Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc149776
Banca
FCC
Órgão
SEDU ES
Ano
2025
Cargo
Ag Sup ( )
A escrita criativa pode ser ensinada?
É uma pergunta sensata, mas por mais vezes que me tenha sido feita, nunca sei realmente o que responder. Porque se o que as pessoas querem dizer é “pode o amor à linguagem ser ensinado?”, “pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?”, então a resposta é não. Talvez seja esta a razão por que a pergunta é formulada tantas vezes num tom cético que sugere que, diferentemente da tabuada de multiplicar ou dos princípios da mecânica automobilística, a criatividade não pode ser transmitida de professor para aluno. Imagine Milton inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda com Paraíso perdido, ou Kafka suportando um seminário em que seus colegas o informam que, francamente, a passagem em que o sujeito acorda uma manhã pensando que é um inseto gigante não os convence. O que me confunde não é a sensatez da pergunta, mas o fato de que ela está sendo feita a uma escritora que ensinou escrita, intermitentemente, por quase 20 anos. Que impressão eu daria sobre mim, meus alunos e as horas que passamos na sala de aula se dissesse que qualquer tentativa de ensinar a escrita de ficção é uma completa perda de tempo? Provavelmente teria de ir em frente e admitir que andei cometendo uma fraude criminosa.
(Adaptado de: PROSE, Francine. Para ler como um escritor: um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los. São Paulo: Zahar, 2008. p. 8-9)
Leia o texto, para responder a questão seguinte. O uso de referências como Milton e Kafka no texto serve para ilustrar uma
Aideia de que esses escritores foram mal orientados.
Bnecessidade de ajuda acadêmica para escritores consagrados.
Ccrítica à formação acadêmica de escritores consagrados.
Dideia de que a criação de grandes obras não depende de ensino formal.
Evisão de que o ensino formal é um erro para escritores.
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GabaritoD — ideia de que a criação de grandes obras não depende de ensino formal.
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O uso de Milton e Kafka: a criação de grandes obras não depende de ensino formal
Gabarito: letra D. As referências a Milton e Kafka servem para ilustrar a ideia de que a criação de grandes obras não depende de ensino formal. A autora usa esses exemplos de forma hipotética e irônica — imaginar Milton buscando ajuda em um programa de pós-graduação para escrever Paraíso perdido, ou Kafka suportando um seminário em que seus colegas não se convencem com a passagem do inseto gigante, é uma forma de mostrar o absurdo de se pensar que a genialidade criativa desses autores poderia ser ensinada ou aprimorada em uma sala de aula. A passagem que ancora essa leitura é:
"Imagine Milton inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda com Paraíso perdido, ou Kafka suportando um seminário em que seus colegas o informam que, francamente, a passagem em que o sujeito acorda uma manhã pensando que é um inseto gigante não os convence."
A cena é deliberadamente absurda — ninguém imagina Milton precisando de ajuda para escrever sua obra-prima, nem Kafka sendo reprovado por seus colegas. O efeito é justamente o oposto: essas obras-primas não dependem de nenhum ensino formal; elas nascem do talento e da genialidade individuais.
O comando: compreensão e inferência
O enunciado pede que se identifique a função do uso das referências — ou seja, o que elas ilustram. Isso é uma questão de compreensão (o que o texto diz) combinada com inferência (o que o texto sugere). Não se trata de localizar uma informação literal, mas de captar o efeito de sentido que a autora constrói com esses exemplos. A resposta não está escrita palavra por palavra, mas é obrigatoriamente deduzida das pistas do texto.
O texto: a tese e o movimento argumentativo
O texto discute se a escrita criativa pode ser ensinada. A autora começa dizendo que, se a pergunta significa "pode o amor à linguagem ser ensinado?" ou "pode o talento para a narração de histórias ser ensinado?", a resposta é não. É exatamente nesse ponto que ela insere os exemplos de Milton e Kafka — como uma ilustração dessa impossibilidade. A ironia está em imaginar esses gênios em situações de ensino formal, o que soa ridículo. O movimento argumentativo é: se nem Milton nem Kafka precisaram (ou poderiam se beneficiar) de ensino formal, então a criação de grandes obras não depende dele.
A técnica: o exemplo como argumento
A autora usa o exemplo hipotético como estratégia argumentativa. Ao criar uma cena absurda, ela convida o leitor a concordar com a tese de que o talento criativo não se ensina. A alternativa correta precisa captar exatamente essa função: ilustrar a independência da criação artística em relação ao ensino formal. Qualquer alternativa que atribua aos exemplos um sentido diferente (como crítica, necessidade de ajuda ou má orientação) extrapola o que o texto autoriza.
Função das referências a Milton e Kafka
1Ilustram a tese central
Criação de grandes obras não depende de ensino formal
2Estratégia argumentativa
Exemplo hipotético e irônico
Cena absurda convida à concordância
3Efeito de sentido
Genialidade criativa não se ensina
Talento e amor à linguagem são inatos
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não diz que Milton ou Kafka foram mal orientados. Pelo contrário, a cena é hipotética e irônica — não há nenhuma afirmação sobre a orientação real desses escritores. A alternativa inventa uma informação que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A cena de Milton "inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda" é hipotética e absurda — não uma necessidade real de ajuda acadêmica. O texto usa a imagem justamente para mostrar o contrário: esses escritores não precisariam de ajuda formal. A alternativa inverte o sentido.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não faz uma crítica à formação acadêmica de escritores consagrados. A cena é uma ilustração irônica da tese de que o talento não se ensina, não uma avaliação negativa do ensino formal em si. A alternativa acrescenta um juízo de valor que o texto não externa.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. A cena hipotética de Milton e Kafka em situações de ensino formal é absurda justamente porque suas obras-primas não dependem de ensino formal. A passagem "Imagine Milton inscrevendo-se num programa de pós-graduação para obter ajuda com Paraíso perdido" é a prova: a autora não pode imaginar isso como algo sério, pois a genialidade criativa não se aprende em sala de aula. A alternativa é uma paráfrase fiel da tese central do texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: generalização indevida. O texto não afirma que o ensino formal é um erro para escritores. A autora apenas diz que o talento e o amor à linguagem não podem ser ensinados. A alternativa restringe e distorce o alcance da tese, transformando uma impossibilidade específica em uma condenação geral do ensino formal.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação — oferece alternativas que acrescentam opiniões ou julgamentos que o texto não faz (como "mal orientados" ou "crítica à formação acadêmica"). A correta é a única que se limita a parafrasear a tese sem ultrapassar o que está escrito.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar a função de um exemplo, pergunte: o que a autora quer que eu conclua com essa imagem? A resposta está na tese que o exemplo ilustra, não em detalhes secundários.
Gabarito: letra D — a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto, que ilustra a independência da criação artística em relação ao ensino formal.