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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc149826
Banca
FCC
Órgão
CGE PI
Ano
2025
Cargo
Aud Gov ( )

Discurso de paraninfo (excerto)

 

Nas faculdades jovens, como a nossa, as distâncias entre professores e alunos são, felizmente, pequenas, porque todos têm o sentimento vivo de participar, lado a lado, na construção de alguma coisa que não adquiriu contornos definitivos: a tradição ainda não ergueu, em nossa casa, as barreiras segregadoras do status, as pequenas querelas de precedência e as grandes vaidades acadêmicas.

 

No conjunto das vocações universitárias, pertence-vos a do magistério secundário. Ora, se normalmente a função de ensinar é penosa e cheia de responsabilidade, é que não será em nosso tempo, quando os velhos ideais pedagógicos não mais funcionam. O comportamento humano está sempre em defasagem com os padrões ideais.

 

Um problema que logo se apresenta é a maneira por que devemos proceder a fim de transformar em valor humano o que nos foi ensinado e o que ensinamos. Meus caros colegas, convém lembrar que a palavra pedante significa etimologicamente professor, aquele que ensina. Deve ter havido, portanto, alguma transformação no ofício — tão nobre em si — para que todos nós, professores, chegássemos a repelir violentamente essa palavra quando alguém se lembra de nos caracterizar por meio dela.

 

Pedante mudou-se de substantivo em adjetivo graças à anomalia de atribuir ao estudo e à palavra uma finalidade em si mesmo. No tempo de Montaigne — que tem sobre a matéria um ensaio admirável — o pedantismo consistia em valorizar demasiadamente o exercício da inteligência, em detrimento da arte de viver. Hoje, pedantismo é a afetação desnecessária da palavra e da ideia. De qualquer maneira, sempre que a vossa atividade intelectual estiver ancorada apenas nos vossos livros e, sobretudo, na rotina da vida universitária, estareis em perigo de cair num desses tipos de pedantismo.

 

Neste tempo de dispersão, vulgarização e pressa, procuremos forjar em nós e nos nossos discípulos a concentração do espírito, a preservação dos valores pessoais e a longa, frutuosa paciência. “A paciência é a mais heroica das virtudes” — escreveu Leopardi — “precisamente porque não tem aparência alguma de heroísmo.”

 

(Adaptado de: CANDIDO, Antonio. Textos de intervenção. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2002, p. 311-313, passim)

Em seu discurso aos formandos, o paraninfo considera que o desafio de um professor, em tempos difíceis, está em

  1. Aestabelecer uma conexão entre ensinamentos assimilados como valores e a arte de seu exercício efetivo na prática do viver.
  2. Bcorresponder aos mais altos padrões de ideais pedagógicos, já consagrados na esteira das tradições e das responsabilidades do magistério.
  3. Cexercer a virtude da paciência diante dos deveres intelectuais de quem se norteará integralmente pela disciplina acadêmica.
  4. Dcultivar as qualidades de uma profissão que vale por si mesma, para além da funcionalidade eventualmente requisitada na rotina humana.
  5. Ehonrar as qualidades da carreira do magistério secundário que fazem dela um tributo respeitoso à hierarquia dos seus diversos planos do saber.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — estabelecer uma conexão entre ensinamentos assimilados como valores e a arte de seu exercício efetivo na prática do viver.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O desafio do professor: transformar saber em vida

Gabarito: letra A. O desafio central que o paraninfo aponta é estabelecer uma conexão entre os ensinamentos assimilados como valores e a arte de seu exercício efetivo na prática do viver — exatamente o que o texto formula como "transformar em valor humano o que nos foi ensinado e o que ensinamos". As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou restringem seu alcance, ou contradizem o que o autor afirma.

O comando pede interpretação: o enunciado usa "considera que o desafio... está em", ou seja, quer que você depreenda a tese central do discurso, não que localize uma frase solta. Isso muda tudo: a resposta não está literalmente escrita em uma única linha, mas é a síntese do que o autor defende ao longo do texto. Para resolvê-la, você precisa identificar o tema (o que o texto discute), a tese (o que o autor pensa sobre o tema) e os argumentos (por que ele pensa assim).

O texto é um discurso de paraninfo — um gênero em que o orador aconselha e orienta os formandos. O autor começa elogiando a proximidade entre professores e alunos, depois alerta para a defasagem entre "padrões ideais" e o "comportamento humano", e então chega ao ponto central: o problema de como transformar em valor humano o que foi ensinado. Esse é o núcleo da questão. O autor desenvolve essa ideia ao discutir o pedantismo — o perigo de dar ao estudo e à palavra "uma finalidade em si mesmo" — e conclui com o conselho de cultivar "a concentração do espírito, a preservação dos valores pessoais e a longa, frutuosa paciência".

A técnica que decide esta questão é a paráfrase fiel: a alternativa correta reescreve, com outras palavras, a ideia central do texto, sem acrescentar nada que não esteja lá. A letra A faz exatamente isso: "conexão entre ensinamentos assimilados como valores" = "transformar em valor humano o que nos foi ensinado"; "arte de seu exercício efetivo na prática do viver" = "a arte de viver" (mencionada no texto) e a ideia de aplicar o saber na vida. As distratoras, por sua vez, cometem erros típicos: extrapolam (acrescentam ideias que o texto não sustenta), restringem (limitam o alcance do que o autor diz) ou contradizem (invertem o sentido).

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora oferecer alternativas que parecem "bonitas" e plausíveis, mas que extrapolam o texto — acrescentam um detalhe que o autor não disse. A letra B, por exemplo, fala em "padrões consagrados", mas o texto diz que os "velhos ideais pedagógicos não mais funcionam". Desconfie de qualquer alternativa que traga uma ideia nova que você não consegue apontar no texto.

1Conectar saber e vida
Transformar ensinamento em valor humano
Aplicar na prática do viver
2Pedantismo (perigo)
Estudo como fim em si mesmo
Vida acadêmica rotineira
3Meios
Concentração do espírito
Preservação dos valores pessoais
Longa paciência
Desafio do professor
LEVELsoulevel.com.br
Desafio do professor: Conectar saber e vida (Transformar ensinamento em valor humano, Aplicar na prática do viver); Pedantismo (perigo) (Estudo como fim em si mesmo, Vida acadêmica rotineira); Meios (Concentração do espírito, Preservação dos valores pessoais, Longa paciência)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A letra A é a única inteiramente sustentada pelo texto. O autor afirma, no terceiro parágrafo:

"Um problema que logo se apresenta é a maneira por que devemos proceder a fim de transformar em valor humano o que nos foi ensinado e o que ensinamos."

Essa passagem é a chave. "Transformar em valor humano" = estabelecer uma conexão entre os ensinamentos assimilados como valores (o que foi ensinado) e a arte de seu exercício efetivo na prática do viver (aplicar isso na vida real). A alternativa é uma paráfrase — reescreve a ideia com outras palavras, sem acrescentar nada. O texto ainda reforça isso ao falar do pedantismo como o perigo de dar ao estudo "uma finalidade em si mesmo", ou seja, o oposto de conectar o saber à vida.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o desafio é "corresponder aos mais altos padrões de ideais pedagógicos, já consagrados na esteira das tradições". Mas o texto afirma o contrário:

"os velhos ideais pedagógicos não mais funcionam"

O autor não defende a obediência a padrões consagrados; ele critica justamente a defasagem entre os ideais e o comportamento humano. A alternativa inverte o sentido do texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: restringe o alcance. A alternativa fala em "exercer a virtude da paciência diante dos deveres intelectuais de quem se norteará integralmente pela disciplina acadêmica". O texto menciona a paciência, sim, mas como parte de um conjunto mais amplo:

"procuremos forjar em nós e nos nossos discípulos a concentração do espírito, a preservação dos valores pessoais e a longa, frutuosa paciência"

Além disso, o texto critica a vida acadêmica rotineira como fonte de pedantismo — "sempre que a vossa atividade intelectual estiver ancorada apenas nos vossos livros e, sobretudo, na rotina da vida universitária, estareis em perigo de cair num desses tipos de pedantismo". A alternativa restringe o desafio a um único aspecto (paciência) e ainda o liga à "disciplina acadêmica", que o texto vê com ressalvas.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que o desafio é "cultivar as qualidades de uma profissão que vale por si mesma, para além da funcionalidade eventualmente requisitada na rotina humana". O texto, porém, critica exatamente essa visão — o pedantismo é definido como "a anomalia de atribuir ao estudo e à palavra uma finalidade em si mesmo". O autor defende o oposto: o saber deve ser transformado em valor humano, ou seja, deve ter aplicação na vida. A alternativa inverte a tese.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapola. A alternativa fala em "honrar as qualidades da carreira do magistério secundário que fazem dela um tributo respeitoso à hierarquia dos seus diversos planos do saber". O texto menciona o magistério secundário, mas não fala em "tributo respeitoso à hierarquia" nem em "planos do saber". Essa ideia é inventada — não há nenhuma passagem que a sustente. É uma extrapolação clássica: usa uma palavra do texto ("magistério secundário") para dar aparência de fidelidade, mas acrescenta um conteúdo que o autor não disse.

PEGA ESSA DICA!

Para questões de interpretação, teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora? Se a alternativa traz uma ideia que você não consegue apontar em nenhuma passagem, ela está errada — ainda que soe bonita ou verdadeira.

Gabarito: letra A.

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