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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — FCC 2024

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
fc146918
Banca
FCC
Órgão
IPREM SP
Ano
2024
Cargo
Ana Prev ( )

Redes sociais distorcem instintos morais humanos e geram fadiga de empatia, diz estudo

 

Como já aconteceu algumas vezes nesta coluna, eu gostaria de começar com um item terminológico meio feioso, mas muito útil. Anote aí, por gentileza: “estímulo supernormal”. O termo é usado em áreas como a psicologia ou o estudo do comportamento animal para designar um tipo de estímulo que imita o que podemos encontrar na natureza, mas cuja potência está muito acima do que é natural (daí o uso do prefixo “super”).

 

Um exemplo gastronômico: frutas silvestres são um estímulo “normal” quando é assunto é açúcar. Por outro lado, um sorvete de morango com leite condensado definitivamente é um estímulo supernormal, feito para capturar nosso desejo natural de consumir coisas doces por meio de uma bomba calórica que uma planta seria fisiologicamente incapaz de produzir na natureza.

 

Ora, conforme argumenta um novo estudo, o mundo online pós-redes sociais funcionaria mais ou menos da mesma maneira. Estímulos supernormais no que diz respeito aos instintos morais da nossa espécie. E o resultado pode muito bem ser o equivalente da diabetes (pensando aqui em linhas gerais, e não apenas na noções de certo e errado) para as conexões humanas que são mediadas pelo fio da internet.

 

É uma perspectiva assustadora, concordo, mas há bons argumentos a seu favor, incluindo os fornecidos pelos autores nesse trabalho recém-publicado por Jay Van Bavel, do Departamento de Psicologia da Universidade de Nova York.

 

Junto com dois colegas, Van Bavel fez uma análise dos dados já disponíveis sobre o comportamento das pessoas nas redes sociais, levando em conta o que sabemos sobre as raízes da moralidade humana. As últimas décadas mostraram que, debaixo das diferenças de usos e costumes mundo afora, podemos enxergar padrões comuns no que diz respeito a esse tema em muitos lugares.

 

Sabemos que as pessoas tendem a valorizar laços de solidariedade e reciprocidade dentro dos grupos sociais aos quais pertencem, a usar a capacidade de empatia para oferecer ajuda a quem necessita e a defender a punição de quem não segue essas regras. Acontece que o mundo das mídias sociais despeja uma torrente desse tipo de conteúdo todos os dias em seus usuários.

 

Isso acontece, em parte, porque gente revoltada e/ou moralmente ultrajada tende a compartilhar e comentar com mais frequência informações sobre desrespeito a essas normas (mesmo que esse estado emocional tenha ou finja de apenas um estímulo) tendem a monopolizar a conversa online (afinal de contas, gente feliz não fica xingando Deus e o mundo no Twitter).

 

Isso, claro, não passa despercebido pelos algoritmos de engajamento das plataformas digitais (ou, se você preferir, mecanismos de engajamento) e é o que interessa ao algoritmo das plataformas. Resultado: é isso que acaba sendo entregue para a maioria dos usuários. E o ciclo se reforça.

 

Os possíveis resultados disso não são nada simpáticos. Há indícios de que a enxurrada pode desencadear, por exemplo, a “fadiga de compaixão” – o mero ato de empatia ou solidariedade começa a se tornar um esforço, diminuindo sua necessidade emocional e, consequentemente, sua ocorrência.

 

Isso talvez explique por que mobilizações online de larga escala que nascem no meio online comecem a ser seguidas de uma onda de arrefecimento na mesma pressão política ou nas doações que surgem no rastro dessas campanhas.

 

Ao mesmo tempo, há a ascensão de “linchamentos virtuais”, nos quais é possível fazer valer valores de virtude e descompasso social que, no fundo, são mais destrutivos do que construtivos, porque pregam soluções como exclusão e risco (e aí não estou falando só dos populistas de extrema direita). O resultado desse processo, repete Bavel e seus colegas, é menos debate e mais facilidade para a criação de opiniões polarizadas que se tornam inquestionáveis (ou sem razão), ou até dessensibilizar as pessoas contra a injustiça.

 

Como em outros aspectos da vida, excesso de estímulo tende a gerar problemas. É, portanto, urgente regulá-las, mas, enquanto isso não ocorre, vale lembrar que é possível, em muitos casos, dosar a exposição – inclusive a tentação de engajamento que esse esteves cara a cara com quem está falando.

 

(LOPES, Reinaldo José. Redes sociais distorcem instintos morais humanos e geram fadiga de empatia, diz estudo. Folha de São Paulo. São Paulo, 29 de jun. de 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 14 de jul. de 2024. Adaptado)

Considere o texto e responda a questão seguinte.

 

Um exemplo gastronômico: frutas silvestres silo um estímulo 'normal" quando o assunto é açúcar. Por outro lado um sorvete de morango com leite condensado definitivamente é um estímulo supernormal, feito para capturar nosso desejo natural de consumir coisas doces por meio de uma bomba calórica que uma planta seria fisiologicamente. incapaz de produzir na natureza. (parágrafo 2, destacado em verde)

 

A expressão que pode substituir Por outro lado sem que o sentido do trecho seja alterado é:

  1. AIsso porque
  2. BPosto que
  3. CMas também
  4. DAinda assim
  5. ENo entanto
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — No entanto

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conectivo adversativo: o valor de "Por outro lado" no texto

Gabarito: letra E. A expressão "Por outro lado" estabelece uma relação de oposição/contraste entre as frutas silvestres (estímulo "normal") e o sorvete de morango (estímulo supernormal). O conectivo que preserva exatamente esse sentido é "No entanto", também adversativo. Como se lê no 2º parágrafo: "frutas silvestres são um estímulo 'normal'... Por outro lado, um sorvete de morango com leite condensado definitivamente é um estímulo supernormal". A troca mantém a contraposição entre os dois exemplos.

O comando: substituição sem alteração de sentido

A questão pede uma reescritura — substituir um conectivo por outro sem alterar o sentido do trecho. Isso não é uma questão de compreensão global do texto, mas de semântica dos conectivos: você precisa identificar a relação lógica que "Por outro lado" estabelece entre as duas orações e escolher, entre as opções, aquela que expressa a mesma relação. O comando "sem que o sentido do trecho seja alterado" é a chave: a alternativa correta deve ser sinônima no contexto, não apenas gramaticalmente possível.

O texto: a contraposição entre dois exemplos

No parágrafo 2, o autor apresenta dois exemplos para ilustrar a diferença entre estímulo "normal" e "supernormal":

"frutas silvestres são um estímulo 'normal' quando o assunto é açúcar. Por outro lado, um sorvete de morango com leite condensado definitivamente é um estímulo supernormal"

A estrutura é clara: primeiro o caso normal (frutas), depois o caso supernormal (sorvete). O conectivo "Por outro lado" sinaliza essa mudança de perspectiva — do exemplo comum para o exemplo exagerado. Há uma oposição entre os dois elementos: um é natural, o outro é artificialmente potente.

A técnica: reconhecer a classe do conectivo

"Por outro lado" é uma locução adversativa — expressa oposição, contraste, ressalva. Pertence ao mesmo grupo de "mas", "porém", "contudo", "todavia", "entretanto", "no entanto". A alternativa E é a única que pertence a essa classe.

As demais opções expressam outras relações:

Conectivo

Relação que expressa

Isso porque

Causa/explicação

Posto que

Causa (já que, uma vez que)

Mas também

Adição (não só... mas também)

Ainda assim

Concessão/oposição com ressalva (apesar disso)

No entanto

Oposição/contraste

A pegadinha está em "Ainda assim": ele também tem valor de oposição, mas com um matiz de concessão — indica que algo acontece apesar de uma circunstância anterior. No trecho, não há essa ideia de "apesar de"; há apenas a contraposição entre dois exemplos. Por isso, "No entanto" é a substituição perfeita.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece "Ainda assim" como distrator — ele é adversativo, mas com valor concessivo ("apesar disso"), o que não cabe no trecho. A relação entre frutas e sorvete é de contraste puro, não de ressalva.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Isso porque" introduz uma explicação/causa — responderia à pergunta "por quê?". No trecho, o sorvete não é apresentado como causa ou explicação das frutas serem normais; ele é um exemplo contraposto. A troca quebraria a relação de oposição e criaria uma relação causal inexistente. Erro: troca de conectivo (oposição → causa).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Posto que" é uma locução causal (equivale a "já que", "uma vez que"). Introduziria uma justificativa para o que foi dito antes, mas o texto não apresenta o sorvete como causa de nada — ele é um contraponto. A relação de oposição seria perdida. Erro: troca de conectivo (oposição → causa).

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Mas também" é uma locução aditiva, usada em correlação com "não só" (não só... mas também). Ela soma ideias, não as opõe. No trecho, o sorvete não é uma adição às frutas; é um contraste com elas. A troca transformaria a oposição em acréscimo, alterando o sentido. Erro: troca de conectivo (oposição → adição).

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Ainda assim" expressa concessão — indica que algo ocorre apesar de uma circunstância anterior. No trecho, não há essa ideia de "apesar de"; há apenas a contraposição entre dois exemplos. O sorvete não é apresentado como algo que ocorre apesar das frutas serem normais; ele é simplesmente o outro lado da comparação. Erro: troca de conectivo (oposição pura → concessão).

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"No entanto" é uma locução adversativa clássica, sinônima de "mas", "porém", "contudo". Ela expressa exatamente a mesma relação de oposição/contraste que "Por outro lado": primeiro o exemplo normal (frutas), depois o exemplo supernormal (sorvete), em contraposição. A substituição preserva integralmente o sentido do trecho.

PEGA ESSA DICA!

Ao substituir conectivos, pergunte: "que relação lógica o conectivo original estabelece?" — causa, oposição, adição, concessão, conclusão. A alternativa correta é a que pertence à mesma classe e expressa o mesmo matiz.

Gabarito: letra E.

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