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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146917
Banca
FCC
Órgão
IPREM SP
Ano
2024
Cargo
Ana Prev ( )

Redes sociais distorcem instintos morais humanos e geram fadiga de empatia, diz estudo

 

Como já aconteceu algumas vezes nesta coluna, eu gostaria de começar com um item terminológico meio feioso, mas muito útil. Anote aí, por gentileza: “estímulo supernormal”. O termo é usado em áreas como a psicologia ou o estudo do comportamento animal para designar um tipo de estímulo que imita o que podemos encontrar na natureza, mas cuja potência está muito acima do que é natural (daí o uso do prefixo “super”).

 

Um exemplo gastronômico: frutas silvestres são um estímulo “normal” quando é assunto é açúcar. Por outro lado, um sorvete de morango com leite condensado definitivamente é um estímulo supernormal, feito para capturar nosso desejo natural de consumir coisas doces por meio de uma bomba calórica que uma planta seria fisiologicamente incapaz de produzir na natureza.

 

Ora, conforme argumenta um novo estudo, o mundo online pós-redes sociais funcionaria mais ou menos da mesma maneira. Estímulos supernormais no que diz respeito aos instintos morais da nossa espécie. E o resultado pode muito bem ser o equivalente da diabetes (pensando aqui em linhas gerais, e não apenas na noções de certo e errado) para as conexões humanas que são mediadas pelo fio da internet.

 

É uma perspectiva assustadora, concordo, mas há bons argumentos a seu favor, incluindo os fornecidos pelos autores nesse trabalho recém-publicado por Jay Van Bavel, do Departamento de Psicologia da Universidade de Nova York.

 

Junto com dois colegas, Van Bavel fez uma análise dos dados já disponíveis sobre o comportamento das pessoas nas redes sociais, levando em conta o que sabemos sobre as raízes da moralidade humana. As últimas décadas mostraram que, debaixo das diferenças de usos e costumes mundo afora, podemos enxergar padrões comuns no que diz respeito a esse tema em muitos lugares.

 

Sabemos que as pessoas tendem a valorizar laços de solidariedade e reciprocidade dentro dos grupos sociais aos quais pertencem, a usar a capacidade de empatia para oferecer ajuda a quem necessita e a defender a punição de quem não segue essas regras. Acontece que o mundo das mídias sociais despeja uma torrente desse tipo de conteúdo todos os dias em seus usuários.

 

Isso acontece, em parte, porque gente revoltada e/ou moralmente ultrajada tende a compartilhar e comentar com mais frequência informações sobre desrespeito a essas normas (mesmo que esse estado emocional tenha ou finja de apenas um estímulo) tendem a monopolizar a conversa online (afinal de contas, gente feliz não fica xingando Deus e o mundo no Twitter).

 

Isso, claro, não passa despercebido pelos algoritmos de engajamento das plataformas digitais (ou, se você preferir, mecanismos de engajamento) e é o que interessa ao algoritmo das plataformas. Resultado: é isso que acaba sendo entregue para a maioria dos usuários. E o ciclo se reforça.

 

Os possíveis resultados disso não são nada simpáticos. Há indícios de que a enxurrada pode desencadear, por exemplo, a “fadiga de compaixão” – o mero ato de empatia ou solidariedade começa a se tornar um esforço, diminuindo sua necessidade emocional e, consequentemente, sua ocorrência.

 

Isso talvez explique por que mobilizações online de larga escala que nascem no meio online comecem a ser seguidas de uma onda de arrefecimento na mesma pressão política ou nas doações que surgem no rastro dessas campanhas.

 

Ao mesmo tempo, há a ascensão de “linchamentos virtuais”, nos quais é possível fazer valer valores de virtude e descompasso social que, no fundo, são mais destrutivos do que construtivos, porque pregam soluções como exclusão e risco (e aí não estou falando só dos populistas de extrema direita). O resultado desse processo, repete Bavel e seus colegas, é menos debate e mais facilidade para a criação de opiniões polarizadas que se tornam inquestionáveis (ou sem razão), ou até dessensibilizar as pessoas contra a injustiça.

 

Como em outros aspectos da vida, excesso de estímulo tende a gerar problemas. É, portanto, urgente regulá-las, mas, enquanto isso não ocorre, vale lembrar que é possível, em muitos casos, dosar a exposição – inclusive a tentação de engajamento que esse esteves cara a cara com quem está falando.

 

(LOPES, Reinaldo José. Redes sociais distorcem instintos morais humanos e geram fadiga de empatia, diz estudo. Folha de São Paulo. São Paulo, 29 de jun. de 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 14 de jul. de 2024. Adaptado)

Considere o texto e responda a questão seguinte.

 

Considerando o título Redes sociais distorcem instintos morais humanos e geram fadiga de empatia, diz estudo e a discussão desenvolvida ao longo do texto, o único subtítulo adequado para esse artigo seria:

  1. ATecnologia, no entanto, mobiliza as pessoas a contribuir com a comunidade e agir de forma solidária na vida real.
  2. BTecnologia, contudo, estimula o compartilhamento de ideias e novos saberes, promovendo o debate saudável.
  3. CTecnologia também aumenta o desejo natural das pessoas de consumir alimentos calóricos, colocando em risco a saúde dos indivíduos.
  4. DTecnologia também amplia riscos à democracia ao aliar o desejo de punir supostos malfeitores ao extremismo moral.
  5. ETecnologia é imprescindível para que as mobilizações sociais fiquem em destaque por mais tempo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Tecnologia também amplia riscos à democracia ao aliar o desejo de punir supostos malfeitores ao extremismo moral.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Subtítulo adequado para o artigo sobre redes sociais

Gabarito: letra D. O subtítulo correto é o que sintetiza a tese central do texto: a tecnologia, ao amplificar o desejo de punir supostos malfeitores e o extremismo moral, aumenta riscos à democracia. Essa ideia está ancorada no trecho em que o autor afirma que os "linchamentos virtuais" e a polarização "são mais destrutivos do que construtivos" e geram "menos debate e mais facilidade para a criação de opiniões polarizadas que se tornam inquestionáveis". As demais alternativas ou contradizem o texto, ou extrapolam seu conteúdo, ou fogem ao tema.

O comando da questão

A questão pede que você identifique o subtítulo adequado para o artigo, considerando o título e a discussão desenvolvida. Isso é uma tarefa de compreensão global: você precisa captar a tese (a ideia principal defendida pelo autor) e verificar qual alternativa a resume com fidelidade. Não se trata de inferir algo novo, mas de reconhecer a síntese correta do que já foi dito.

A tese e os argumentos do texto

O texto parte do conceito de "estímulo supernormal" para explicar como as redes sociais distorcem nossos instintos morais. O autor argumenta que as plataformas entregam uma "torrente" de conteúdo que explora nossa tendência a valorizar solidariedade, reciprocidade e punição de quem transgride as regras. O resultado é a "fadiga de compaixão" e a ascensão de "linchamentos virtuais", que "pregam soluções como exclusão e risco". O autor conclui que isso gera "menos debate e mais facilidade para a criação de opiniões polarizadas que se tornam inquestionáveis", o que é um risco para a democracia.

A técnica para resolver

Para escolher o subtítulo, você deve testar cada alternativa perguntando: o texto autoriza essa afirmação? A alternativa correta deve ser uma paráfrase fiel da tese, sem acrescentar informações de fora. As erradas geralmente cometem um destes erros: extrapolar (ir além do que o texto diz), contradizer (dizer o oposto do que o autor defende) ou tangenciar (falar de um assunto apenas remotamente relacionado).

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Tecnologia, no entanto, mobiliza as pessoas a contribuir com a comunidade e agir de forma solidária na vida real."

Erro: contradiz o texto. O texto não afirma que a tecnologia mobiliza para a solidariedade na vida real; pelo contrário, diz que a enxurrada de estímulos gera "fadiga de compaixão" e diminui a ocorrência de empatia. O conectivo "no entanto" ainda sugere uma oposição que não existe no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Tecnologia, contudo, estimula o compartilhamento de ideias e novos saberes, promovendo o debate saudável."

Erro: contradiz o texto. O autor afirma que o resultado é "menos debate" e "opiniões polarizadas que se tornam inquestionáveis", não um "debate saudável". A alternativa inverte completamente o sentido.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Tecnologia também aumenta o desejo natural das pessoas de consumir alimentos calóricos, colocando em risco a saúde dos indivíduos."

Erro: extrapola e tangencia. O texto usa o exemplo do sorvete apenas como analogia para explicar o conceito de "estímulo supernormal". Não é o tema do artigo, que trata dos efeitos das redes sociais sobre a moralidade, não sobre alimentação.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Tecnologia também amplia riscos à democracia ao aliar o desejo de punir supostos malfeitores ao extremismo moral."

Correta. Esta alternativa sintetiza com precisão a tese do texto. Veja os trechos que a sustentam:

"Ao mesmo tempo, há a ascensão de 'linchamentos virtuais', nos quais é possível fazer valer valores de virtude e descompasso social que, no fundo, são mais destrutivos do que construtivos, porque pregam soluções como exclusão e risco"

"O resultado desse processo, repete Bavel e seus colegas, é menos debate e mais facilidade para a criação de opiniões polarizadas que se tornam inquestionáveis"

O texto liga diretamente o desejo de punir (linchamentos virtuais) ao extremismo moral e à polarização, o que representa um risco à democracia. A alternativa não acrescenta nada de fora; apenas condensa o que o autor defende.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Tecnologia é imprescindível para que as mobilizações sociais fiquem em destaque por mais tempo."

Erro: extrapola e contradiz. O texto menciona que mobilizações online sofrem "arrefecimento" e não diz que a tecnologia é "imprescindível" para mantê-las em destaque. Pelo contrário, sugere que o excesso de estímulo gera fadiga e desmobilização.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de sintetizar a tese do texto. A alternativa D é a única que permanece fiel ao que o autor defende, sem extrapolar, contradizer ou fugir ao tema. Lembre-se: o subtítulo deve ser um resumo fiel do artigo, não uma opinião sua ou uma informação externa.

PEGA ESSA DICA!

Ao escolher um subtítulo, pergunte-se: "Se eu lesse só esse subtítulo, saberia exatamente do que o texto trata?" Se a resposta for sim e ele não contradisser nada, é provavelmente o correto.

Gabarito: letra D

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