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Questão de Português — Outras Questões de Semântica — FCC 2025

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
fc149868
Banca
FCC
Órgão
UNASP
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )

Quando queriam dar uma ideia de erudição do dr. Solis, as pessoas diziam:


– Basta dizer que ele fala naiki.


Ninguém sabia onde, no mundo, se falava naiki e o próprio dr. Solis, sempre muito circunspecto1, não ajudava. Dizia apenas:


– É uma língua do grupo dravídico...


Os pais apontavam o dr. Solis às crianças como exemplo de inteligência e cultura. Aliás, os dois exemplos da cidade eram o dr. Solis e o Lelo. O dr. Solis era o exemplo de inteligência e o Lelo, o exemplo de burrice. As crianças deviam estudar para não ser como o lelo. E se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis.


Caravanas de estudantes iam à casa do dr. Solis. “Viemos beber da sua cultura”, dizia a professora. E as crianças, um pouco assustadas, rodeavam o dr. Solis na sua biblioteca. O dr. Solis sorria, pacientemente. Alguma pergunta?


– O senhor já leu todos esses livros?


– Já.


Às vezes uma se arriscava e pedia:


– Diz alguma coisa em naiki.


E o dr. Solis:


– Za cadu arrarmarral cadverno.


– Traduz.


Mas aquilo já era pedir demais. A professora arrebanhava as crianças para irem embora. Estavam cansando a inteligência do dr. Solis.

 

Alguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante. E prepararam uma armadilha. Um dia chegaram na casa do dr. Solis com a notícia de que aparecera na cidade, imagine, outra pessoa que falava naiki. O dr. Solis não se afobou. Perguntou onde estava essa pessoa. No hotel? Muito bem. Então precisava ir até lá conversar com ela.


A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido. O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki. Quando o dr. Solis chegou no hotel havia um bom público para assistir ao encontro das duas inteligências. O forasteiro, outro farsante, contratado para pôr o dr. Solis à prova, já o recebeu com uma frase:


– Bassau rarim ai montul?


O dr. Solis franziu a testa e ficou olhando para o forasteiro, sem dizer nada. Depois disse:


– Como?


Já com um ar superior, o outro repetiu:


– Bassau rarim ai montul?


Suspense na plateia. O dr. Solis seria desmascarado? Será que os céticos tinham razão? Que todo este tempo o dr. Solis mentia para eles e realmente não sabia uma palavra em naiki? Nem "bom dia"?


– Repita, por favor – pediu o dr. Solis.


– Bassau rarim ai montul?


Aí o dr. Solis sacudiu a cabeça lentamente e, com um sorriso de divertida condescendência para seu interlocutor, comentou:


– Esses dialetos...


Foi carregado em triunfo pelas ruas da cidade. Que cabeça! Na frente do cortejo ia o Lelo, gritando:


– É um potentado2. É um potentado!

 

(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. Novas comédias da vida privada.

Porto Alegre: L&PM, 1996, p. 125-126)

 

1 circunspecto: reservado.


2 potentado: indivíduo poderoso.

Para responder à questão, considere a crônica "O homem que falava naiki" do escritor Luis Fernando Veríssimo (1936-2025).

   

As crianças deviam estudar para não ser como o Lelo.

 

Em relação ao trecho que a antecede, a oração sublinhada expressa ideia de:

  1. Aproporção.
  2. Bcomparação.
  3. Cfinalidade.
  4. Dcausa.
  5. Econdição.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — finalidade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A oração final em "As crianças deviam estudar para não ser como o Lelo"

Gabarito: letra C. A oração sublinhada "para não ser como o Lelo" expressa finalidade, pois indica o objetivo da ação de estudar. A conjunção "para" é o conectivo clássico de finalidade, e o trecho anterior do texto confirma essa leitura: "Os pais apontavam o dr. Solis às crianças como exemplo de inteligência e cultura... As crianças deviam estudar para não ser como o Lelo. E se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis." — ou seja, o estudo tem a finalidade de afastar a burrice (representada por Lelo) e, idealmente, aproximar da inteligência (representada por dr. Solis).

O comando da questão

O enunciado pede que se identifique a relação de sentido que a oração sublinhada estabelece com a oração anterior. Isso é uma questão de semântica dos conectivos e de classificação das orações subordinadas adverbiais. Não se trata de interpretar o texto em si, mas de reconhecer o valor lógico do conectivo "para" no contexto em que aparece. A banca quer que o candidato distinga finalidade de outras relações como causa, condição, proporção e comparação.

O texto e a pista decisiva

No trecho, o narrador explica o papel social do dr. Solis e do Lelo como exemplos para as crianças:

"Os pais apontavam o dr. Solis às crianças como exemplo de inteligência e cultura. Aliás, os dois exemplos da cidade eram o dr. Solis e o Lelo. O dr. Solis era o exemplo de inteligência e o Lelo, o exemplo de burrice. As crianças deviam estudar para não ser como o lelo. E se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis."

A oração "para não ser como o Lelo" responde à pergunta: para quê as crianças deviam estudar? A resposta é: para não serem burras como o Lelo. Esse é exatamente o valor de finalidade — a oração indica o propósito, o objetivo, a intenção da ação expressa pelo verbo principal ("deviam estudar").

A técnica que decide

A conjunção "para" (ou a locução "para que") é o conectivo final por excelência. Para confirmar, basta substituí-la por um equivalente final: "As crianças deviam estudar a fim de não ser como o Lelo" ou "...estudar com o objetivo de não ser como o Lelo". A substituição preserva o sentido, o que prova que a relação é de finalidade.

A pegadinha da banca está em confundir finalidade com causa. A causa responde a "por quê?" (motivo que gera o fato); a finalidade responde a "para quê?" (objetivo que se quer alcançar). No trecho, o estudo não é causado pelo desejo de não ser como o Lelo; o estudo é feito com o propósito de não ser como o Lelo. A relação é de intenção, não de causa.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre causa e finalidade. A causa explica a origem do fato ("estudou porque queria passar"); a finalidade indica o alvo da ação ("estudou para passar"). No texto, "para" marca o objetivo, não o motivo.

1Finalidade
Conectivo: para, a fim de
Responde a "para quê?"
Substituível por "a fim de"
2Causa
Conectivo: porque, já que
Responde a "por quê?"
3Condição
Conectivo: se, caso, desde que
4Proporção
Conectivo: à medida que, quanto mais
5Comparação
Conectivo: como, tal qual
Orações subordinadas adverbiais
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Orações subordinadas adverbiais: Finalidade (Conectivo: para, a fim de, Responde a "para quê?", Substituível por "a fim de"); Causa (Conectivo: porque, já que, Responde a "por quê?"); Condição (Conectivo: se, caso, desde que); Proporção (Conectivo: à medida que, quanto mais); Comparação (Conectivo: como, tal qual)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Proporção seria expressa por conectivos como "à medida que", "ao passo que", "quanto mais... mais". A oração não estabelece uma relação de proporcionalidade entre estudar e não ser como o Lelo. Não há ideia de gradação ou correspondência quantitativa. O texto não diz "quanto mais estudassem, menos seriam como o Lelo"; diz apenas que o estudo tem um objetivo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Comparação seria expressa por "como", "tal qual", "assim como", "mais... do que". A oração contém a palavra "como", mas ela está dentro de uma estrutura final: "para não ser como o Lelo" = "para não se tornar igual ao Lelo". O "como" aqui é uma conjunção comparativa que integra o termo da finalidade — não é a relação principal entre as orações. A relação entre "estudar" e "não ser como o Lelo" é de finalidade; a comparação é apenas um elemento interno dessa finalidade.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A oração "para não ser como o Lelo" expressa finalidade. O conectivo "para" introduz o objetivo da ação de estudar. A prova está na substituição por "a fim de" ou "com o intuito de", que preserva o sentido. No texto, o estudo é o meio; "não ser como o Lelo" é o fim almejado.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Causa seria expressa por "porque", "já que", "uma vez que", "visto que". A oração não indica o motivo que gerou o estudo; indica o objetivo do estudo. Se fosse causa, o sentido seria: "As crianças deviam estudar porque não eram como o Lelo" — o que não é o caso. O texto diz que o estudo é para evitar ser como o Lelo, o que é finalidade, não causa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Condição seria expressa por "se", "caso", "desde que", "contanto que". A oração não estabelece uma condição para o estudo acontecer. Não há sentido de "estudar, caso não sejam como o Lelo". A relação é de objetivo, não de condicionalidade.

Conclusão

A questão se resolve pelo valor semântico do conectivo "para". Sempre que ele puder ser substituído por "a fim de" ou "com o objetivo de", a relação é de finalidade. As demais alternativas confundem esse valor com outras relações adverbiais (proporção, comparação, causa, condição), mas nenhuma delas se sustenta no trecho.

Gabarito: letra C.

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