Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Figuras de Linguagem — FCC 2025

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
fc149871
Banca
FCC
Órgão
UNASP
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )

Quando queriam dar uma ideia de erudição do dr. Solis, as pessoas diziam:


– Basta dizer que ele fala naiki.


Ninguém sabia onde, no mundo, se falava naiki e o próprio dr. Solis, sempre muito circunspecto1, não ajudava.(d) Dizia apenas:


– É uma língua do grupo dravídico...


Os pais apontavam o dr. Solis às crianças como exemplo de inteligência e cultura. Aliás, os dois exemplos da cidade eram o dr. Solis e o Lelo. O dr. Solis era o exemplo de inteligência e o Lelo, o exemplo de burrice. As crianças deviam estudar para não ser como o lelo. E se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis.(e)


Caravanas de estudantes iam à casa do dr. Solis. “Viemos beber da sua cultura”, dizia a professora. E as crianças, um pouco assustadas, rodeavam o dr. Solis na sua biblioteca. O dr. Solis sorria, pacientemente. Alguma pergunta?


– O senhor já leu todos esses livros?


– Já.


Às vezes uma se arriscava e pedia:


– Diz alguma coisa em naiki.


E o dr. Solis:


– Za cadu arrarmarral cadverno.


– Traduz.


Mas aquilo já era pedir demais. A professora arrebanhava as crianças para irem embora. Estavam cansando a inteligência do dr. Solis.

 

Alguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante.(a) E prepararam uma armadilha. Um dia chegaram na casa do dr. Solis com a notícia de que aparecera na cidade, imagine, outra pessoa que falava naiki. O dr. Solis não se afobou. Perguntou onde estava essa pessoa. No hotel? Muito bem. Então precisava ir até lá conversar com ela.


A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido. O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki.(c) Quando o dr. Solis chegou no hotel havia um bom público para assistir ao encontro das duas inteligências. O forasteiro, outro farsante, contratado para pôr o dr. Solis à prova, já o recebeu com uma frase:


– Bassau rarim ai montul?


O dr. Solis franziu a testa e ficou olhando para o forasteiro, sem dizer nada.(b) Depois disse:


– Como?


Já com um ar superior, o outro repetiu:


– Bassau rarim ai montul?


Suspense na plateia. O dr. Solis seria desmascarado? Será que os céticos tinham razão? Que todo este tempo o dr. Solis mentia para eles e realmente não sabia uma palavra em naiki? Nem "bom dia"?


– Repita, por favor – pediu o dr. Solis.


– Bassau rarim ai montul?


Aí o dr. Solis sacudiu a cabeça lentamente e, com um sorriso de divertida condescendência para seu interlocutor, comentou:


– Esses dialetos...


Foi carregado em triunfo pelas ruas da cidade. Que cabeça! Na frente do cortejo ia o Lelo, gritando:


– É um potentado2. É um potentado!

 

(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. Novas comédias da vida privada.

Porto Alegre: L&PM, 1996, p. 125-126)

 

1 circunspecto: reservado.


2 potentado: indivíduo poderoso.

Para responder à questão, considere a crônica "O homem que falava naiki" do escritor Luis Fernando Veríssimo (1936-2025).     Com finalidade humorística, o cronista recorre a um enunciado paradoxal no seguinte trecho:
  1. AAlguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante.
  2. BO dr. Solis franziu a testa e ficou olhando para o forasteiro, sem dizer nada.
  3. CO Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki.
  4. DNinguém sabia onde, no mundo, se falava naiki e o próprio dr. Solis, sempre muito circunspecto, não ajudava.
  5. EE se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Paradoxo: a figura que une ideias contraditórias

Gabarito: letra C. O trecho "O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki" é o único que apresenta um paradoxo, pois a palavra monólogo designa a fala de uma única pessoa, mas o texto a aplica a um diálogo entre duas pessoas (o dr. Solis e o forasteiro). A contradição está na própria estrutura da frase: um monólogo entre dois é logicamente impossível, e é exatamente essa impossibilidade que gera o humor da crônica.

O comando: identificar a figura de pensamento

A questão pede que você reconheça o enunciado paradoxal usado com finalidade humorística. Isso é uma tarefa de interpretação de texto com foco em figuras de linguagem, especificamente as figuras de pensamento. O paradoxo é uma figura de pensamento que consiste na apresentação de uma ideia contraditória, que desafia a lógica, mas que, no contexto, faz sentido ou provoca um efeito (neste caso, o humor).

Para resolver, você não precisa decorar a definição de todas as figuras; basta analisar a lógica interna de cada trecho e verificar se há uma contradição explícita entre os termos.

O texto: a construção do humor pela contradição

A crônica de Veríssimo constrói o humor a partir da farsa do dr. Solis, que finge falar uma língua inexistente. O clímax é o encontro com outro farsante, que também finge falar naiki. O humor está em como o dr. Solis, mesmo sem entender nada, consegue manter a farsa com uma frase de efeito: "Esses dialetos...".

O trecho da alternativa C está no momento em que o Lelo, o exemplo de burrice da cidade, anuncia o evento. A contradição está na palavra monólogo:

"O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki."

Monólogo é a fala de uma só pessoa. Se há dois interlocutores, o correto seria diálogo. A frase, portanto, une dois termos logicamente incompatíveis, criando o paradoxo. O humor vem do fato de o Lelo, justamente o "burro" da cidade, usar uma palavra errada para descrever um evento que, na verdade, também é uma farsa.

A técnica: como identificar o paradoxo

O paradoxo é a união de ideias contraditórias em uma mesma expressão. Para identificá-lo, pergunte-se: "há uma contradição lógica interna nesta frase?" Se sim, é um paradoxo. Veja a diferença entre paradoxo e antítese:

Figura

Característica

Exemplo

Paradoxo

Contradição lógica interna (uma ideia nega a outra)

"monólogo entre os dois"

Antítese

Oposição de ideias, mas sem contradição lógica

"vida e morte", "amor e ódio"

No paradoxo, a contradição é absurda; na antítese, é apenas uma oposição.

Análise das alternativas

1Contradição lógica interna
"monólogo entre os dois"
2Difere da antítese
Oposição sem contradição
3Difere da ironia
Efeito de sentido contextual
Paradoxo
LEVELsoulevel.com.br
Paradoxo: Contradição lógica interna ("monólogo entre os dois"); Difere da antítese (Oposição sem contradição); Difere da ironia (Efeito de sentido contextual)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Alguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante."

Este trecho é uma afirmação direta dos céticos. Não há contradição interna: eles desconfiam, o que é uma atitude lógica. Não há paradoxo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"O dr. Solis franziu a testa e ficou olhando para o forasteiro, sem dizer nada."

Aqui há uma descrição de ação. O fato de franzir a testa e ficar em silêncio é uma reação natural de quem está confuso. Não há contradição lógica; é uma sequência de eventos coerente.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki."

A contradição está em "monólogo entre os dois". Monólogo é a fala de um só; "entre os dois" pressupõe dois falantes. A frase é logicamente impossível, caracterizando o paradoxo. O humor está na ignorância do Lelo, que usa a palavra errada para descrever um diálogo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Ninguém sabia onde, no mundo, se falava naiki e o próprio dr. Solis, sempre muito circunspecto, não ajudava."

Este trecho descreve a ignorância geral e a reserva do dr. Solis. Não há contradição: ninguém sabe, e ele não ajuda. É uma situação coerente, sem paradoxo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"E se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis."

Esta frase expressa uma consequência hipotética: estudar muito levaria a ser como o dr. Solis. Não há contradição interna; é uma relação de causa e efeito, ainda que irônica (pois o dr. Solis é um farsante). A ironia aqui é contextual, não um paradoxo na frase.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre paradoxo e ironia. A alternativa E tem um tom irônico (estudar para ser como um farsante), mas a ironia é um efeito de sentido do texto, não uma contradição interna da frase. O paradoxo exige a contradição dentro da própria expressão, como em "monólogo entre os dois".

PEGA ESSA DICA!

Ao procurar um paradoxo, isole a frase e pergunte: "esta frase, por si só, é logicamente impossível?" Se a contradição só aparece no contexto maior, não é paradoxo, é ironia ou outro recurso.

Gabarito: letra C. A única frase que contém uma contradição lógica interna é a que fala em "monólogo entre os dois", pois monólogo, por definição, é a fala de uma única pessoa.

Link permanente: /questoes/fc149871