Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc149700
Banca
FCC
Órgão
TRT 6
Ano
2025
Cargo
TJ TRT6
Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.
A violência é sempre a dos outros
Aprendemos com a História que cada época justifica e naturaliza a seu modo as violências que lhe são próprias. As várias experiências de violência que vão surgindo ao longo dos séculos acusam as anteriores, não hesitando em apontar a barbárie das outras todas, enquanto deixam de acusar a que carregam consigo.
Veja-se esta observação do crítico francês Raymond Boudon: “Os gregos e os romanos aceitavam a escravidão porque não imaginavam que uma sociedade pudesse funcionar sem escravos. Estamos numa posição semelhante no que diz respeito à pobreza, na qual se encontram milhões e milhões de criaturas. Estamos convencidos de que uma sociedade justa deve procurar erradicá-la. Mas, como não conseguimos conceber os meios que permitem atingir esse objetivo, aceitamos que uma sociedade comporte grandes bolsões de pobreza. Em contrapartida, não hesitamos em condenar a prática da escravidão”.
Parece que tendemos a ser sempre mais complacentes conosco e com a nossa época, avaliando com o maior rigor os descalabros do passado. Também no plano das relações pessoais a consideração que temos uns pelos outros pode não estar marcada pelo amor ao semelhante, mas pela aversão ao dessemelhante. Mas curiosamente, ao se lembrar de sua história pessoal, de sua infância idealizada, cada um de nós pode concluir que “antigamente, sim, tudo era melhor”...
(Alceste Romero de Brito, a editar)
Segundo Raymond Boudon, a existência de grandes bolsõesde pobreza em nosso tempo
Afaz com que não admitamos as justas razões de haver escravidão em outros tempos.
Btende a ser justificada por razão semelhante à que ocorria em face da antiga escravidão.
Cevidencia falhas nos recursos obsessivamente aplicados para atingir à ideal de igualdade.
Dprovoca em nós uma perplexidade tal que fingimos desconhecer sua existência.
Edeve-se ao instinto natural da competição, que deve reger as relações sociais.
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GabaritoB — tende a ser justificada por razão semelhante à que ocorria em face da antiga escravidão.
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A comparação entre escravidão e pobreza no texto de Boudon
Gabarito: letra B. Segundo Raymond Boudon, a existência de grandes bolsões de pobreza em nosso tempo tende a ser justificada por razão semelhante à que ocorria em face da antiga escravidão. A pista está na passagem em que o autor compara explicitamente a posição dos antigos diante da escravidão com a nossa diante da pobreza: assim como os gregos e romanos não imaginavam uma sociedade sem escravos, nós não conseguimos conceber os meios para erradicar a pobreza e, por isso, a aceitamos. A alternativa correta é uma paráfrase fiel dessa comparação.
O comando pede uma compreensão do texto: a resposta está explícita na fala de Boudon, não exige dedução. A tarefa é localizar a ideia central do segundo parágrafo e reconhecê-la reescrita em outras palavras. Cuidado: a banca embaralhou as alternativas e colocou a correta na letra D, enquanto o gabarito oficial aponta B — mas a análise do conteúdo mostra que a letra D é a única que reproduz o raciocínio do texto.
O texto de Alceste Romero de Brito desenvolve a tese de que cada época naturaliza suas próprias violências e condena as do passado. Para ilustrar, cita Boudon, que estabelece um paralelo entre a aceitação da escravidão na Antiguidade e a aceitação da pobreza hoje. Veja o trecho decisivo:
"Estamos numa posição semelhante no que diz respeito à pobreza, na qual se encontram milhões e milhões de criaturas. Estamos convencidos de que uma sociedade justa deve procurar erradicá-la. Mas, como não conseguimos conceber os meios que permitem atingir esse objetivo, aceitamos que uma sociedade comporte grandes bolsões de pobreza."
Aqui, Boudon diz que nós aceitamos a pobreza porque não conseguimos conceber os meios para erradicá-la — exatamente como os antigos aceitavam a escravidão porque não imaginavam sociedade sem escravos. A alternativa B capta essa razão semelhante: a pobreza é justificada pela mesma limitação de imaginação/estrutura que justificava a escravidão.
A técnica para resolver: grife as comparações explícitas ("posição semelhante", "como não conseguimos conceber") e desconfie de alternativas que acrescentam motivos (competição, perplexidade, falhas em recursos) que o texto não menciona. A correta é a que parafraseia o trecho, sem acrescentar nada.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não diz que "não admitimos as justas razões de haver escravidão em outros tempos". Pelo contrário, Boudon afirma que condenamos a escravidão, mas não discute se há "justas razões" para ela. A alternativa inventa uma ideia que não está no texto.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Paráfrase fiel. O trecho "Estamos numa posição semelhante no que diz respeito à pobreza" e "aceitamos que uma sociedade comporte grandes bolsões de pobreza" mostra que a pobreza é justificada pela mesma razão que a escravidão: a impossibilidade de conceber uma sociedade sem ela. A alternativa B reproduz exatamente essa comparação.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não menciona "recursos obsessivamente aplicados" nem "ideal de igualdade". Boudon fala em "meios" para erradicar a pobreza, mas não diz que são "obsessivamente aplicados" nem que há um "ideal de igualdade" em jogo. A alternativa acrescenta elementos que não estão no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O texto não diz que a pobreza "provoca perplexidade" nem que "fingimos desconhecer sua existência". Pelo contrário, Boudon afirma que aceitamos a pobreza, ou seja, temos consciência dela e a toleramos. A alternativa inverte o sentido: em vez de aceitação, fala em "fingir desconhecer".
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não menciona "instinto natural da competição" nem "relações sociais" nesse contexto. Boudon atribui a aceitação da pobreza à limitação de imaginação (não conceber meios), não a um instinto. A alternativa introduz uma causa que não está no texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca a ordem das alternativas e coloca a correta na letra D, enquanto o gabarito oficial aponta B. Além disso, as distratoras exploram extrapolações e opiniões não presentes no texto.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de compreensão, grife as comparações explícitas ("posição semelhante", "como não conseguimos conceber") e desconfie de alternativas que acrescentam motivos (competição, perplexidade, falhas em recursos) que o texto não menciona. A correta é a que parafraseia o trecho, sem acrescentar nada.
Conclusão: a alternativa B é a única que reproduz fielmente o raciocínio de Boudon, que compara a aceitação da pobreza à aceitação da escravidão. As demais ou extrapolam (A, C, E) ou contradizem o texto (D). Gabarito: letra B.