigo, anterior a esse passado? Isso é exatamente a função do pretérito mais-que-perfeito.

A técnica: a linha do tempo dos pretéritos

Em português, há três pretéritos do indicativo, cada um com um valor temporal próprio:

Forma

Exemplo no texto

Valor

Pretérito perfeito

achou

fato concluído no passado, no mesmo plano da narração

Pretérito imperfeito

faltava

fato habitual ou contínuo no passado, também no mesmo plano

Pretérito mais-que-perfeito

tivera

fato anterior a outro fato passado

O mais-que-perfeito é o "passado do passado": ele localiza um evento que ocorreu antes de outro evento já passado. No texto, o narrador está contando a história de Coimbra no passado (achou-se incrédulo, fundou a irmandade, etc.). Quando diz "Também tivera esta [fé] em anos verdes e maduros", ele recua para um tempo ainda mais distante: a fé religiosa que Coimbra teve antes de se tornar incrédulo. É exatamente essa anterioridade que a banca pede.

A pegadinha da banca

A armadilha está em confundir pretérito perfeito com mais-que-perfeito. As duas formas estão no passado, mas o perfeito (achou) narra um fato no mesmo plano temporal da história, enquanto o mais-que-perfeito (tivera) indica um fato anterior a esse plano. A banca sabe que o candidato tende a marcar "achou" por ser o verbo mais "forte" da narrativa, mas ele não expressa anterioridade — apenas conclui uma ação no passado.

PEGA ESSA DICA!

Ao procurar o mais-que-perfeito, pergunte: "esse fato aconteceu antes de outro fato passado?" Se sim, é mais-que-perfeito. No texto, "tivera" é anterior a "achou-se incrédulo".

Análise das alternativas

  1. mais-que-perfeito (tivera)Fé em anos verdes e maduros
  2. perfeito (achou)Incredulidade aos 50
  3. imperfeito (faltava/era)Narração presente
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"vai" está no presente do indicativo, não no passado. No texto, aparece em "o número que há de dar a sorte grande amanhã" — mas a forma sublinhada no trecho da questão é "vai"? Na verdade, no trecho dado, "vai" não ocorre; a alternativa tenta confundir com o presente. De qualquer forma, presente não expressa anterioridade a um fato passado. Erro: contradiz o texto (não há "vai" no trecho) e fora do escopo (não é passado).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"achou" é pretérito perfeito do indicativo: indica um fato concluído no passado, no mesmo plano da narração. No texto: "aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo". Esse fato é o ponto de referência da narrativa, não um fato anterior a ele. Erro: troca de conceito — confunde perfeito com mais-que-perfeito.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"faltava" é pretérito imperfeito do indicativo: indica um estado ou ação contínua no passado, também no mesmo plano. No texto: "Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra". O imperfeito descreve uma característica do personagem naquele momento passado, sem anterioridade. Erro: troca de conceito — confunde imperfeito com mais-que-perfeito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"era" é pretérito imperfeito do indicativo, assim como "faltava": descreve um estado no passado, no mesmo plano. No texto: "Não era a fé que faltava". Não expressa anterioridade. Erro: troca de conceito — mesmo equívoco da C.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"tivera" é pretérito mais-que-perfeito do indicativo do verbo ter. No texto: "Também tivera esta [fé] em anos verdes e maduros". A forma indica que Coimbra teve fé religiosa antes de se tornar incrédulo ("achou-se incrédulo" aos cinquenta). É exatamente a anterioridade que o enunciado pede: um fato anterior ao tempo passado da narração.

PEGA ESSA DICA!

O mais-que-perfeito simples (tivera) pode ser substituído por "tinha tido" (mais-que-perfeito composto) sem alterar o sentido. Teste: "tinha tido esta fé em anos verdes" — funciona perfeitamente.

Conclusão: a única forma que expressa anterioridade a outro fato passado é "tivera", o pretérito mais-que-perfeito. As demais estão no presente ou no mesmo plano passado da narrativa. Gabarito: letra E.

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