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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146921
Banca
FCC
Órgão
IPREM SP
Ano
2024
Cargo
Ana Prev ( )

Redes sociais distorcem instintos morais humanos e geram fadiga de empatia, diz estudo

 

Como já aconteceu algumas vezes nesta coluna, eu gostaria de começar com um item terminológico meio feioso, mas muito útil. Anote aí, por gentileza: “estímulo supernormal”. O termo é usado em áreas como a psicologia ou o estudo do comportamento animal para designar um tipo de estímulo que imita o que podemos encontrar na natureza, mas cuja potência está muito acima do que é natural (daí o uso do prefixo “super”).

 

Um exemplo gastronômico: frutas silvestres são um estímulo “normal” quando é assunto é açúcar. Por outro lado, um sorvete de morango com leite condensado definitivamente é um estímulo supernormal, feito para capturar nosso desejo natural de consumir coisas doces por meio de uma bomba calórica que uma planta seria fisiologicamente incapaz de produzir na natureza.

 

Ora, conforme argumenta um novo estudo, o mundo online pós-redes sociais funcionaria mais ou menos da mesma maneira. Estímulos supernormais no que diz respeito aos instintos morais da nossa espécie. E o resultado pode muito bem ser o equivalente da diabetes (pensando aqui em linhas gerais, e não apenas na noções de certo e errado) para as conexões humanas que são mediadas pelo fio da internet.

 

É uma perspectiva assustadora, concordo, mas há bons argumentos a seu favor, incluindo os fornecidos pelos autores nesse trabalho recém-publicado por Jay Van Bavel, do Departamento de Psicologia da Universidade de Nova York.

 

Junto com dois colegas, Van Bavel fez uma análise dos dados já disponíveis sobre o comportamento das pessoas nas redes sociais, levando em conta o que sabemos sobre as raízes da moralidade humana. As últimas décadas mostraram que, debaixo das diferenças de usos e costumes mundo afora, podemos enxergar padrões comuns no que diz respeito a esse tema em muitos lugares.

 

Sabemos que as pessoas tendem a valorizar laços de solidariedade e reciprocidade dentro dos grupos sociais aos quais pertencem, a usar a capacidade de empatia para oferecer ajuda a quem necessita e a defender a punição de quem não segue essas regras. Acontece que o mundo das mídias sociais despeja uma torrente desse tipo de conteúdo todos os dias em seus usuários.

 

Isso acontece, em parte, porque gente revoltada e/ou moralmente ultrajada tende a compartilhar e comentar com mais frequência informações sobre desrespeito a essas normas (mesmo que esse estado emocional tenha ou finja de apenas um estímulo) tendem a monopolizar a conversa online (afinal de contas, gente feliz não fica xingando Deus e o mundo no Twitter).

 

Isso, claro, não passa despercebido pelos algoritmos de engajamento das plataformas digitais (ou, se você preferir, mecanismos de engajamento) e é o que interessa ao algoritmo das plataformas. Resultado: é isso que acaba sendo entregue para a maioria dos usuários. E o ciclo se reforça.

 

Os possíveis resultados disso não são nada simpáticos. Há indícios de que a enxurrada pode desencadear, por exemplo, a “fadiga de compaixão” – o mero ato de empatia ou solidariedade começa a se tornar um esforço, diminuindo sua necessidade emocional e, consequentemente, sua ocorrência.

 

Isso talvez explique por que mobilizações online de larga escala que nascem no meio online comecem a ser seguidas de uma onda de arrefecimento na mesma pressão política ou nas doações que surgem no rastro dessas campanhas.

 

Ao mesmo tempo, há a ascensão de “linchamentos virtuais”, nos quais é possível fazer valer valores de virtude e descompasso social que, no fundo, são mais destrutivos do que construtivos, porque pregam soluções como exclusão e risco (e aí não estou falando só dos populistas de extrema direita). O resultado desse processo, repete Bavel e seus colegas, é menos debate e mais facilidade para a criação de opiniões polarizadas que se tornam inquestionáveis (ou sem razão), ou até dessensibilizar as pessoas contra a injustiça.

 

Como em outros aspectos da vida, excesso de estímulo tende a gerar problemas. É, portanto, urgente regulá-las, mas, enquanto isso não ocorre, vale lembrar que é possível, em muitos casos, dosar a exposição – inclusive a tentação de engajamento que esse esteves cara a cara com quem está falando.

 

(LOPES, Reinaldo José. Redes sociais distorcem instintos morais humanos e geram fadiga de empatia, diz estudo. Folha de São Paulo. São Paulo, 29 de jun. de 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 14 de jul. de 2024. Adaptado)

Considere o texto e responda a questão seguinte.   Depreende-se da leitura do texto que, no ambiente virtual, quando as pessoas estão indignadas com algo, frequentemente, elas
  1. Aprocuram ler cada vez mais sobre conteúdos relacionados ao rato que gerou essa indignação, o que contribui para maior divulgação do conhecimento pautado em fontes confiáveis.
  2. Bse mobilizam através das redes sociais e conseguem agir no mundo, usando a empatia para defender os grupos sociais vulneráveis contra injustiças diversas.
  3. Cpostam com mais frequência informações que não são fundamentadas; esse tipo de conteúdo consegue um maior número de interações, atingindo mais usuários das redes.
  4. Dcontribuem para a realização de exposições públicas e condenações virtuais, punindo indivíduos que cometeram atos reprováveis e protegendo a comunidade de problemas futuros.
  5. Ese tornam mais agressivas nos ambientes virtuais e propagam discursos que promovem ódio a pessoas e grupos, o que tem feito as próprias redes sociais exigirem uma regulamentação externa.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — postam com mais frequência informações que não são fundamentadas; esse tipo de conteúdo consegue um maior número de interações, atingindo mais usuários das redes.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência sobre o comportamento de pessoas indignadas nas redes sociais

Gabarito: letra C. A questão pede uma inferência a partir do texto: o que as pessoas fazem, no ambiente virtual, quando estão indignadas. O texto afirma que "gente revoltada e/ou moralmente ultrajada tende a compartilhar e comentar com mais frequência informações sobre desrespeito a essas normas" e que esse tipo de conteúdo "tende a monopolizar a conversa online". A alternativa C parafraseia exatamente isso: postam com mais frequência informações não fundamentadas, e esse conteúdo consegue mais interações, atingindo mais usuários. As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou contradizem o que ele diz, ou tangenciam o tema.

O comando "Depreende-se" indica que a resposta não está literal, mas é uma dedução ancorada em pistas do texto. Não se trata de uma informação explícita, mas de uma conclusão que o texto obriga a tirar. A banca quer que você identifique a consequência da indignação no ambiente virtual, conforme descrita no texto.

O texto, de forma geral, argumenta que as redes sociais funcionam como "estímulos supernormais" para os instintos morais humanos. No parágrafo central, o autor explica que pessoas indignadas compartilham e comentam mais informações sobre desrespeito às normas morais, e que isso é captado pelos algoritmos, que passam a entregar mais desse conteúdo, reforçando o ciclo. A alternativa C captura exatamente essa dinâmica: a indignação leva a postagens mais frequentes, e o algoritmo amplifica esse conteúdo.

A técnica para resolver: sublinhe no texto a passagem que descreve o comportamento de quem está indignado. Depois, teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". A correta é a única que se sustenta integralmente no texto, sem acréscimos.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não diz que as pessoas procuram ler mais sobre o assunto, nem que isso contribui para divulgar conhecimento de fontes confiáveis. Pelo contrário, o texto sugere que o conteúdo compartilhado é "informações sobre desrespeito a essas normas", sem qualquer menção a fontes confiáveis. A alternativa inventa uma consequência positiva que não está no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O texto afirma que a indignação leva a compartilhamentos frequentes, mas não diz que isso resulta em mobilizações eficazes que defendem grupos vulneráveis. Pelo contrário, o texto menciona que as mobilizações online "começam a ser seguidas de uma onda de arrefecimento", ou seja, perdem força. A alternativa B apresenta uma visão otimista que o texto não sustenta.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Fundamento: O texto diz que "gente revoltada e/ou moralmente ultrajada tende a compartilhar e comentar com mais frequência informações sobre desrespeito a essas normas" e que isso "tende a monopolizar a conversa online". A alternativa C parafraseia isso: postam com mais frequência, o conteúdo não é fundamentado (o texto fala em "informações sobre desrespeito", sem indicar veracidade), e o algoritmo entrega para mais usuários ("é isso que acaba sendo entregue para a maioria dos usuários"). É a única que se apoia diretamente no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O texto menciona "linchamentos virtuais", mas os descreve como "mais destrutivos do que construtivos", pois "pregam soluções como exclusão e risco". A alternativa D afirma que essas exposições "punem indivíduos que cometeram atos reprováveis e protegem a comunidade", o que é o oposto do que o texto diz. O texto não vê os linchamentos como algo positivo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto fala em "linchamentos virtuais" e "opiniões polarizadas", mas não diz que as pessoas se tornam "mais agressivas" nem que as redes sociais "exigem regulamentação externa". O autor defende a regulamentação, mas não diz que as próprias redes a exigem. A alternativa acrescenta informações que não estão no texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora extrapolar com um fato verdadeiro que o texto não traz. Aqui, a alternativa E parece plausível, mas o texto não diz que as redes sociais exigem regulamentação — quem defende é o autor.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: "depreende-se" pede inferência com pista, não o que está escrito. Teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?".

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a C, que parafraseia a passagem sobre o comportamento de quem está indignado. As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou tangenciam o tema.

Gabarito: letra C

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