Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc149774
Banca
FCC
Órgão
SEDU ES
Ano
2025
Cargo
Ag Sup ( )
A escrita criativa pode ser ensinada?
É uma pergunta sensata, mas por mais vezes que me tenha sido feita, nunca sei realmente o que responder. Porque se o que as pessoas querem dizer é “pode o amor à linguagem ser ensinado?”, “pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?”, então a resposta é não. Talvez seja esta a razão por que a pergunta é formulada tantas vezes num tom cético que sugere que, diferentemente da tabuada de multiplicar ou dos princípios da mecânica automobilística, a criatividade não pode ser transmitida de professor para aluno. Imagine Milton inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda com Paraíso perdido, ou Kafka suportando um seminário em que seus colegas o informam que, francamente, a passagem em que o sujeito acorda uma manhã pensando que é um inseto gigante não os convence. O que me confunde não é a sensatez da pergunta, mas o fato de que ela está sendo feita a uma escritora que ensinou escrita, intermitentemente, por quase 20 anos. Que impressão eu daria sobre mim, meus alunos e as horas que passamos na sala de aula se dissesse que qualquer tentativa de ensinar a escrita de ficção é uma completa perda de tempo? Provavelmente teria de ir em frente e admitir que andei cometendo uma fraude criminosa.
(Adaptado de: PROSE, Francine. Para ler como um escritor: um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los. São Paulo: Zahar, 2008. p. 8-9)
Leia o texto, para responder a questão seguinte.
No trecho pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?, o termo talento significa, no contexto, a capacidade de
Aapreciar o uso da linguagem em seu aspecto estético.
Bcontar histórias de forma objetiva e técnica.
Censinar conceitos abstratos de maneira prática.
Ddesenvolver técnicas linguísticas por meio de estudo.
Ecriar narrativas com originalidade e habilidade.
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GabaritoE — criar narrativas com originalidade e habilidade.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O sentido de "talento" no contexto
Gabarito: letra E. No trecho "pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?", a palavra talento designa a capacidade de criar narrativas com originalidade e habilidade — é o dom inato, a aptidão natural para contar histórias de forma inventiva e competente, que o texto contrapõe ao que é meramente técnico e transmissível. A passagem que ancora essa leitura é a que nega a possibilidade de ensinar o que seria inato:
"pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?", então a resposta é não.
A autora responde não justamente porque "talento" remete a uma qualidade intrínseca, criativa, que não se transmite de professor para aluno — exatamente o que a alternativa E expressa.
O comando: sentido contextual de uma palavra
A questão pede que se identifique o significado de "talento" no contexto em que foi empregado. Isso não é uma pergunta de vocabulário isolado (sentido dicionarizado), mas de semântica contextual: a palavra assume um matiz específico dentro do argumento do texto. O comando "no contexto" é o aviso de que a resposta deve ser buscada na função que o termo exerce na argumentação, e não em um sentido genérico de dicionário.
O texto: a tese e o papel de "talento"
O texto de Francine Prose discute se a escrita criativa pode ser ensinada. A autora distingue dois níveis: o que é ensinável (técnicas, princípios) e o que não é (o amor à linguagem, o talento para narrar). A pergunta retomada no enunciado — "pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?" — recebe resposta negativa explícita:
"pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?", então a resposta é não.
O termo "talento" aparece, portanto, como aquilo que não pode ser transmitido, em oposição ao que é técnico e aprendível (como a tabuada ou a mecânica automobilística, citadas no texto). Essa oposição é a chave: talento = dom natural, criativo, original; técnica = conhecimento adquirido, objetivo, transmissível.
A técnica: distinguir dom inato de habilidade técnica
A armadilha central da questão é confundir talento com técnica. O texto estabelece uma fronteira nítida entre o que é inato/criativo (talento, amor à linguagem) e o que é ensinável/objetivo (tabuada, mecânica, técnicas linguísticas). A alternativa correta precisa capturar o lado criativo e inato; as distratoras, em geral, puxam para o lado técnico, objetivo ou de apreciação — tudo o que o texto não associa a "talento".
Alternativa A — ❌ Incorreta
Apreciar o uso da linguagem em seu aspecto estético. O texto menciona "amor à linguagem" como algo que não pode ser ensinado, mas apreciar o aspecto estético é uma atividade de recepção, não de criação. O trecho fala de "talento para a narração de histórias", ou seja, para produzir narrativas, não para apreciá-las. A alternativa tangencia o tema: troca a capacidade de criar pela capacidade de apreciar.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Contar histórias de forma objetiva e técnica. Esta é a distratora mais sedutora, pois inverte a oposição central do texto. "Talento" é exatamente o que não é técnico nem objetivo — é o dom inato que não se transmite. O texto contrapõe o talento à "tabuada de multiplicar" e aos "princípios da mecânica automobilística", que são conhecimentos objetivos e transmissíveis. Atribuir a "talento" o caráter técnico e objetivo é contradizer a tese do texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Ensinar conceitos abstratos de maneira prática. A alternativa extrapola completamente: o texto não trata de ensinar conceitos abstratos de maneira prática em nenhum momento. Essa é uma ideia genérica sobre educação que não encontra respaldo em nenhuma passagem. Além disso, inverte a lógica: "talento" é o que não pode ser ensinado, enquanto a alternativa o define como uma capacidade de ensinar.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Desenvolver técnicas linguísticas por meio de estudo. Novamente, a alternativa contradiz o texto ao associar "talento" a algo que se desenvolve por estudo e que envolve técnicas. O texto é explícito: o talento não pode ser ensinado, não é transmissível. Desenvolver técnicas por estudo é justamente o oposto do que o texto define como talento — é o que poderia ser ensinado, mas não é o que a palavra significa no trecho.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Criar narrativas com originalidade e habilidade. Esta é a única alternativa que captura o sentido de "talento" como dom inato e criativo. O texto nega que esse talento possa ser ensinado, o que só faz sentido se ele for entendido como uma capacidade natural, original e hábil de criar histórias — algo que não se transmite de professor para aluno. A passagem que sustenta:
"pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?", então a resposta é não.
A resposta negativa só se justifica porque "talento" é uma qualidade intrínseca e criativa, não uma habilidade técnica adquirível. A alternativa E é a única que preserva essa essência.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre talento (dom inato e criativo) e técnica (habilidade adquirida e objetiva). As distratoras B e D puxam para o lado técnico, que o texto explicitamente exclui do que é talento. A correta é a única que mantém o caráter criativo e inato.
PEGA ESSA DICA!
Ao encontrar uma palavra com sentido contextual, pergunte: "o que o texto diz sobre essa palavra?" Se o texto nega que algo possa ser ensinado, esse algo é necessariamente inato e criativo — não técnico, não objetivo, não adquirido por estudo.