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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc149822
Banca
FCC
Órgão
CGE PI
Ano
2025
Cargo
Aud Gov ( )

A arte de um sorriso inesquecível

 

Há criaturas que não precisam fazer nada para serem pungentes. Irradiam com naturalidade a força de um acolhimento tão fácil como precioso, envolvem-nos numa aura de aceitação generosa. Despertam na gente uma comoção discreta e inexplicável, não se sabe se pelo modo de olhar, de falar, ou pelo simples magnetismo da presença.

 

Com elas, nosso dia pode imediatamente ficar melhor e mais auspicioso. São bem raras, que pena. Bastaria que esbarrássemos com mais frequência numa delas para que a vida ficasse bem melhor. Constituem um antídoto certo para o azedume, o rancor, o ressentimento que nos ameaçam a toda hora.

 

A esse respeito, lembro a personagem central do filme “Noites de Cabíria”, de Federico Fellini. Interpretada pela atriz italiana Giulietta Masina, Cabíria é o nome de uma pobre, doce e ingênua prostituta, que vive na periferia de Roma. Na cena final do filme, depois de espoliada, humilhada e abandonada por um homem que a enganou com promessas caseiras, a mulher caminha de volta para casa, derrotada, atravessando um bosque. Nele vê-se de repente ao lado de um grupo de adolescentes, que cantam e dançam com grande animação e sensualidade, quais jovens faunos e ninfas representados numa clareira mítica, numa tela clássica.

 

Aos poucos, a funda melancolia do rosto de Cabíria deixa-se atravessar e vencer pela força crescente de um sorriso resignado, expressão maior da poesia e da afirmação da vida que resiste dentro dela. Por fim, irradiada pelo olhar indescritivelmente expressivo de Giulietta Masina, a imagem daquela mulher que não desiste da magia da vida parece saltar da tela e imprimir-se no fundo de nós. A grande arte vive desses sortilégios.

 

(CASTRO, Domenico de. A editar)

No filme de Fellini, a pungência marcante da figura de Cabíria deve-se, sobretudo,
  1. Aà ingenuidade inconsequente da personagem, inteiramente devastada pela falta de escrúpulo de um seu sedutor.
  2. Bà comiseração que se instala dentro de nós, diante do destino implacável que arruína de vez as personagens mais vulneráveis.
  3. Cà intensidade emocional de quem busca sobrepor sua poesia íntima a uma experiência brutal da realidade em que vive.
  4. Dao caráter submisso e indefeso da mulher que, julgando-se sedutora, é ludibriada pelas promessas de um farsante.
  5. Eao conformismo de quem vive na marginalidade social e amarga a impossibilidade de qualquer reação.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — à intensidade emocional de quem busca sobrepor sua poesia íntima a uma experiência brutal da realidade em que vive.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A pungência de Cabíria: poesia íntima contra a brutalidade da realidade

Gabarito: letra C. A pungência marcante da figura de Cabíria deve-se, sobretudo, à intensidade emocional de quem busca sobrepor sua poesia íntima a uma experiência brutal da realidade em que vive. O texto sustenta essa leitura no trecho em que descreve a cena final do filme: "Aos poucos, a funda melancolia do rosto de Cabíria deixa-se atravessar e vencer pela força crescente de um sorriso resignado, expressão maior da poesia e da afirmação da vida que resiste dentro dela." A alternativa C é a única que capta exatamente esse movimento: a poesia íntima (o sorriso resignado, a afirmação da vida) sobrepondo-se à experiência brutal (a melancolia, a derrota, a espoliação).

O comando da questão pede uma interpretação — "a pungência marcante deve-se, sobretudo, a" —, ou seja, exige que se identifique a causa principal da comoção que a personagem provoca. Não basta localizar uma informação literal; é preciso compreender o efeito que o autor descreve e a razão que ele aponta para esse efeito. A banca quer que o candidato perceba o núcleo emocional da cena: não é a ingenuidade, nem a comiseração do espectador, nem a submissão, nem o conformismo — é a resistência poética da personagem diante da adversidade.

O texto constrói essa ideia em dois movimentos. Primeiro, descreve a situação brutal: Cabíria foi "espoliada, humilhada e abandonada por um homem que a enganou com promessas caseiras". Depois, mostra a reação dela: a melancolia é "atravessada e vencida" por um "sorriso resignado", que é a "expressão maior da poesia e da afirmação da vida que resiste dentro dela". O autor ainda reforça: "a imagem daquela mulher que não desiste da magia da vida parece saltar da tela e imprimir-se no fundo de nós". É exatamente essa superação poética que gera a pungência — a comoção nasce da tensão entre a dor e a beleza que resiste.

A técnica decisiva aqui é não confundir causa com efeito. As alternativas erradas descrevem aspectos que rodeiam a cena (a ingenuidade, a comiseração, a submissão, o conformismo), mas nenhuma delas aponta para o motor da pungência: a força interior que transforma a dor em poesia. A alternativa C é a única que nomeia esse motor. Para acertar, o candidato deve perguntar: "o que o texto diz que causa a comoção?" — e a resposta está na passagem do sorriso resignado.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece distratores que descrevem fatos verdadeiros sobre a personagem (ela é ingênua, é humilhada, é submissa), mas que não explicam a pungência. A armadilha é trocar a causa (a resistência poética) por circunstâncias (a ingenuidade, a comiseração, o conformismo).

PEGA ESSA DICA!

Ao ler o comando, grife a palavra "deve-se" — ela pede a causa. Depois, procure no texto a passagem que explica o efeito. Se a alternativa descreve um fato, mas não a razão do efeito, ela está errada.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a pungência se deve à "ingenuidade inconsequente" da personagem. O texto, porém, não diz que Cabíria é inconsequente — ela é descrita como "pobre, doce e ingênua", mas a ingenuidade é apenas uma característica, não a causa da comoção. Além disso, a expressão "inteiramente devastada" contradiz o texto, que mostra Cabíria resistindo e sendo vencida pela melancolia, mas não devastada — ela "não desiste da magia da vida". A alternativa extrapola ao atribuir à ingenuidade um papel causal que o texto não lhe dá.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "comiseração que se instala dentro de nós" e em "destino implacável que arruína de vez as personagens mais vulneráveis". O texto, de fato, descreve a situação de Cabíria como brutal, mas não diz que o destino a arruína de vez — pelo contrário, ela "não desiste da magia da vida". Além disso, a comiseração (pena) não é o sentimento que o autor descreve como central; ele fala em comoção diante da resistência poética, não em pena. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que a personagem é "arruinada de vez", quando o texto mostra a afirmação da vida.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa C é a única que identifica a causa da pungência: a "intensidade emocional de quem busca sobrepor sua poesia íntima a uma experiência brutal da realidade". Isso está literalmente no texto: "a funda melancolia do rosto de Cabíria deixa-se atravessar e vencer pela força crescente de um sorriso resignado, expressão maior da poesia e da afirmação da vida que resiste dentro dela". A poesia íntima (o sorriso, a afirmação da vida) sobrepõe-se à experiência brutal (a melancolia, a derrota). É essa tensão que gera a comoção — e é exatamente o que a alternativa C descreve.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "caráter submisso e indefeso" e em "julgando-se sedutora". O texto não diz que Cabíria se julga sedutora — ela é "pobre, doce e ingênua", mas não há menção a uma autopercepção de sedução. Além disso, "submissa" e "indefesa" são interpretações que o texto não sustenta: Cabíria é enganada, mas não é descrita como submissa — ela reage com um sorriso resignado, que é uma forma de resistência. A alternativa extrapola ao acrescentar características que não estão no texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "conformismo de quem vive na marginalidade social" e em "impossibilidade de qualquer reação". O texto não diz que Cabíria é conformista — o sorriso resignado não é conformismo, é afirmação da vida. Além disso, "impossibilidade de qualquer reação" contradiz o texto, que mostra a reação de Cabíria: o sorriso que "vence" a melancolia. A alternativa contradiz o texto ao negar a reação que o autor descreve com tanta ênfase.

Conclusão: a questão pede a causa da pungência, e o texto a localiza na resistência poética de Cabíria. As alternativas A, B, D e E descrevem circunstâncias ou interpretações que não explicam o efeito — ou até o contradizem. A única que nomeia o motor da comoção é a letra C. Gabarito: letra C.

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