Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Outras Questões de Semântica — FCC 2025

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
fc149782
Banca
FCC
Órgão
TRF 4
Ano
2025
Cargo
TJ TRF4

Interativo demais

 

Antigamente, os escritoress eram admirados apenas pelo que publícavam em livros e revistas. Quando algum leitor gostava muito do que havia lido e queria compartilhar com alguém, dava o livro de presente ou emprestava o seu. O conteúdo mantinha-se preservado, assim como seu autor. Ninguém divulgava um texto de Somerset Maugham como sendo de Virgínia Woolf, ninguém infiltrava parágrafos do Rubem Braga num texto do Sartre, ninguém criava novos finais para os poemas de Cecília Meireles. O escritor e sua obra eram respeitados, e os leitores podiam confiar no que estavam consumindo.

 

Além disso, artistas de cinema, músicos e esportistas eram mitos a cuja intimidade não se tinha acesso. Marilyn Monroe, Frank Sinatra e Ayrton Senna entregavam ao público o que prometiam - sua arte - e o resto era especulação. Mais tarde pipocavam biografias, saciando a curiosidade do públíco, mas o legado desses ícones se manteve para sempre incorruptível: eram os donos legítimos de sua imagem, de sua voz e de suas palavras.

 

Era uma época em que aceitávamos pacificamente nossa condíção de plateia, até que se inventou o conceito de interatividade e as femimentas para exercê-la. Por um lado, a sociedade se democratizou, todos passaram a ser ouvidos, diminuiu a distância entre patrões e empregados, produtores e consumidores: as relações ficaram mais funcionais; por outro, o uso dessas ferramentas acabou involuindo para a maledicêncía e a promiscuidade virtual. Hoje ninguém consegue mais ter controle sobre sua imagem ou seu trabalho. Um ator de televisão diz "oi" para uma amiga na rua e na manhã seguinte correm notícias de que estão de casamento marcado. Uma cantora cancela um show porque está afônica e logo surge o boato de que tentou suicídio. Um escritor publica um texto no jornal e três segundos depois o mesmo texto está na intemet, atribuído a Toulouse-Lautrec, que nem escritor foi.

 

(Adaptado de Martha Medeiros. A graça da coisa. L &PM Editores. 2013)

A articulação entre os trechos O conteúdo mantinha-se preservado e Ninguém divulgava um texto de [ .. ] (1º parágrafo), em relação ao último período do parágrafo, pode ser descrita como de

  1. Afinalidade: o anonimato servia para manter o conteúdo intacto.
  2. Bcausalidade: o respeito à autoria era o motivo da preservação textual.
  3. Cproporcionalidade: as ações descritas ocorriam gradativamente.
  4. Dcondição: o conteúdo era preservado se o autor fosse respeitado.
  5. Eadversidade: a preservação do conteúdo contrariava o costume da época.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — causalidade: o respeito à autoria era o motivo da preservação textual.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relações semânticas entre ideias: causalidade no 1º parágrafo

Gabarito: letra B. A articulação entre "O conteúdo mantinha-se preservado" e "Ninguém divulgava um texto de [...]" é de causalidade: o respeito à autoria (explicitado em "O escritor e sua obra eram respeitados") é o motivo que explica a preservação do conteúdo. O texto não usa conectivo causal explícito, mas a relação lógica é de causa e consequência — e é isso que a banca pede para identificar.

O comando da questão é de compreensão das relações entre ideias: não se pergunta o que o texto afirma literalmente, mas que tipo de vínculo lógico une os trechos citados. Isso muda a resolução: não basta localizar a informação; é preciso inferir a relação semântica (causa, finalidade, condição, proporção, adversidade) que o autor estabelece entre elas. A pista está na ordem lógica dos fatos e na retomada lexical do parágrafo.

No 1º parágrafo, o autor descreve um tempo em que o conteúdo literário permanecia íntegro: ninguém adulterava textos, ninguém atribuía obras a autores errados, ninguém criava finais novos. A razão desse estado de coisas vem explícita na frase final do parágrafo:

"O escritor e sua obra eram respeitados, e os leitores podiam confiar no que estavam consumindo."

Aqui está a causa: o respeito à autoria. A consequência é a preservação do conteúdo e a confiança do leitor. Os trechos "O conteúdo mantinha-se preservado" e "Ninguém divulgava um texto de [...]" são exemplos/desdobramentos dessa consequência — e todos eles se explicam pelo mesmo motivo: o respeito ao autor. A relação é, portanto, de causa e efeito, não de finalidade, condição, proporção ou adversidade.

A armadilha central da questão é a troca de relação semântica: a banca oferece conectivos lógicos que não correspondem ao vínculo real entre as ideias. O candidato que lê rápido pode achar que "preservado" implica "finalidade" (preservar para quê?) ou que "ninguém divulgava" é uma condição (se ninguém divulga, preserva-se). Mas o texto não autoriza nenhuma dessas leituras: ele afirma que a preservação acontecia porque havia respeito — não que ela objetivava algo, nem que dependia de algo, nem que crescia gradativamente.

O gancho para resolver: teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta relação, ou ela exige acrescentar um conectivo que o autor não usou? A causalidade está pressuposta na estrutura do parágrafo (causa → consequência); as demais relações inventam um vínculo que o texto não estabelece.

1Causalidade (gabarito)
Causa: respeito à autoria
Consequência: preservação do conteúdo
2Finalidade
Texto não apresenta objetivo
3Condição
Texto afirma fato consumado, não hipótese
4Proporcionalidade
Não há processo gradual
5Adversidade
Preservação era o costume, não exceção
Relações semânticas
LEVELsoulevel.com.br
Relações semânticas: Causalidade (gabarito) (Causa: respeito à autoria, Consequência: preservação do conteúdo); Finalidade (Texto não apresenta objetivo); Condição (Texto afirma fato consumado, não hipótese); Proporcionalidade (Não há processo gradual); Adversidade (Preservação era o costume, não exceção)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Finalidade (o anonimato servia para manter o conteúdo intacto). O texto não diz que a preservação era um objetivo a ser alcançado. A finalidade responde à pergunta "para quê?" — e o parágrafo não apresenta nenhuma intenção. A preservação é apresentada como fato consumado, consequência do respeito, não como meta. A alternativa extrapola: acrescenta uma ideia de propósito que o texto não menciona.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Causalidade (o respeito à autoria era o motivo da preservação textual). O texto afirma:

"O escritor e sua obra eram respeitados, e os leitores podiam confiar no que estavam consumindo."

O respeito é a causa; a preservação do conteúdo e a confiança do leitor são a consequência. Os trechos citados no enunciado ("O conteúdo mantinha-se preservado" e "Ninguém divulgava um texto de [...]") são desdobramentos dessa consequência, todos explicados pelo mesmo motivo. A relação é de causa e efeito, ainda que sem conectivo explícito — a lógica do parágrafo a impõe.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Proporcionalidade (as ações descritas ocorriam gradativamente). O texto não descreve um processo gradual, com aumento ou diminuição proporcional. Não há expressões como "quanto mais... mais" ou "à medida que". A alternativa tangencia: fala de uma relação lógica que não aparece no parágrafo, que é estático (descreve um estado de coisas, não uma evolução).

Alternativa D — ❌ Incorreta

Condição (o conteúdo era preservado se o autor fosse respeitado). A condição estabelece uma dependência hipotética: "se A, então B". O texto, porém, afirma categoricamente que o conteúdo era preservado — não que isso dependia de algo. A relação é de fato consumado, não de possibilidade. A alternativa restringe o alcance do texto: transforma uma afirmação absoluta em uma hipótese condicional.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Adversidade (a preservação do conteúdo contrariava o costume da época). O texto não apresenta oposição entre preservação e costume. Pelo contrário: a preservação era o costume da época — o parágrafo descreve um tempo em que isso era normal, não exceção. A alternativa contradiz o texto: inverte a relação, transformando o que era regra em exceção.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a troca de relação semântica. A causalidade está implícita (sem conectivo), então o candidato tende a buscar um vínculo explícito que não existe — e acaba aceitando finalidade ou condição, que são relações plausíveis mas não autorizadas pelo texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar relações entre ideias, pergunte: qual pergunta o trecho responde? "Por quê?" → causa; "Para quê?" → finalidade; "Em que condição?" → condição; "Em que medida?" → proporção; "Mas..." → adversidade. O texto responde "por quê?": o conteúdo era preservado porque o autor era respeitado.

Gabarito: letra B. A causalidade é a única relação que o texto sustenta: o respeito à autoria (causa) explica a preservação do conteúdo (consequência). As demais alternativas ou extrapolam (finalidade), ou restringem (condição), ou contradizem (adversidade), ou tangenciam (proporcionalidade) o que o parágrafo afirma.

Link permanente: /questoes/fc149782