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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc149870
Banca
FCC
Órgão
UNASP
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )

Quando queriam dar uma ideia de erudição do dr. Solis, as pessoas diziam:


– Basta dizer que ele fala naiki.


Ninguém sabia onde, no mundo, se falava naiki e o próprio dr. Solis, sempre muito circunspecto1, não ajudava. Dizia apenas:


– É uma língua do grupo dravídico...


Os pais apontavam o dr. Solis às crianças como exemplo de inteligência e cultura. Aliás, os dois exemplos da cidade eram o dr. Solis e o Lelo.(c) O dr. Solis era o exemplo de inteligência e o Lelo, o exemplo de burrice. As crianças deviam estudar para não ser como o lelo. E se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis.


Caravanas de estudantes iam à casa do dr. Solis. “Viemos beber da sua cultura”, dizia a professora. E as crianças, um pouco assustadas, rodeavam o dr. Solis na sua biblioteca. O dr. Solis sorria, pacientemente. Alguma pergunta?


– O senhor já leu todos esses livros?


– Já.


Às vezes uma se arriscava e pedia:


– Diz alguma coisa em naiki.


E o dr. Solis:


– Za cadu arrarmarral cadverno.


– Traduz.


Mas aquilo já era pedir demais.(e) A professora arrebanhava as crianças para irem embora. Estavam cansando a inteligência do dr. Solis.

 

Alguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante.(b) E prepararam uma armadilha. Um dia chegaram na casa do dr. Solis com a notícia de que aparecera na cidade, imagine, outra pessoa que falava naiki. O dr. Solis não se afobou. Perguntou onde estava essa pessoa. No hotel? Muito bem. Então precisava ir até lá conversar com ela.(a)


A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido.(d) O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki. Quando o dr. Solis chegou no hotel havia um bom público para assistir ao encontro das duas inteligências. O forasteiro, outro farsante, contratado para pôr o dr. Solis à prova, já o recebeu com uma frase:


– Bassau rarim ai montul?


O dr. Solis franziu a testa e ficou olhando para o forasteiro, sem dizer nada. Depois disse:


– Como?


Já com um ar superior, o outro repetiu:


– Bassau rarim ai montul?


Suspense na plateia. O dr. Solis seria desmascarado? Será que os céticos tinham razão? Que todo este tempo o dr. Solis mentia para eles e realmente não sabia uma palavra em naiki? Nem "bom dia"?


– Repita, por favor – pediu o dr. Solis.


– Bassau rarim ai montul?


Aí o dr. Solis sacudiu a cabeça lentamente e, com um sorriso de divertida condescendência para seu interlocutor, comentou:


– Esses dialetos...


Foi carregado em triunfo pelas ruas da cidade. Que cabeça! Na frente do cortejo ia o Lelo, gritando:


– É um potentado2. É um potentado!

 

(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. Novas comédias da vida privada.

Porto Alegre: L&PM, 1996, p. 125-126)

 

1 circunspecto: reservado.


2 potentado: indivíduo poderoso.

Para responder à questão, considere a crônica "O homem que falava naiki" do escritor Luis Fernando Veríssimo (1936-2025).     Luis Fernando Veríssimo dirige-se diretamente a seus leitores no seguinte trecho da crônica:
  1. AEntão precisava ir até lá conversar com ela.
  2. BAlguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante.
  3. CAliás, os dois exemplos da cidade eram o dr. Solis e o Lelo.
  4. DA novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido.
  5. EMas aquilo já era pedir demais.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpelação direta ao leitor na crônica de Veríssimo

Gabarito: letra D. A única passagem em que Luis Fernando Veríssimo se dirige diretamente aos leitores é "A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido", pois a expressão "como podem imaginar" é uma interpelação explícita ao leitor, convidando-o a participar da construção do sentido. As demais alternativas são trechos narrativos que não contêm qualquer marca de interlocução com quem lê.

A questão pede que se identifique o trecho em que o narrador rompe a moldura da narrativa e fala diretamente com o leitor. Isso é uma característica típica da crônica, gênero em que o narrador frequentemente estabelece um diálogo informal com o público. A marca linguística dessa interpelação é o uso de expressões como "como podem imaginar", "vejam vocês", "imaginem" — formas verbais no imperativo ou estruturas que pressupõem a presença de um interlocutor.

No texto, o narrador conta a história do dr. Solis em terceira pessoa, descrevendo ações e falas dos personagens. Em meio a essa narração, há um momento em que ele interrompe o fluxo para comentar com o leitor: "A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido." O verbo "podem" está na segunda pessoa do plural, referindo-se diretamente aos leitores, e a expressão "como podem imaginar" estabelece uma cumplicidade entre narrador e leitor, como se ambos compartilhassem a expectativa de que a notícia se espalharia.

As outras alternativas são todas trechos da narração em que o narrador apenas relata fatos ou falas, sem se dirigir ao leitor. A alternativa A reproduz a fala do dr. Solis; a B narra a desconfiança dos céticos; a C apresenta uma informação sobre os exemplos da cidade; e a E é a fala do narrador sobre a reação da professora. Nenhuma delas contém marca de interlocução direta.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre narração em terceira pessoa e interpelação direta. O candidato pode achar que qualquer comentário do narrador é uma fala ao leitor, mas só há interpelação quando há marca linguística de segunda pessoa ("vocês", "podem", "imaginem").

Interpelação direta ao leitor
  • 1Marca linguística
    • 2ª pessoa do plural ("podem", "vocês")
    • Imperativo ("imaginem", "vejam")
    • Cumplicidade narrador-leitor
  • 2Exemplo no texto
    • "A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido"
  • 3O que NÃO é interpelação
    • Fala de personagem (discurso direto)
    • Narração em 3ª pessoa
    • Comentário do narrador sem 2ª pessoa
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Então precisava ir até lá conversar com ela."

Este trecho é a fala do dr. Solis, transcrita em discurso direto, quando ele reage à notícia de que outra pessoa falava naiki. Não há qualquer marca de interpelação ao leitor; é uma fala do personagem dentro da narrativa. Erro: fora do escopo — não atende ao que o comando pede.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Alguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante."

Aqui o narrador relata um fato da história: a desconfiança dos céticos. É uma narração em terceira pessoa, sem qualquer expressão que se dirija ao leitor. Erro: fora do escopo — é narração pura, não interpelação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Aliás, os dois exemplos da cidade eram o dr. Solis e o Lelo."

O advérbio "aliás" introduz uma informação adicional, mas o narrador continua falando sobre os personagens, sem se dirigir ao leitor. Não há marca de segunda pessoa. Erro: fora do escopo — é uma observação do narrador, não uma interpelação.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido."

A expressão "como podem imaginar" é a marca da interpelação direta. O verbo "podem" está na segunda pessoa do plural, dirigindo-se aos leitores, e a estrutura convida o leitor a participar da narrativa, criando cumplicidade. É o único trecho em que o narrador fala diretamente com quem lê.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Mas aquilo já era pedir demais."

Este é um comentário do narrador sobre a reação da professora, mas não contém marca de interlocução. O narrador continua em terceira pessoa, sem se dirigir ao leitor. Erro: fora do escopo — é narração com comentário, não interpelação.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar interpelação direta, procure marcas de segunda pessoa ("você", "vocês", "teu", "vosso") ou expressões como "imaginem", "vejam", "como podem ver". Se não houver essas marcas, é narração comum.

Gabarito: letra D — a única alternativa em que o narrador se dirige diretamente ao leitor, pela expressão "como podem imaginar".

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