Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc149814
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ PI
Ano
2025
Cargo
AFFE ( )
Só quem tem alma pode contar o tempo
Mais um ano está começando neste janeiro, e de novo a maior parte da humanidade vai ignorar aquela pequena parcela de realistas desencantados – também chamados de cínicos – que aponta a arbitrariedade dos inícios e dos fins numa linha do tempo em que todos os dias são iguais. Acontece que, nesse caso, a maioria tem razão. Quem diz que todos os dias são iguais não leva em conta a necessidade humana de contar histórias a fim de dar sentido à escala desmesurada e opressiva – numa palavra, inumana – do tempo cósmico.
Como observa o crítico Frank Kermode no livro “O Sentido de um Fim”, cabe às histórias que inventamos, com seus marcos temporais atravessados de cultura, dar sentido ao intervalo entre início e fim, transformando Chrónos, o tempo infinito e amorfo dos gregos, em Kairós, o momento cheio de significado.
A palavra “ano” descende do prefixo grego “amphi”, isto é, “em torno, à volta”. Isso faz do ano um parente distante de outros termos em que está presente a ideia de círculo, de algo que circunda, que envolve por todos os lados – como ambiente, anfiteatro e anel, entre outros. “Janeiro” deve seu nome ao deus romano Jano, entidade de duas caras, capaz de olhar ao mesmo tempo para o passado e para o futuro – ou para dentro e para fora, o que explica que a palavra “janela” seja outra de suas filhas.
Eis por que sabemos que tem raízes profundas em nossa alma, indo muito além de modismos midiáticos, o frenesi que nessa época nos leva a passar em revista o ano que se encerra, tentando apurar seu saldo de altos e baixos, ao mesmo tempo que fazemos listas de “resoluções” bem-intencionadas – que, na maior parte das vezes, já estarão desmoralizadas antes do Carnaval.
(Adaptado de: RODRIGUES, Sérgio. Folha de S.Paulo, 1º de janeiro de 2025)
Nos 2º e 3º parágrafos, considera-se a etimologia ou origem histórica de algumas palavras relacionadas a passagens e marcas temporais. Depreende-se dessas considerações que
Ao sentido de “Jano” liga-se à veneração especial com que muitos encaram o fim de uma era.
Ba palavra “janela” é marcada como base de criação dos conceitos de “janeiro” e “Jano”.
Co sentido da passagem do tempo indiferenciada e sem marcas está contido no conceito de “Chrónos”.
Do sentido de tempo como “Kairós” é aquele referendado pelos realistas desencantados.
Ena relação entre as palavras “janeiro” e “janela” está presente o sentido de “tempo cósmico”.
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GabaritoC — o sentido da passagem do tempo indiferenciada e sem marcas está contido no conceito de “Chrónos”.
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Chrónos e Kairós: a etimologia como chave de leitura
Gabarito: letra C. A alternativa correta é a única que se ancora diretamente no texto: o 2º parágrafo define Chrónos como "o tempo infinito e amorfo dos gregos", ou seja, exatamente o tempo indiferenciado e sem marcas. As demais alternativas ou invertem relações de causa e efeito, ou atribuem ao texto ideias que ele não sustenta — clássico caso de extrapolação.
O comando: "depreende-se" pede inferência com pista
O verbo "depreende-se" no enunciado sinaliza que a resposta não está literalmente escrita, mas é uma conclusão ancorada em pistas do texto. Isso não autoriza inventar: a inferência só é legítima se o texto obriga àquela conclusão. Aqui, a pista é a definição explícita de Chrónos no 2º parágrafo — a alternativa C apenas parafraseia essa definição, trocando "infinito e amorfo" por "indiferenciada e sem marcas". É uma inferência de reescritura, não de acréscimo.
O texto: a oposição Chrónos × Kairós
O texto constrói uma oposição central: de um lado, Chrónos, o tempo cósmico, infinito, amorfo, opressivo e "inumano"; de outro, Kairós, o momento cheio de significado, criado pelas histórias que inventamos. O 2º parágrafo é a âncora:
"cabe às histórias que inventamos, com seus marcos temporais atravessados de cultura, dar sentido ao intervalo entre início e fim, transformando Chrónos, o tempo infinito e amorfo dos gregos, em Kairós, o momento cheio de significado."
A alternativa C apenas traduz "infinito e amorfo" como "indiferenciada e sem marcas" — paráfrase fiel, sem acréscimo. As demais ou invertem a hierarquia etimológica (B), ou atribuem valores que o texto não menciona (A, D, E).
A técnica: teste cada alternativa perguntando "o texto autoriza isto?"
A armadilha central desta questão é a extrapolação com aparência de fidelidade: alternativas que usam palavras do texto (Jano, janela, Kairós, realistas) mas acrescentam relações que o autor não estabeleceu. O método é confrontar cada uma com o trecho exato que supostamente a sustenta — se a passagem não diz aquilo, a alternativa está errada, ainda que soe plausível.
Tempo na etimologia: Chrónos (tempo infinito e amorfo, indiferenciado, sem marcas); Kairós (momento cheio de significado, criado pelas histórias); Jano (deus de duas caras, olha passado e futuro, origem de "janeiro" e "janela")
Alternativa A — ❌ Incorreta
"'Janeiro' deve seu nome ao deus romano Jano, entidade de duas caras, capaz de olhar ao mesmo tempo para o passado e para o futuro"
O texto diz que Jano olha para o passado e o futuro — nada menciona sobre "veneração especial" ou "fim de uma era". A alternativa extrapola: acrescenta um juízo de valor (veneração) e uma relação (fim de era) que não estão no texto. O erro é do tipo fora_do_escopo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"'Janeiro' deve seu nome ao deus romano Jano... o que explica que a palavra 'janela' seja outra de suas filhas."
O texto estabelece a relação inversa: Jano é a base, e janeiro e janela são derivados ("filhas"). A alternativa B inverte a hierarquia, dizendo que "janela" é base de "janeiro" e "Jano" — contradiz o texto ao trocar a direção da derivação etimológica. Erro do tipo contradiz_texto.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"transformando Chrónos, o tempo infinito e amorfo dos gregos, em Kairós"
A definição de Chrónos como "infinito e amorfo" é exatamente o que a alternativa parafraseia como "indiferenciada e sem marcas". Não há acréscimo: a passagem autoriza plenamente a conclusão. É a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"a maior parte da humanidade vai ignorar aquela pequena parcela de realistas desencantados – também chamados de cínicos"
O texto apresenta os realistas desencantados como aqueles que "apontam a arbitrariedade dos inícios e dos fins" — ou seja, questionam as marcas temporais. Atribuir a eles a valorização de Kairós (o momento cheio de significado) é o oposto do que o texto sugere: eles desprezam os marcos. A alternativa contradiz o texto ao inverter a posição dos realistas. Erro do tipo contradiz_texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"'Janeiro' deve seu nome ao deus romano Jano... o que explica que a palavra 'janela' seja outra de suas filhas."
O texto relaciona "janeiro" e "janela" pela origem comum em Jano, que olha para o passado e o futuro — não há menção a "tempo cósmico" nessa relação. O tempo cósmico é associado a Chrónos, não a Jano. A alternativa tangencia o tema: usa palavras do texto, mas estabelece uma conexão que ele não faz. Erro do tipo fora_do_escopo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação com aparência de fidelidade — alternativas que usam termos do texto (Jano, janela, Kairós) mas acrescentam relações que o autor não estabeleceu. A correta é a única que se limita a parafrasear uma definição explícita.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de "depreende-se", grife no texto a passagem que cada alternativa supostamente parafraseia. Se a passagem não diz exatamente aquilo, a alternativa está errada — mesmo que soe verdadeira.
Gabarito: letra C. A regra de ouro: a resposta mora no texto — nem mais, nem menos do que ele diz. Chrónos é definido como tempo infinito e amorfo; qualquer alternativa que acrescente valor, inverta hierarquia ou crie relação inexistente cai por terra.