Questão de Português — Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa) — FCC 2025
Português›Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa)
Código
fc149830
Banca
FCC
Órgão
CGE PI
Ano
2025
Cargo
Aud Gov ( )
Discurso de paraninfo (excerto)
Nas faculdades jovens, como a nossa, as distâncias entre professores e alunos são, felizmente, pequenas, porque todos têm o sentimento vivo de participar, lado a lado, na construção de alguma coisa que não adquiriu contornos definitivos: a tradição ainda não ergueu, em nossa casa, as barreiras segregadoras do status, as pequenas querelas de precedência e as grandes vaidades acadêmicas.
No conjunto das vocações universitárias, pertence-vos a do magistério secundário. Ora, se normalmente a função de ensinar é penosa e cheia de responsabilidade, é que não será em nosso tempo, quando os velhos ideais pedagógicos não mais funcionam. O comportamento humano está sempre em defasagem com os padrões ideais.
Um problema que logo se apresenta é a maneira por que devemos proceder a fim de transformar em valor humano o que nos foi ensinado e o que ensinamos. Meus caros colegas, convém lembrar que a palavra pedante significa etimologicamente professor, aquele que ensina. Deve ter havido, portanto, alguma transformação no ofício — tão nobre em si — para que todos nós, professores, chegássemos a repelir violentamente essa palavra quando alguém se lembra de nos caracterizar por meio dela.
Pedante mudou-se de substantivo em adjetivo graças à anomalia de atribuir ao estudo e à palavra uma finalidade em si mesmo. No tempo de Montaigne — que tem sobre a matéria um ensaio admirável — o pedantismo consistia em valorizar demasiadamente o exercício da inteligência, em detrimento da arte de viver. Hoje, pedantismo é a afetação desnecessária da palavra e da ideia. De qualquer maneira, sempre que a vossa atividade intelectual estiver ancorada apenas nos vossos livros e, sobretudo, na rotina da vida universitária, estareis em perigo de cair num desses tipos de pedantismo.
Neste tempo de dispersão, vulgarização e pressa, procuremos forjar em nós e nos nossos discípulos a concentração do espírito, a preservação dos valores pessoais e a longa, frutuosa paciência. “A paciência é a mais heroica das virtudes” — escreveu Leopardi — “precisamente porque não tem aparência alguma de heroísmo.”
(Adaptado de: CANDIDO, Antonio. Textos de intervenção. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2002, p. 311-313, passim)
Um segmento do texto foi transposto da voz ativa para a passiva em:
AAs distâncias entre professores e alunos têm sido, felizmente, pequenas (1º parágrafo).
BA vocação do magistério secundário tem pertencido a vós (2º parágrafo).
CAlguma coisa que contornos definitivos não vieram a adquirir (1º parágrafo).
DBarreiras segregadoras do statusainda não foram erguidas (1º parágrafo).
EEssa palavra teria chegado a nos repelir violentamente (3º parágrafo).
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GabaritoD — Barreiras segregadoras do status ainda não foram erguidas (1º parágrafo).
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Transposição de voz ativa para passiva no discurso de paraninfo
Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que apresenta uma estrutura genuinamente passiva, formada por verbo ser + particípio ("foram erguidas"), correspondente à transposição da voz ativa "a tradição ainda não ergueu as barreiras" para a passiva "barreiras segregadoras do status ainda não foram erguidas". No texto, o trecho original está em voz ativa: "a tradição ainda não ergueu, em nossa casa, as barreiras segregadoras do status"; a passiva correspondente é exatamente "barreiras segregadoras do status ainda não foram erguidas". As demais alternativas ou mantêm a voz ativa, ou usam particípio sem valor passivo, ou alteram o sentido.
O comando e a técnica
O enunciado pede que se identifique o segmento que foi transposto da voz ativa para a passiva. Isso significa que, entre as opções, deve haver uma reescritura que converteu uma oração ativa do texto em passiva analítica (verbo ser/estar + particípio), mantendo o sentido original. A técnica central é: na voz ativa, o sujeito pratica a ação e há um objeto direto; na passiva, esse objeto direto vira sujeito paciente e o sujeito da ativa vira agente da passiva (se expresso). Portanto, para resolver, é preciso localizar no texto a oração ativa que possui objeto direto e verificar se a alternativa a converteu corretamente.
O texto e a passagem decisiva
No 1º parágrafo, o autor afirma:
"a tradição ainda não ergueu, em nossa casa, as barreiras segregadoras do status, as pequenas querelas de precedência e as grandes vaidades acadêmicas"
Aqui, "a tradição" é o sujeito que pratica a ação de "erguer"; "as barreiras segregadoras do status" é o objeto direto. Na transposição para a voz passiva, o objeto direto vira sujeito paciente e o verbo assume a forma "ser + particípio": "as barreiras segregadoras do status ainda não foram erguidas". É exatamente o que a alternativa D apresenta. As demais alternativas não fazem essa conversão corretamente, como veremos a seguir.
Análise das alternativas
Voz passiva analítica: Estrutura (Verbo ser/estar + particípio, Objeto direto vira sujeito paciente, Sujeito da ativa vira agente da passiva); Requisito (Verbo transitivo direto); Não admitem passiva (Transitivo indireto (pertencer), Intransitivo, Verbo de ligação)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A diz: "As distâncias entre professores e alunos têm sido, felizmente, pequenas". No texto, o trecho original é: "as distâncias entre professores e alunos são, felizmente, pequenas". A reescritura troca o presente "são" pelo pretérito perfeito composto "têm sido", mas não há transposição de voz: o verbo "ser" é de ligação, não transitivo direto, e não há objeto direto que possa virar sujeito paciente. A frase permanece na voz ativa (ou, mais precisamente, predicativa). O erro é não converter a voz — apenas altera o tempo verbal.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B diz: "A vocação do magistério secundário tem pertencido a vós". No texto, o trecho é: "pertence-vos a do magistério secundário". O verbo "pertencer" é transitivo indireto (quem pertence, pertence a alguém), e verbos transitivos indiretos não admitem voz passiva — não há objeto direto para virar sujeito paciente. A reescritura apenas muda o tempo verbal (presente "pertence" para pretérito perfeito composto "tem pertencido"), mantendo a voz ativa. O erro é tentar passar para a passiva um verbo que não admite.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C diz: "Alguma coisa que contornos definitivos não vieram a adquirir". No texto, o trecho é: "alguma coisa que não adquiriu contornos definitivos". A reescritura inverte a estrutura sintática e altera o sentido: no original, "alguma coisa" é o sujeito que não adquiriu "contornos definitivos" (objeto direto); na reescritura, "contornos definitivos" aparece como sujeito de "vieram a adquirir", o que muda completamente a relação semântica. Além disso, não há forma passiva (ser + particípio). O erro é alterar o sentido e a estrutura — não é uma transposição de voz, mas uma reescritura incorreta.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa D diz: "Barreiras segregadoras do status ainda não foram erguidas". No texto, o trecho é: "a tradição ainda não ergueu, em nossa casa, as barreiras segregadoras do status". A transposição é perfeita:
Voz ativa: "a tradição" (sujeito) + "ergueu" (verbo transitivo direto) + "as barreiras" (objeto direto).
Voz passiva: "as barreiras" (sujeito paciente) + "foram erguidas" (ser + particípio) + "pela tradição" (agente da passiva, omitido).
A alternativa mantém o sentido original e usa corretamente a estrutura passiva analítica. É a única que faz a conversão de voz de forma adequada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E diz: "Essa palavra teria chegado a nos repelir violentamente". No texto, o trecho é: "chegássemos a repelir violentamente essa palavra". A reescritura inverte os papéis sintáticos: no original, "nós" (sujeito) repelimos "essa palavra" (objeto direto); na reescritura, "essa palavra" vira sujeito de "teria chegado a nos repelir", o que muda o sentido — agora a palavra é que repele, não nós. Além disso, não há forma passiva (ser + particípio). O erro é alterar o sentido e a estrutura — não é uma transposição de voz, mas uma inversão semântica.
Conclusão
A única alternativa que apresenta uma transposição correta da voz ativa para a passiva é a letra D, pois converte o objeto direto "as barreiras" em sujeito paciente e usa a estrutura "ser + particípio" ("foram erguidas"), mantendo o sentido original. As demais ou não convertem a voz, ou usam verbos que não admitem passiva, ou alteram o sentido.
PEGA ESSA DICA!
Para resolver questões de transposição de voz, identifique primeiro o objeto direto na voz ativa — ele será o sujeito paciente na passiva. Se o verbo for transitivo indireto, intransitivo ou de ligação, não há voz passiva possível.