Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — FCC 2025
Português›Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
fc149808
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ PI
Ano
2025
Cargo
ATE ( )
Buscas de sentido
Se há algo que nos define como espécie é a busca de sentido da nossa própria vida. O poeta Carlos Drummond de Andrade imaginou um marciano que visitasse a Terra, desse conosco e voltasse para seu planeta intrigado com essa gente que existe para interrogar ou mesmo negar o sentido de sua existência. “Existirmos, a que será que se destina?” — interrogou Caetano Veloso numa canção sua.
Podemos especular que seriam três os principais caminhos tomados pelo homem na busca de resposta para essa pergunta fundamental: o do pensamento racional, o da crença religiosa e o da representação artística. No primeiro entroncam-se a ciência e a filosofia, como modos de investigar e agir sobre a realidade cognoscível; no segundo, a fé propõe bases e dogmas para se crer que o sentido de tudo opera num plano divino, a ser cultuado; no terceiro, o homem se faz ele mesmo criador de sentidos, que figura por meios simbólicos.
Ainda que diferentes, tais caminhos não precisam ser antagônicos. Há em cada um de nós mudanças de rotas, mistura de passos, misto de linguagens diversas. Ninguém duvida de que somos criaturas complexas. Nenhum desses recursos em que investimos para explicar o sentido da nossa vida tem uma resposta cabal. A ciência sabe que sua objetividade tem limites, além dos quais não pode se arriscar para perder o que já ganhou. Se a religião se dá como verdade atingida e completa, a teologia e os místicos não desprezam o valor da dúvida humana, que ajuda na sedimentação da perfeição divina. E a arte, tantas vezes, encontra um prazer maior em figurar o sentido por meio de instrumentos negativos, como a ironia, o humor, a reflexão desencantada.
Machado de Assis se diverte com o plano raso das criaturas que vivem de “achar o achado”, de se contentar com o lugar-comum. Mas o irônico humor machadiano tem um fundo sério, talvez trágico: o grande escritor se reconhece ele mesmo longe de qualquer verdade absoluta, e relativiza os valores humanos, mostrando sua falibilidade essencial.
“A que será que se destina?” Na canção popular, na tragédia clássica, nos laboratórios da ciência, nos templos, nos teatros, nos romances e nas telas, essa pergunta se impõe, mesmo quando simula alguma resposta. A cada passo que damos na chamada progressão civilizatória, a busca de sentido se refaz no subterrâneo do espaço avançado.
(Cláudio Thales de Araújo, a editar)
Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento do texto em:
Aagir sobre a realidade cognoscível (2º parágrafo) = atuar sobre parâmetros hipotéticos.
Bpropõe bases e dogmas (2º parágrafo) = instaura sínteses e razões.
Ctais caminhos não precisam ser antagônicos (3º parágrafo) = essas rotas não demandam acordos.
Dpor meio de instrumentos negativos (3º parágrafo) = apoiando-se em operações de recusa.
Emostrando sua falibilidade essencial (4º parágrafo) = contestando sua plena transitoriedade.
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GabaritoD — por meio de instrumentos negativos (3º parágrafo) = apoiando-se em operações de recusa.
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Reescritura sem perda de sentido: a paráfrase fiel ao texto
Gabarito: letra D. A única reescritura que preserva integralmente o sentido do segmento original é a que traduz "por meio de instrumentos negativos" como "apoiando-se em operações de recusa" — ambas expressam a ideia de usar recursos que negam, recusam ou desconstroem o sentido direto, como o próprio texto exemplifica com "ironia, humor, reflexão desencantada". As demais alternativas trocam um vocábulo crucial por um sinônimo aparente que altera o sentido (extrapolação ou troca de termo), como se vê no 3º parágrafo: "a arte, tantas vezes, encontra um prazer maior em figurar o sentido por meio de instrumentos negativos, como a ironia, o humor, a reflexão desencantada".
O comando: o que a banca pede
A questão é de reescritura de frases — o enunciado pede que se "traduza adequadamente o sentido de um segmento do texto". Isso significa: a alternativa correta deve ser uma paráfrase fiel, ou seja, uma reescritura que mantenha exatamente o mesmo sentido do trecho original, apenas com outras palavras. Não se trata de interpretar além do texto, nem de completar com ideias de fora: é uma operação de sinonímia contextual — trocar palavras por equivalentes no contexto em que aparecem.
A armadilha central da banca é oferecer reescrituras que parecem equivalentes, mas que mudam sutilmente o sentido ao trocar um termo por outro que não é sinônimo no contexto. Por isso, o método é: para cada alternativa, pergunte "o que exatamente o texto diz?" e "a reescritura diz a mesma coisa, nem mais nem menos?".
O texto: onde mora a resposta
O texto discute a busca humana por sentido, apresentando três caminhos: razão, religião e arte. No 3º parágrafo, o autor afirma que esses caminhos não precisam ser antagônicos e que nenhum tem resposta cabal. É nesse parágrafo que está o segmento da alternativa correta:
"E a arte, tantas vezes, encontra um prazer maior em figurar o sentido por meio de instrumentos negativos, como a ironia, o humor, a reflexão desencantada."
A expressão "instrumentos negativos" refere-se a recursos que negam o sentido óbvio, que recusam a afirmação direta — a ironia diz o contrário do que parece, o humor desmonta, a reflexão desencantada desilude. Portanto, "apoiando-se em operações de recusa" é uma paráfrase perfeita: "apoiando-se" = "por meio de"; "operações de recusa" = "instrumentos negativos".
A técnica: como testar cada reescritura
A regra de ouro é substituir o segmento original pela reescritura no próprio texto e verificar se o sentido global permanece. Se a troca introduz uma ideia nova, restringe o alcance ou inverte a direção, está errada. Veja o teste para cada alternativa:
A) "agir sobre a realidade cognoscível" → "atuar sobre parâmetros hipotéticos": "cognoscível" significa que pode ser conhecido; "hipotético" significa suposto, não confirmado. O texto fala de "realidade cognoscível" (realidade que se pode conhecer), não de algo hipotético. A troca extrapola — acrescenta a ideia de incerteza que não está no original.
B) "propõe bases e dogmas" → "instaura sínteses e razões": "dogmas" são verdades de fé, inquestionáveis; "razões" são argumentos lógicos. O texto opõe fé e razão; trocar "dogmas" por "razões" contradiz a distinção que o autor faz.
C) "não precisam ser antagônicos" → "não demandam acordos": "antagônicos" = opostos, conflitantes; "acordos" = entendimentos, combinações. A reescritura troca o sentido: o texto diz que os caminhos não precisam ser opostos, não que não precisam de acordo.
D) "por meio de instrumentos negativos" → "apoiando-se em operações de recusa": correta — como visto, "negativos" = "de recusa"; "por meio de" = "apoiando-se em".
E) "mostrando sua falibilidade essencial" → "contestando sua plena transitoriedade": "falibilidade" = capacidade de errar; "transitoriedade" = caráter passageiro. O texto fala de falibilidade (errar), não de transitoriedade (passar). A troca troca o conceito.
Análise das alternativas
Reescritura fiel (paráfrase)
1Regra de ouro
Substituir no texto original
Não acrescentar nem suprimir
2Erros típicos
Extrapolação (acrescenta ideia)
Contradição (inverte oposição)
Troca de termo (sinônimo aparente)
3Exemplo correto
"instrumentos negativos" = "operações de recusa"
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"agir sobre a realidade cognoscível (2º parágrafo) = atuar sobre parâmetros hipotéticos."
Erro: extrapolação. O texto diz que ciência e filosofia são modos de "investigar e agir sobre a realidade cognoscível", ou seja, sobre a realidade que pode ser conhecida. "Hipotético" introduz a ideia de suposição, incerteza, que não está no original. A reescritura acrescenta um matiz de dúvida que o texto não tem — é uma extrapolação clássica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"propõe bases e dogmas (2º parágrafo) = instaura sínteses e razões."
Erro: contradiz o texto. No 2º parágrafo, o autor distingue os caminhos: "no segundo, a fé propõe bases e dogmas para se crer que o sentido de tudo opera num plano divino". "Dogmas" são verdades de fé, inquestionáveis; "razões" são argumentos racionais. Trocar um pelo outro inverte a oposição que o texto estabelece entre fé e razão — a reescritura diz o contrário do que o autor afirma.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"tais caminhos não precisam ser antagônicos (3º parágrafo) = essas rotas não demandam acordos."
Erro: troca de termo. O texto afirma que os caminhos "não precisam ser antagônicos", ou seja, não precisam ser opostos, conflitantes. "Não demandam acordos" significa não exigem entendimento — ideia completamente diferente. A reescritura troca o sentido de "antagônicos" (oposição) por "acordos" (concordância), mudando a afirmação.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"por meio de instrumentos negativos (3º parágrafo) = apoiando-se em operações de recusa."
Correta. O trecho original: "a arte, tantas vezes, encontra um prazer maior em figurar o sentido por meio de instrumentos negativos, como a ironia, o humor, a reflexão desencantada". "Instrumentos negativos" são recursos que negam, recusam o sentido direto — a ironia diz o contrário, o humor desmonta, a reflexão desencantada desilude. "Apoiando-se em operações de recusa" preserva exatamente essa ideia: "apoiando-se" = "por meio de"; "operações de recusa" = "instrumentos negativos". É a única paráfrase fiel.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"mostrando sua falibilidade essencial (4º parágrafo) = contestando sua plena transitoriedade."
Erro: troca de conceito. O texto diz que Machado "relativiza os valores humanos, mostrando sua falibilidade essencial" — "falibilidade" = capacidade de errar, de falhar. "Transitoriedade" = caráter passageiro, efêmero. São conceitos distintos: um fala de erro, outro de tempo. A reescritura troca o conceito e ainda inverte a direção ("contestando" em vez de "mostrando").
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a troca de termo — oferece sinônimos aparentes que, no contexto, mudam o sentido ("cognoscível" por "hipotético", "dogmas" por "razões", "antagônicos" por "acordos", "falibilidade" por "transitoriedade"). A única que mantém o sentido é a que usa sinônimos reais no contexto.
PEGA ESSA DICA!
Ao reescrever, substitua o segmento no texto original e leia a frase completa. Se a troca introduzir uma ideia nova (hipótese, acordo, transitoriedade) ou inverter a direção (contestar em vez de mostrar), está errada. A paráfrase correta é a que não acrescenta nem suprime nada.
Conclusão: a questão testa a capacidade de reescrever sem alterar o sentido. A alternativa D é a única que preserva integralmente o significado de "instrumentos negativos" como "operações de recusa", enquanto as demais extrapolam, contradizem ou trocam conceitos. Gabarito: letra D.