Questão de Português — Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre) — FCC 2024
Português›Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Código
fc146908
Banca
FCC
Órgão
PIAUÍPREV
Ano
2024
Cargo
Ana Prev ( )
"Fala, amendoeira"
Este oficio de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza. Abrindo a janela, o cronista pousou a vista nas árvores, que estavam todas verdes, menos uma. Essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, numa gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois da qual as folhas caem. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira! - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:
- Não vês? Começo a outonear. É 21 de março, data que as folhinhas assinalam o equinócio de outono. Cumpro meu dever de árvore.
- E vais outoneando sozinha?
- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação da primavera, e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga, uma suspeita de inverno.
- Somos todos assim.
- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: silo frutos colhidos numa hora da vida que Já não é clara, mas ainda não se diluí em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.
- Não me entristeça.
- Não, querido, sou tua árvore da guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá ás frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves ... Outoniza-te com dignidade, meu velho.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Orummond. Fala, amendoeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.. p. 13-14)
Atenção: Para responder à questão, baseie- se no texto abaixo.
Caso o autor do texto optasse pelo uso do discurso indireto, o segmento Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal adotaria a seguinte redação: A árvore me contestou dizendo que
Aa exemplo de mim, o outono era manifesto e exclusivo, tão outonal quanto eu.
Bteu outono, por exemplo, sendo manifesto e exclusivo, acho bem outonal.
Cteu exemplo, manifesto e exclusivo, ela achava suficientemente outonal.
Dtal como um exemplo meu, seu outono era também manifesto e exclusivo.
Eem mim, por exemplo, a quem achava outonal, o outono era manifesto e exclusivo.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — em mim, por exemplo, a quem achava outonal, o outono era manifesto e exclusivo.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Discurso indireto: a transposição da fala da amendoeira
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única que converte corretamente a fala da amendoeira para o discurso indireto, preservando o sentido original: a árvore diz ao cronista que, nele, o outono é manifesto e exclusivo, e que o acha outonal. A passagem que ancora essa conversão é o trecho em que a árvore fala diretamente: "Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho". A conversão exige trocar a 2ª pessoa (ti, te) pela 1ª (mim, me), manter o verbo "achar" com seu complemento, e ajustar os tempos verbais para o pretérito imperfeito, como manda a transposição de discurso.
O comando pede uma reescritura — converter o discurso direto (a fala literal da árvore, marcada por travessão) em discurso indireto (a fala reportada pelo narrador). Isso não é uma questão de interpretação livre: há regras mecânicas de transposição que precisam ser respeitadas. O discurso indireto é a apresentação da fala da personagem pelas palavras do narrador, normalmente introduzida por um verbo de elocução ("disse que", "contestou dizendo que") e seguida de uma oração subordinada substantiva. Na conversão, os pronomes e os tempos verbais mudam: o que estava na 1ª pessoa (eu, me, meu) passa para a 3ª (ele, lhe, seu), e o presente do indicativo vira pretérito imperfeito do indicativo.
No texto, a amendoeira fala com o cronista usando a 2ª pessoa: "Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal". Ao transpor para o discurso indireto, o narrador (que é o cronista) passa a relatar o que a árvore disse sobre ele mesmo. Por isso, o "ti" (2ª pessoa, referindo-se ao cronista) vira "mim" (1ª pessoa, pois quem relata é o próprio cronista), e o "te" (objeto direto de "achar") vira "me". O verbo "é" (presente) vira "era" (pretérito imperfeito), e o verbo "acho" vira "achava". A alternativa E faz exatamente isso: "em mim, por exemplo, a quem achava outonal, o outono era manifesto e exclusivo".
A técnica para resolver é simples: identifique quem fala, com quem fala e sobre quem fala. Depois, aplique as regras de conversão de pronomes e tempos verbais. A armadilha central da banca é oferecer alternativas que mantêm a 2ª pessoa (teu, te) ou que invertem o sentido, fazendo parecer que a árvore estava falando de si mesma ou comparando o cronista com ela. A alternativa correta é a única que mantém a direção da fala: a árvore fala SOBRE o cronista, dizendo que ELE é outonal.
1Quem fala?
2Com quem fala?
3Sobre quem fala?
4Converte pronomes
5Converte tempos
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A diz "a exemplo de mim, o outono era manifesto e exclusivo, tão outonal quanto eu". Aqui há dois erros graves. Primeiro, inverte o sentido: no texto, a árvore diz que o outono é manifesto e exclusivo NO CRONISTA ("Em ti"), não que o cronista é um exemplo da árvore. Segundo, introduz uma comparação ("tão outonal quanto eu") que não existe no original — a árvore não se compara ao cronista. Isso é uma extrapolação: acrescenta uma ideia de comparação que o texto não autoriza.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B mantém a 2ª pessoa: "teu outono, por exemplo, sendo manifesto e exclusivo, acho bem outonal". No discurso indireto, a fala é reportada pelo narrador, então os pronomes de 2ª pessoa (teu, acho) devem ser convertidos para 1ª ou 3ª pessoa. Manter "teu" e "acho" é um erro de transposição — a alternativa simplesmente não converte o discurso, apenas remove as aspas. Além disso, a estrutura "sendo manifesto e exclusivo" altera a relação entre as ideias, transformando uma afirmação em uma circunstância.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C diz "teu exemplo, manifesto e exclusivo, ela achava suficientemente outonal". Aqui há uma troca de referente: o texto fala do outono do cronista ("Em ti... o outono é manifesto e exclusivo"), mas a alternativa transforma isso em "teu exemplo", como se a árvore estivesse elogiando um exemplo dado pelo cronista. Além disso, mantém a 2ª pessoa (teu) e introduz o advérbio "suficientemente", que não está no original. O sentido é completamente distorcido.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D diz "tal como um exemplo meu, seu outono era também manifesto e exclusivo". O erro aqui é duplo. Primeiro, inverte a direção: no texto, a árvore fala do outono do cronista, não de um exemplo dela. Segundo, introduz uma comparação ("tal como um exemplo meu") que não existe no original. A árvore não diz que o cronista é como um exemplo dela; ela diz que o outono dele é manifesto e exclusivo. Isso é uma extrapolação com inversão de sentido.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa E é a única que converte corretamente a fala para o discurso indireto. Vejamos a transposição:
"Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal"
"Em ti" (2ª pessoa, referindo-se ao cronista) → "em mim" (1ª pessoa, pois quem relata é o cronista);
"o outono é" (presente) → "o outono era" (pretérito imperfeito);
"Acho-te" (2ª pessoa, objeto direto) → "a quem achava outonal" (3ª pessoa, com o verbo no pretérito imperfeito);
"manifesto e exclusivo" → mantido, pois é o predicativo do sujeito "outono".
A alternativa E preserva o sentido original: a árvore diz que, no cronista, o outono é manifesto e exclusivo, e que ela o acha outonal. A estrutura "a quem achava outonal" é uma oração adjetiva que retoma "mim", exatamente como "Acho-te" retoma "ti" no original. Não há acréscimo de informação, não há inversão de sentido, não há manutenção indevida da 2ª pessoa. É a transposição perfeita.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre quem fala e sobre quem se fala. A amendoeira fala SOBRE o cronista (2ª pessoa), e não sobre si mesma. Alternativas que usam "teu/te" (mantendo a 2ª pessoa) ou que introduzem comparações inexistentes ("tão outonal quanto eu", "tal como um exemplo meu") caem na armadilha de não converter o discurso ou de extrapolar o sentido.
PEGA ESSA DICA!
Ao converter discurso direto em indireto, faça três perguntas: 1) Quem fala? 2) Com quem fala? 3) Sobre quem fala? Depois, converta os pronomes (eu→ele, ti→mim, teu→seu) e os tempos verbais (presente→pretérito imperfeito). A alternativa que mantém a 2ª pessoa ou inverte a direção da fala está errada.
Gabarito: letra E. A regra de ouro: no discurso indireto, a fala é reportada pelo narrador, então os pronomes e tempos verbais mudam, mas o SENTIDO permanece idêntico. Teste cada alternativa perguntando: "quem disse isso, para quem, e sobre quem?" — a correta é a única que responde exatamente como o texto original.