Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc149781
Banca
FCC
Órgão
TRF 4
Ano
2025
Cargo
TJ TRF4
Interativo demais
Antigamente, os escritoress eram admirados apenas pelo que publícavam em livros e revistas. Quando algum leitor gostava muito do que havia lido e queria compartilhar com alguém, dava o livro de presente ou emprestava o seu. O conteúdo mantinha-se preservado, assim como seu autor. Ninguém divulgava um texto de Somerset Maugham como sendo de Virgínia Woolf, ninguém infiltrava parágrafos do Rubem Braga num texto do Sartre, ninguém criava novos finais para os poemas de Cecília Meireles. O escritor e sua obra eram respeitados, e os leitores podiam confiar no que estavam consumindo.
Além disso, artistas de cinema, músicos e esportistas eram mitos a cuja intimidade não se tinha acesso. Marilyn Monroe, Frank Sinatra e Ayrton Senna entregavam ao públlco o que prometiam - sua arte - e o resto era especulação. Mais tarde pipocavam biografias, saciando a curiosidade do público, mas o legado desses ícones se manteve para sempre incorruptível: eram os donos legítimos de sua imagem, de sua voz e de suas palavras.
Era uma época em que aceitávamos pacificamente nossa condíção de plateia, até que se inventou o conceito de interatividade e as ferramentas para exercê-la. Por um lado, a sociedade se democratizou, todos passaram a ser ouvidos, diminuiu a distância entre patrões e empregados, produtores e consumidores: as relações ficaram mais funcionais; por outro, o uso dessas ferramentas acabou involuindo para a maledicência e a promiscuidade virtual. Hoje ninguém consegue mais ter controle sobre sua imagem ou seu trabalho. Um ator de televisão diz "oi" para uma amiga na rua e na manhã seguinte correm notícias de que estão de casamento marcado. Uma cantora cancela um show porque está afônica e logo surge o boato de que tentou suicídio. Um escritor publica um texto no jornal e três segundos depois o mesmo texto está na intemet, atribuído a Toulouse-Lautrec, que nem escritor foi.
(Adaptado de Martha Medeiros. A graça da coisa. L &PM Editores. 2013)
O termo demais, do titulo, antecipa uma reflexão crítica que se desenvolve ao longo do texto, sobretudo em relação à
Abanalização dos produtos culturais tradicionais, incapazes de competir com o dinamismo e a velocidade das novas plataformas digitais.
Bmaneira ativa de fruição artística no passado, considerado pela autora como avançada diante das novas exigências do público digital.
Cresisitência de autores e artistas em se adaptarem ao novo modelo comunicacional, o que os afasta do público contemporâneo e compromete sua relevância cultural.
Dsubstituição do contato direto com a arte por experiências filtradas por algoritmos, o que empobrece a relação entre criador e consumidor.
Eperda de limites entre público e privado, decorrente do uso exacerbado de tecnologias de interatividade, que compromete a integridade da imagem e da produção artística.
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GabaritoE — perda de limites entre público e privado, decorrente do uso exacerbado de tecnologias de interatividade, que compromete a integridade da imagem e da produção artística.
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A tese do texto: a perda de limites entre público e privado na era da interatividade
Gabarito: letra E. O título "Interativo demais" antecipa a crítica central do texto: o excesso de interatividade, que, ao democratizar a comunicação, também dissolveu a fronteira entre o público e o privado, comprometendo a integridade da imagem e da produção artística. Essa tese é explicitada no 3º parágrafo, quando a autora afirma que "o uso dessas ferramentas acabou involuindo para a maledicência e a promiscuidade virtual" e que "hoje ninguém consegue mais ter controle sobre sua imagem ou seu trabalho". A alternativa E é a única que sintetiza exatamente esse movimento: a perda de limites entre o que é público e o que é privado, causada pelo uso exacerbado das tecnologias interativas.
O comando: o que a banca pede
A questão pede que você identifique a reflexão crítica que o título "Interativo demais" antecipa e que se desenvolve ao longo do texto. Isso é uma questão de compreensão global: você precisa captar a tese do autor, ou seja, a ideia central que ele defende. Não se trata de uma inferência sutil, mas de reconhecer o eixo argumentativo do texto. O título funciona como uma chave de leitura: "demais" já sinaliza um excesso, e o texto vai mostrar os efeitos negativos desse excesso.
O texto: do passado idealizado ao presente caótico
O texto de Martha Medeiros tem uma estrutura clara de contraste:
1º e 2º parágrafos: descrevem um passado em que escritores e artistas eram respeitados, sua obra era preservada e sua intimidade era inacessível. O autor era "dono legítimo de sua imagem, de sua voz e de suas palavras".
3º parágrafo: apresenta a virada: a invenção da interatividade. Se por um lado democratizou a sociedade, por outro "involuiu para a maledicência e a promiscuidade virtual". A partir daí, ninguém controla mais a própria imagem: um ator vira notícia de casamento por dizer "oi" a uma amiga; uma cantora vira boato de suicídio por cancelar um show; um escritor tem seu texto atribuído a outra pessoa.
A tese, portanto, é que a interatividade, em excesso, apagou a linha entre o que é público e o que é privado, e isso corrompe a integridade da imagem e da produção artística. É exatamente o que a alternativa E afirma.
A técnica: como testar cada alternativa
A armadilha central desta questão é a extrapolação: várias alternativas parecem razoáveis, mas introduzem ideias que o texto não menciona. Para resolver, pergunte-se: "O texto autoriza esta afirmação?" A resposta correta é a única que pode ser provada com trechos do texto, sem precisar acrescentar nada de fora.
Tese do texto: Interatividade excessiva (Dissolveu fronteira público × privado, Comprometeu integridade da imagem e da obra); Passado (idealizado) (Plateia passiva, Artista dono da própria imagem); Presente (caótico) (Boatos e distorções, Ninguém controla a própria imagem)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa fala em "banalização dos produtos culturais tradicionais, incapazes de competir com o dinamismo e a velocidade das novas plataformas digitais". O texto não discute competição entre produtos culturais tradicionais e plataformas digitais. O que ele diz é que o conteúdo é distorcido (atribuído a outra pessoa, com boatos), não que ele se torna banal ou perde competitividade. A ideia de "incapacidade de competir" é uma invenção.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que a fruição artística no passado era "ativa" e "avançada". O texto, porém, descreve o passado como uma época em que "aceitávamos pacificamente nossa condição de plateia" — ou seja, uma postura passiva, não ativa. Além disso, a autora não elogia essa postura como "avançada"; ela apenas a descreve como um tempo de respeito e confiança. A alternativa inverte o sentido do texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa fala em "resistência de autores e artistas em se adaptarem ao novo modelo comunicacional". O texto não diz que os artistas resistem ou se recusam a se adaptar. Pelo contrário, eles são vítimas do novo modelo: um ator diz "oi" e vira boato; uma cantora cancela um show e vira boato. Não há nenhuma menção a resistência ou a afastamento do público. A ideia de "compromete sua relevância cultural" também não aparece.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa fala em "substituição do contato direto com a arte por experiências filtradas por algoritmos". O texto não menciona algoritmos, nem fala em "empobrecimento da relação entre criador e consumidor" nesses termos. O que o texto diz é que a interatividade permitiu que boatos e distorções se espalhassem, mas não há a ideia de "filtro por algoritmos" nem de "substituição do contato direto". É uma ideia plausível no mundo real, mas ausente do texto.
Alternativa E — ✅ Correta
A alternativa E é a única que o texto sustenta integralmente. Veja os trechos que a comprovam:
"o uso dessas ferramentas acabou involuindo para a maledicência e a promiscuidade virtual. Hoje ninguém consegue mais ter controle sobre sua imagem ou seu trabalho."
A "promiscuidade virtual" é exatamente a perda de limites entre público e privado: o que era íntimo (um "oi" na rua, um cancelamento de show) vira público (boato de casamento, boato de suicídio). E "ninguém consegue mais ter controle sobre sua imagem ou seu trabalho" é a integridade comprometida da imagem e da produção artística. A alternativa E parafraseia com precisão essa tese.
PEGA ESSA DICA!
Quando a questão pedir a "reflexão crítica" ou a "ideia principal", procure a tese — geralmente expressa na introdução ou na conclusão. Aqui, a tese está no 3º parágrafo, na frase "o uso dessas ferramentas acabou involuindo para a maledicência e a promiscuidade virtual". Toda alternativa que não se conecta diretamente a essa tese é suspeita.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de sintetizar a tese do texto. A alternativa E é a única que capta o núcleo da crítica: a interatividade excessiva dissolveu a fronteira entre o público e o privado, comprometendo a integridade da imagem e da produção artística. As demais alternativas ou extrapolam (A, C, D) ou contradizem o texto (B).