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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — FCC 2024

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
fc146920
Banca
FCC
Órgão
IPREM SP
Ano
2024
Cargo
Ana Prev ( )

Redes sociais distorcem instintos morais humanos e geram fadiga de empatia, diz estudo

 

Como já aconteceu algumas vezes nesta coluna, eu gostaria de começar com um item terminológico meio feioso, mas muito útil. Anote aí, por gentileza: “estímulo supernormal”. O termo é usado em áreas como a psicologia ou o estudo do comportamento animal para designar um tipo de estímulo que imita o que podemos encontrar na natureza, mas cuja potência está muito acima do que é natural (daí o uso do prefixo “super”).

 

Um exemplo gastronômico: frutas silvestres são um estímulo “normal” quando é assunto é açúcar. Por outro lado, um sorvete de morango com leite condensado definitivamente é um estímulo supernormal, feito para capturar nosso desejo natural de consumir coisas doces por meio de uma bomba calórica que uma planta seria fisiologicamente incapaz de produzir na natureza.

 

Ora, conforme argumenta um novo estudo, o mundo online pós-redes sociais funcionaria mais ou menos da mesma maneira. Estímulos supernormais no que diz respeito aos instintos morais da nossa espécie. E o resultado pode muito bem ser o equivalente da diabetes (pensando aqui em linhas gerais, e não apenas na noções de certo e errado) para as conexões humanas que são mediadas pelo fio da internet.

 

É uma perspectiva assustadora, concordo, mas há bons argumentos a seu favor, incluindo os fornecidos pelos autores nesse trabalho recém-publicado por Jay Van Bavel, do Departamento de Psicologia da Universidade de Nova York.

 

Junto com dois colegas, Van Bavel fez uma análise dos dados já disponíveis sobre o comportamento das pessoas nas redes sociais, levando em conta o que sabemos sobre as raízes da moralidade humana. As últimas décadas mostraram que, debaixo das diferenças de usos e costumes mundo afora, podemos enxergar padrões comuns no que diz respeito a esse tema em muitos lugares.

 

Sabemos que as pessoas tendem a valorizar laços de solidariedade e reciprocidade dentro dos grupos sociais aos quais pertencem, a usar a capacidade de empatia para oferecer ajuda a quem necessita e a defender a punição de quem não segue essas regras. Acontece que o mundo das mídias sociais despeja uma torrente desse tipo de conteúdo todos os dias em seus usuários.

 

Isso acontece, em parte, porque gente revoltada e/ou moralmente ultrajada tende a compartilhar e comentar com mais frequência informações sobre desrespeito a essas normas (mesmo que esse estado emocional tenha ou finja de apenas um estímulo) tendem a monopolizar a conversa online (afinal de contas, gente feliz não fica xingando Deus e o mundo no Twitter).

 

Isso, claro, não passa despercebido pelos algoritmos de engajamento das plataformas digitais (ou, se você preferir, mecanismos de engajamento) e é o que interessa ao algoritmo das plataformas. Resultado: é isso que acaba sendo entregue para a maioria dos usuários. E o ciclo se reforça.

 

Os possíveis resultados disso não são nada simpáticos. Há indícios de que a enxurrada pode desencadear, por exemplo, a “fadiga de compaixão” – o mero ato de empatia ou solidariedade começa a se tornar um esforço, diminuindo sua necessidade emocional e, consequentemente, sua ocorrência.

 

Isso talvez explique por que mobilizações online de larga escala que nascem no meio online comecem a ser seguidas de uma onda de arrefecimento na mesma pressão política ou nas doações que surgem no rastro dessas campanhas.

 

Ao mesmo tempo, há a ascensão de “linchamentos virtuais”, nos quais é possível fazer valer valores de virtude e descompasso social que, no fundo, são mais destrutivos do que construtivos, porque pregam soluções como exclusão e risco (e aí não estou falando só dos populistas de extrema direita). O resultado desse processo, repete Bavel e seus colegas, é menos debate e mais facilidade para a criação de opiniões polarizadas que se tornam inquestionáveis (ou sem razão), ou até dessensibilizar as pessoas contra a injustiça.

 

Como em outros aspectos da vida, excesso de estímulo tende a gerar problemas. É, portanto, urgente regulá-las, mas, enquanto isso não ocorre, vale lembrar que é possível, em muitos casos, dosar a exposição – inclusive a tentação de engajamento que esse esteves cara a cara com quem está falando.

 

(LOPES, Reinaldo José. Redes sociais distorcem instintos morais humanos e geram fadiga de empatia, diz estudo. Folha de São Paulo. São Paulo, 29 de jun. de 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 14 de jul. de 2024. Adaptado)

Considere o texto e responda a questão seguinte.   A expressão "fadiga de compaixão", mencionada no parágrafo 9, refere-se ao fato de que, com as redes sociais, as pessoas
  1. Apassam a acreditar que compartilhar informações sobre pedidos de ações solidárias já é o suficiente e deixam de ajudar diretamente os necessitados.
  2. Bdeixam de acreditar nas necessidades de quem pede ajuda devido às mentiras que são disseminadas nesse ambiente.
  3. Cajudam efetivamente apenas àqueles que fazem parte do seu grupo social, ignorando as necessidades de outros necessitados.
  4. Ddedicam-se mais a trabalhos solidários exaustivos, motivados pela empatia e pelo engajamento criados no meio digital.
  5. Edesistem de solicitar ajuda nos ambientes virtuais por sofrerem com a falta de empatia manifestada pelos usuários das redes.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — passam a acreditar que compartilhar informações sobre pedidos de ações solidárias já é o suficiente e deixam de ajudar diretamente os necessitados.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Fadiga de compaixão: o esgotamento da empatia nas redes sociais

Gabarito: letra A. A expressão "fadiga de compaixão" designa o processo pelo qual o excesso de estímulos solidários nas redes faz com que as pessoas passem a considerar o simples ato de compartilhar informações como suficiente, deixando de agir diretamente para ajudar os necessitados. Essa leitura se ancora no parágrafo 9, que define o fenômeno como o momento em que "o mero ato de empatia ou solidariedade começa a se tornar um esforço, diminuindo sua necessidade emocional e, consequentemente, sua ocorrência", e no parágrafo 10, que explica o arrefecimento das mobilizações online.

O comando pede uma interpretação da expressão "fadiga de compaixão" — não uma definição literal, mas o que ela significa no contexto do texto. Isso muda a resolução: não basta localizar a palavra; é preciso compreender o mecanismo descrito pelo autor e identificar qual alternativa o parafraseia com fidelidade.

O texto constrói uma analogia entre estímulos supernormais (como o sorvete de morango com leite condensado) e o conteúdo moral das redes sociais. O autor argumenta que a torrente de apelos à empatia e à solidariedade, amplificada pelos algoritmos, acaba por dessensibilizar os usuários. O parágrafo 9 é o coração da questão:

"Há indícios de que a enxurrada pode desencadear, por exemplo, a 'fadiga de compaixão' – o mero ato de empatia ou solidariedade começa a se tornar um esforço, diminuindo sua necessidade emocional e, consequentemente, sua ocorrência."

A chave está na expressão "o mero ato de empatia ou solidariedade começa a se tornar um esforço". O texto não diz que as pessoas deixam de acreditar nas necessidades alheias, nem que passam a ajudar apenas seu grupo, nem que se dedicam mais a trabalhos solidários, nem que desistem de pedir ajuda. Diz que o ato de se solidarizar — que antes era natural — torna-se custoso, e por isso sua ocorrência diminui. O parágrafo 10 confirma essa leitura ao mencionar o "arrefecimento" das mobilizações online e das doações.

A alternativa A captura exatamente esse mecanismo: a pessoa sente que compartilhar já cumpre seu papel solidário, e deixa de agir diretamente. É uma paráfrase legítima da ideia de que a empatia se torna um esforço que se evita.

1Causa
Excesso de estímulos solidários
Amplificação por algoritmos
2Efeito
Empatia vira esforço
Diminui a ocorrência
Compartilhar substitui ação direta
3Não é
Descrença em mentiras
Seletividade de grupo
Aumento do trabalho solidário
Desistência de quem pede
Fadiga de compaixão
LEVELsoulevel.com.br
Fadiga de compaixão: Causa (Excesso de estímulos solidários, Amplificação por algoritmos); Efeito (Empatia vira esforço, Diminui a ocorrência, Compartilhar substitui ação direta); Não é (Descrença em mentiras, Seletividade de grupo, Aumento do trabalho solidário, Desistência de quem pede)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é a única que traduz com precisão o mecanismo descrito. O texto afirma que a fadiga de compaixão faz com que "o mero ato de empatia ou solidariedade comece a se tornar um esforço, diminuindo sua necessidade emocional e, consequentemente, sua ocorrência". A ideia de que compartilhar informações sobre pedidos de ajuda "já é o suficiente" é uma paráfrase de "o mero ato de empatia ou solidariedade" — ou seja, o gesto superficial de compartilhar substitui a ação concreta. O texto ainda reforça no parágrafo 10 que as mobilizações online "comecem a ser seguidas de uma onda de arrefecimento na mesma pressão política ou nas doações", o que confirma a diminuição da ajuda direta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B extrapola o texto ao afirmar que as pessoas "deixam de acreditar nas necessidades de quem pede ajuda devido às mentiras". O texto não menciona mentiras disseminadas nas redes sociais como causa da fadiga de compaixão. A causa apontada é o excesso de estímulos, não a desconfiança quanto à veracidade dos pedidos. A banca insere um elemento (mentiras) que não está no texto, tentando seduzir o candidato com uma explicação plausível do mundo real, mas ausente do argumento do autor.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C restringe indevidamente o alcance do fenômeno ao afirmar que as pessoas "ajudam efetivamente apenas àqueles que fazem parte do seu grupo social". O texto menciona que as pessoas tendem a valorizar laços de solidariedade dentro de seus grupos, mas isso é apresentado como uma característica geral da moralidade humana, não como consequência da fadiga de compaixão. A fadiga de compaixão não se manifesta como seletividade de grupo, mas como esgotamento geral da disposição para ajudar. A alternativa troca o mecanismo central (esforço/ocorrência) por um detalhe periférico (grupo social).

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D contradiz o texto ao afirmar que as pessoas "dedicam-se mais a trabalhos solidários exaustivos". O texto diz exatamente o oposto: a fadiga de compaixão "diminui" a ocorrência de empatia e solidariedade. A palavra "mais" inverte o sentido do parágrafo 9, que fala em redução do esforço solidário, não em aumento. A banca troca um vocábulo crucial ("diminuindo" por "dedicam-se mais") para inverter a lógica do texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E tangencia o tema ao afirmar que as pessoas "desistem de solicitar ajuda nos ambientes virtuais por sofrerem com a falta de empatia manifestada pelos usuários". O texto não fala de pessoas que pedem ajuda desistindo; fala de pessoas que deixam de ajudar. Além disso, a "falta de empatia" é apresentada como consequência da fadiga, não como causa da desistência de quem pede. A alternativa inverte o polo da ação: no texto, quem se cansa é quem poderia ajudar; na alternativa, quem desiste é quem precisaria de ajuda. É uma fuga ao tema central.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o efeito (diminuição da ajuda) e suas possíveis causas. As alternativas B, C, D e E inserem causas ou consequências que o texto não menciona (mentiras, seletividade de grupo, aumento do trabalho solidário, desistência de quem pede). A correta é a única que se limita ao mecanismo descrito: o esforço de se solidarizar torna-se custoso, e o gesto superficial de compartilhar substitui a ação direta.

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar uma expressão, pergunte-se: "o texto autoriza esta afirmação, ou exige que eu acrescente algo de fora?". Se a alternativa introduz um elemento novo (mentiras, grupo social, aumento de dedicação), ela é uma extrapolação. A resposta correta é sempre a que se sustenta apenas com o que está escrito.

Gabarito: letra A — a única que parafraseia fielmente o mecanismo da fadiga de compaixão descrito nos parágrafos 9 e 10.

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