Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc149813
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ PI
Ano
2025
Cargo
AFFE ( )

Só quem tem alma pode contar o tempo

 

Mais um ano está começando neste janeiro, e de novo a maior parte da humanidade vai ignorar aquela pequena parcela de realistas desencantados – também chamados de cínicos – que aponta a arbitrariedade dos inícios e dos fins numa linha do tempo em que todos os dias são iguais. Acontece que, nesse caso, a maioria tem razão. Quem diz que todos os dias são iguais não leva em conta a necessidade humana de contar histórias a fim de dar sentido à escala desmesurada e opressiva – numa palavra, inumana – do tempo cósmico.

 

Como observa o crítico Frank Kermode no livro “O Sentido de um Fim”, cabe às histórias que inventamos, com seus marcos temporais atravessados de cultura, dar sentido ao intervalo entre início e fim, transformando Chrónos, o tempo infinito e amorfo dos gregos, em Kairós, o momento cheio de significado.

 

A palavra “ano” descende do prefixo grego “amphi”, isto é, “em torno, à volta”. Isso faz do ano um parente distante de outros termos em que está presente a ideia de círculo, de algo que circunda, que envolve por todos os lados – como ambiente, anfiteatro e anel, entre outros. “Janeiro” deve seu nome ao deus romano Jano, entidade de duas caras, capaz de olhar ao mesmo tempo para o passado e para o futuro – ou para dentro e para fora, o que explica que a palavra “janela” seja outra de suas filhas.

 

Eis por que sabemos que tem raízes profundas em nossa alma, indo muito além de modismos midiáticos, o frenesi que nessa época nos leva a passar em revista o ano que se encerra, tentando apurar seu saldo de altos e baixos, ao mesmo tempo que fazemos listas de “resoluções” bem-intencionadas – que, na maior parte das vezes, já estarão desmoralizadas antes do Carnaval.

 

(Adaptado de: RODRIGUES, Sérgio. Folha de S.Paulo, 1º de janeiro de 2025)

Ao afirmar, no 1º parágrafo, que nesse caso, a maioria tem razão, o autor do texto está referendando

  1. Aa indiferença que os realistas desencantados demonstram nas datas de passagem de ano.
  2. Bo cinismo com que as pessoas se agarram hipocritamente à escala inumana do tempo.
  3. Co ponto de vista de quem aponta como arbitrários os inícios e os fins na sequência dos anos.
  4. Da razão de quem não leva em conta a necessidade de se dar sentido à passagem do tempo.
  5. Eo critério de quem estima as marcas finais e iniciais de um ano como datas expressivas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — o critério de quem estima as marcas finais e iniciais de um ano como datas expressivas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A expressão "nesse caso, a maioria tem razão" e o que o autor referenda

Gabarito: letra E. Ao afirmar que "nesse caso, a maioria tem razão", o autor está referendando o critério de quem estima as marcas finais e iniciais de um ano como datas expressivas — ou seja, a posição da maioria que celebra as passagens de ano como momentos significativos, e não a visão dos cínicos que as consideram arbitrárias. A passagem que ancora essa leitura está no 1º parágrafo:

"Acontece que, nesse caso, a maioria tem razão. Quem diz que todos os dias são iguais não leva em conta a necessidade humana de contar histórias a fim de dar sentido à escala desmesurada e opressiva – numa palavra, inumana – do tempo cósmico."

O autor concorda com a maioria porque ela reconhece a necessidade de dar sentido ao tempo, transformando dias comuns em marcos significativos (como o início e o fim de um ano). A alternativa E é a única que capta exatamente esse sentido: as datas de virada de ano são "expressivas" justamente porque a maioria as trata como marcos que dão sentido ao tempo.

O comando: o que a questão pede

O enunciado pergunta o que o autor está referendando ao afirmar que "nesse caso, a maioria tem razão". Referendar significa concordar, apoiar, dar razão a alguém. Portanto, precisamos identificar com quem o autor concorda e por quê. Isso é uma questão de compreensão (informação explícita no texto), não de inferência: a resposta está literalmente no 1º parágrafo, na frase que explica por que a maioria tem razão.

O texto: a tese e o movimento argumentativo

O texto defende que a necessidade humana de contar histórias dá sentido ao tempo cósmico, que é "desmesurado e opressivo". Os "realistas desencantados" (cínicos) apontam a arbitrariedade dos inícios e fins, mas o autor discorda deles: a maioria, que celebra as passagens de ano, está certa porque precisa de marcos temporais para dar sentido ao tempo. O 2º parágrafo reforça isso ao citar Kermode: as histórias transformam Chrónos (tempo infinito) em Kairós (momento cheio de significado). O 3º parágrafo mostra a etimologia de "ano" e "janeiro", ligando-os a ideias de círculo e de olhar para o passado e o futuro — exatamente o que fazemos na virada do ano. O 4º parágrafo conclui que esse frenesi de balanço e resoluções tem "raízes profundas em nossa alma".

A técnica: como identificar a alternativa correta

A chave está em não confundir a posição do autor com a posição dos cínicos. O autor não concorda com os que apontam a arbitrariedade das datas; ele concorda com a maioria, que dá sentido a essas datas. A alternativa E parafraseia essa ideia: "o critério de quem estima as marcas finais e iniciais de um ano como datas expressivas". "Estimar" aqui significa atribuir valor, considerar importante — exatamente o que a maioria faz ao celebrar a virada do ano. As demais alternativas ou invertem a posição do autor (C), ou atribuem a ele uma opinião que ele não tem (A, B, D).

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o autor referenda "a indiferença que os realistas desencantados demonstram nas datas de passagem de ano". Mas o autor não concorda com os realistas desencantados; ele diz que "a maioria tem razão", ou seja, a maioria não é indiferente — ela celebra. O texto afirma que os cínicos "apontam a arbitrariedade dos inícios e dos fins", mas o autor discorda deles. Portanto, a alternativa inverte a posição do autor.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto e acrescenta opinião. A alternativa fala em "cinismo com que as pessoas se agarram hipocritamente à escala inumana do tempo". O texto não diz que as pessoas são cínicas ou hipócritas; pelo contrário, diz que a maioria tem razão ao dar sentido ao tempo. O cinismo é atribuído aos "realistas desencantados", não à maioria. Além disso, a palavra "hipocritamente" é um juízo de valor que o autor não emite. A alternativa distorce completamente o texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o autor referenda "o ponto de vista de quem aponta como arbitrários os inícios e os fins na sequência dos anos". Mas esse é exatamente o ponto de vista dos cínicos, com quem o autor discorda. O autor diz que "a maioria tem razão" justamente porque a maioria não considera os inícios e fins arbitrários; ela os considera significativos. A alternativa C é a mais traiçoeira, pois inverte a posição do autor: ela atribui a ele a opinião dos que ele critica.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o autor referenda "a razão de quem não leva em conta a necessidade de se dar sentido à passagem do tempo". Mas o texto afirma exatamente o oposto: "Quem diz que todos os dias são iguais não leva em conta a necessidade humana de contar histórias a fim de dar sentido ao tempo". Ou seja, quem não leva em conta essa necessidade é justamente quem o autor critica (os cínicos). A alternativa D inverte o sentido: o autor concorda com quem leva em conta essa necessidade, não com quem a ignora.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa correta parafraseia fielmente o texto. O autor concorda com a maioria porque ela "estima" (valoriza) as marcas finais e iniciais de um ano como "datas expressivas" (significativas). Isso está explícito no 1º parágrafo:

"Acontece que, nesse caso, a maioria tem razão. Quem diz que todos os dias são iguais não leva em conta a necessidade humana de contar histórias a fim de dar sentido à escala desmesurada e opressiva – numa palavra, inumana – do tempo cósmico."

A maioria tem razão porque dá sentido ao tempo, e as datas de virada de ano são marcos expressivos desse sentido. O 4º parágrafo reforça: "sabemos que tem raízes profundas em nossa alma... o frenesi que nessa época nos leva a passar em revista o ano que se encerra". A alternativa E capta exatamente essa ideia.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre a posição do autor e a posição dos cínicos. A alternativa C parece correta porque repete as palavras "arbitrários" e "inícios e fins", mas inverte o sentido: o autor não concorda com os cínicos. Desconfie de alternativas que usam as mesmas palavras do texto mas invertem a relação de concordância.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de compreensão, identifique quem o autor apoia e quem ele critica. Grife os conectivos de oposição ("mas", "porém", "acontece que") — eles marcam a virada argumentativa. Aqui, "Acontece que" sinaliza que o autor vai discordar dos cínicos.

Conclusão: a resposta é a letra E, pois é a única que expressa a concordância do autor com a maioria, que valoriza as datas de virada de ano como marcos significativos. As demais ou invertem a posição do autor (C, D), ou atribuem a ele opiniões que ele não tem (A, B).

Gabarito: letra E

Link permanente: /questoes/fc149813