Questão de Português — Figuras de Linguagem — FCC 2025
Português›Figuras de Linguagem
Código
fc149785
Banca
FCC
Órgão
MPE PI
Ano
2025
Cargo
Ana Min ( )
"O Inferno são os outros" - diz esse desagradável senhor Sartre no final de Huis Cios, e eu respondo: "eu que o diga!" Hoje estou com pendor para confissões; vontade de abrir meu peito em praça pública;A quem for pessoa discreta, e se aborrecer com derrames desses, tenha a bondade de não continuar a ler Isto.
Conheci um homem que estava tão apaixonado, tão apaixonado por uma mulher (acho que ela não gostava dele), que uma vez estávamos nós dois num barB e no melo da conversa ele disse fremente:
- Isso é o maior verso da língua portuguesa!
Fiquei pateta, pois não escutara verso nenhum. Ele então pediu silêncio, e que ouvisseC. Havia conversas na mesa ao lado, ruídos vários lá dentro,D autos e ônibus que passavam, um bonde na outra rua, um violoncelo tocando num rádio qualquer, e lá no finzinho disso, longe, longe, um outro rádio com o samba que mal se podia ouvir e só era reconhecível pelos fragmentos de música que nos chegavam.E O maior verso da língua portuguesa estava na letra daquele samba e avisava que "Emílla, Emília, Emília, eu não posso mais".
(Adaptado de: BRAGA. Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro: Record, 2017)
Considere o início da crônica "Sobre o inferno", de Rubem Braga, para responder à questão abaixo. O cronista faz uso da figura de linguagem conhecida como hipérbole no seguinte trecho:
AHoje estou com pendor para confissões; vontade de abrir meu peito em praça pública.
Buma vez estávamos nós dois num bar.
CEle então pediu silêncio, e que ouvisse.
DHavia conversas na mesa ao lado, ruídos vários lá dentro.
Eum outro rádio com o samba que mal se podia ouvir e só era reconhecível pelos fragmentos de música que nos chegavam.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — Hoje estou com pendor para confissões; vontade de abrir meu peito em praça pública.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Hipérbole: o exagero intencional na crônica de Rubem Braga
Gabarito: letra A. A hipérbole é a figura de pensamento que consiste no exagero intencional de uma ideia, e o trecho "vontade de abrir meu peito em praça pública" é o único que a contém: ninguém literalmente abre o próprio peito em praça pública — a expressão amplifica, de forma deliberadamente exagerada, o desejo de se confessar publicamente. Como se lê no início da crônica, o cronista anuncia seu "pendor para confissões" e o intensifica com essa imagem hiperbólica.
O comando pede que se identifique o trecho em que o cronista faz uso da hipérbole. Isso muda completamente a tarefa: não se trata de compreender o sentido global do texto, nem de inferir algo implícito, mas de reconhecer uma figura de linguagem específica em cada fragmento. A pergunta é de natureza metalinguística: você precisa saber o que é hipérbole e, em seguida, testar cada alternativa contra essa definição.
A hipérbole é uma figura de pensamento que expressa uma ideia de forma exagerada, desproporcional, com o objetivo de dar ênfase ou criar efeito expressivo. O exagero é a marca registrada: "morri de rir" (não morri de fato), "chorei rios de lágrimas" (não houve rios), "te esperei uma eternidade" (não foi uma eternidade). A chave para identificá-la é perceber que a afirmação, tomada ao pé da letra, é impossível ou absurda, mas o leitor entende perfeitamente a intenção do autor. No trecho da alternativa A, "abrir meu peito em praça pública" é literalmente impossível — é uma imagem exagerada para dizer que o cronista quer se expor, se confessar abertamente, sem reservas.
"Hoje estou com pendor para confissões; vontade de abrir meu peito em praça pública."
A expressão "abrir o peito" já é uma metáfora para "desabafar, confessar-se"; ao acrescentar "em praça pública", o cronista exagera essa ideia, ampliando-a ao extremo: não apenas confessar, mas fazê-lo publicamente, diante de todos. Esse exagero é a hipérbole. As demais alternativas descrevem situações factuais, literais, sem qualquer amplificação exagerada — são relatos objetivos do que aconteceu no bar.
A técnica para resolver questões de figuras de linguagem é sempre a mesma: defina a figura, identifique sua marca distintiva e teste cada alternativa contra essa marca. No caso da hipérbole, a marca é o exagero intencional, a desproporção entre o que se diz e o que realmente se quer comunicar. Alternativas que descrevem fatos de forma direta, sem amplificação, não podem conter hipérbole.
Hipérbole: Definição (Exagero intencional, Amplificação de uma ideia, Literalmente impossível); Marca distintiva (Desproporção entre o dito e o real, Ênfase expressiva); Exemplos ("Morri de rir", "Chorei rios de lágrimas", "Te esperei uma eternidade"); Como identificar ("É literalmente possível?", Não → exagero proposital → hipérbole)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Hoje estou com pendor para confissões; vontade de abrir meu peito em praça pública."
A expressão "abrir meu peito em praça pública" é uma hipérbole: o cronista não vai literalmente abrir o peito, nem a confissão ocorrerá numa praça. O exagero serve para enfatizar a intensidade do desejo de se expor, de confessar tudo abertamente. É a única alternativa que apresenta uma amplificação exagerada de uma ideia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"uma vez estávamos nós dois num bar."
Trecho literal e factual: relata objetivamente que duas pessoas estavam num bar. Não há exagero, amplificação ou desproporção. É uma informação concreta, sem qualquer recurso expressivo de exagero.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Ele então pediu silêncio, e que ouvisse."
Ação factual e direta: o homem pede silêncio e pede que o outro ouça. Não há exagero na descrição. É um relato objetivo de uma atitude, sem amplificação hiperbólica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Havia conversas na mesa ao lado, ruídos vários lá dentro."
Descrição literal do ambiente: enumera sons que existiam no bar. Não há exagero; é uma descrição realista e objetiva do cenário. A ausência de amplificação descarta a hipérbole.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"um outro rádio com o samba que mal se podia ouvir e só era reconhecível pelos fragmentos de música que nos chegavam."
Descrição detalhada e literal de um som distante: o samba mal se ouvia, era reconhecível apenas por fragmentos. Não há exagero — pelo contrário, há uma descrição precisa e contida da dificuldade de ouvir. A alternativa descreve uma percepção real, sem amplificação.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre hipérbole (exagero) e descrição detalhada. As alternativas B, C, D e E são todas factuais e literais; a única que amplifica uma ideia de forma exagerada é a A. O candidato que não tem a definição clara de hipérbole tende a marcar a E, por ser a mais "descritiva" e "expressiva", mas expressividade não é o mesmo que exagero.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar hipérbole, pergunte: "isso é literalmente possível?" Se a resposta for "não", e o autor exagerou de propósito para dar ênfase, é hipérbole. "Abrir o peito em praça pública" é impossível literalmente — é exagero. "Estávamos num bar" é perfeitamente possível — é fato.
Gabarito: letra A. A hipérbole mora no exagero intencional; a única alternativa que exagera uma ideia é a que fala em "abrir meu peito em praça pública". As demais descrevem fatos de forma literal, sem amplificação.