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Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — FCC 2025

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
fc149874
Banca
FCC
Órgão
UNASP
Ano
2025
Cargo
Vest Med ( )

Quando queriam dar uma ideia de erudição do dr. Solis, as pessoas diziam:


– Basta dizer que ele fala naiki.


Ninguém sabia onde, no mundo, se falava naiki e o próprio dr. Solis, sempre muito circunspecto1, não ajudava. Dizia apenas:


– É uma língua do grupo dravídico...


Os pais apontavam o dr. Solis às crianças como exemplo de inteligência e cultura. Aliás, os dois exemplos da cidade eram o dr. Solis e o Lelo. O dr. Solis era o exemplo de inteligência e o Lelo, o exemplo de burrice. As crianças deviam estudar para não ser como o lelo. E se estudassem muito um dia ainda seriam como o dr. Solis.


Caravanas de estudantes iam à casa do dr. Solis. “Viemos beber da sua cultura”, dizia a professora. E as crianças, um pouco assustadas, rodeavam o dr. Solis na sua biblioteca. O dr. Solis sorria, pacientemente. Alguma pergunta?


– O senhor já leu todos esses livros?


– Já.


Às vezes uma se arriscava e pedia:


– Diz alguma coisa em naiki.


E o dr. Solis:


– Za cadu arrarmarral cadverno.


– Traduz.


Mas aquilo já era pedir demais. A professora arrebanhava as crianças para irem embora. Estavam cansando a inteligência do dr. Solis.

 

Alguns céticos da cidade desconfiavam que o dr. Solis era um farsante. E prepararam uma armadilha. Um dia chegaram na casa do dr. Solis com a notícia de que aparecera na cidade, imagine, outra pessoa que falava naiki. O dr. Solis não se afobou. Perguntou onde estava essa pessoa. No hotel? Muito bem. Então precisava ir até lá conversar com ela.


A novidade, como podem imaginar, se espalhou rápido. O Lelo anunciou que ia haver um monólogo entre os dois, e em naiki. Quando o dr. Solis chegou no hotel havia um bom público para assistir ao encontro das duas inteligências. O forasteiro, outro farsante, contratado para pôr o dr. Solis à prova, já o recebeu com uma frase:


– Bassau rarim ai montul?


O dr. Solis franziu a testa e ficou olhando para o forasteiro, sem dizer nada. Depois disse:


– Como?


Já com um ar superior, o outro repetiu:


– Bassau rarim ai montul?


Suspense na plateia. O dr. Solis seria desmascarado? Será que os céticos tinham razão? Que todo este tempo o dr. Solis mentia para eles e realmente não sabia uma palavra em naiki? Nem "bom dia"?


– Repita, por favor – pediu o dr. Solis.


– Bassau rarim ai montul?


Aí o dr. Solis sacudiu a cabeça lentamente e, com um sorriso de divertida condescendência para seu interlocutor, comentou:


– Esses dialetos...


Foi carregado em triunfo pelas ruas da cidade. Que cabeça! Na frente do cortejo ia o Lelo, gritando:


– É um potentado2. É um potentado!

 

(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. Novas comédias da vida privada.

Porto Alegre: L&PM, 1996, p. 125-126)

 

1 circunspecto: reservado.


2 potentado: indivíduo poderoso.

Para responder à questão, considere a crônica "O homem que falava naiki" do escritor Luis Fernando Veríssimo (1936-2025).

   

Suspense na plateia. O dr. Solis seria desmascarado? Será que os céticos tinham razão? Que todo este tempo o dr. Solis mentira para eles e realmente não sabia uma palavra em naiki?

 

Nesse trecho, Luis Fernando Veríssimo narra uma série de fatos ocorridos no passado.

 

Um fato anterior a esse tempo passado está indicado pela seguinte forma verbal:

  1. Atinham.
  2. Bsabia.
  3. CSerá.
  4. D seria.
  5. Ementira.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — mentira.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O pretérito mais-que-perfeito: o passado do passado

Gabarito: letra E. A forma verbal "mentira" é a única que indica um fato anterior ao tempo passado em que se situa a narração. No trecho, o narrador relata fatos ocorridos no passado (o suspense, a dúvida da plateia) e, ao usar "mentira", remete a um tempo ainda mais recuado: o período em que o dr. Solis teria mentido, antes daquele momento de tensão. A forma "mentira" é o pretérito mais-que-perfeito do indicativo, tempo que expressa exatamente um passado anterior a outro passado.

O comando da questão é claro: "Um fato anterior a esse tempo passado está indicado pela seguinte forma verbal". Isso exige identificar, entre as formas verbais do trecho, aquela que não se refere ao mesmo plano temporal da narração, mas a um plano anterior. A pista está na própria pergunta retórica do narrador: "Que todo este tempo o dr. Solis mentira para eles...". O verbo "mentira" (do verbo mentir) está no pretérito mais-que-perfeito, indicando uma ação concluída antes de outra ação passada. As demais formas verbais — "tinham", "sabia", "seria", "Será" — situam-se no mesmo plano passado da narração ou no presente, não expressando anterioridade.

A técnica para resolver: identifique o tempo-base da narração (o pretérito, marcado por formas como "chegou", "franziu", "disse") e, em seguida, procure a forma que se refira a um momento anterior a esse tempo-base. O pretérito mais-que-perfeito simples ("mentira") é a forma típica para essa função. As demais alternativas ou estão no mesmo plano passado (pretérito imperfeito "sabia", pretérito perfeito composto "tinham"), ou no futuro do pretérito ("seria"), ou no presente ("Será").

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o pretérito imperfeito ("sabia") e o mais-que-perfeito ("mentira"). Ambos são passados, mas o imperfeito indica ação contínua no passado, enquanto o mais-que-perfeito indica ação anterior a outra ação passada. A forma "seria" (futuro do pretérito) também é passada, mas expressa um fato posterior a um ponto de referência passado, não anterior.

Tempos verbais no trecho
  • 1Plano passado da narração
    • Pretérito imperfeito: "sabia"
    • Pretérito perfeito composto: "tinham"
    • Futuro do pretérito: "seria"
  • 2Presente: "Será"
  • 3Passado anterior ao passado
    • Pretérito mais-que-perfeito: "mentira" ✅
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A forma "tinham" é o pretérito perfeito composto do indicativo (ter + particípio), indicando um fato passado que se prolonga até o momento da fala ou que se repete. No trecho, "os céticos tinham razão" refere-se a uma opinião que os céticos possuíam no mesmo plano passado da narração, não a um fato anterior a ele. Não expressa anterioridade em relação ao tempo-base.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Sabia" é o pretérito imperfeito do indicativo, que indica uma ação contínua ou habitual no passado, simultânea ao tempo da narração. No trecho, "não sabia uma palavra em naiki" descreve um estado do dr. Solis no mesmo plano passado, não anterior a ele. O imperfeito não marca anterioridade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Será" é o futuro do presente do indicativo, indicando um fato que ocorrerá no futuro em relação ao momento da fala. No trecho, "Será que os céticos tinham razão?" é uma pergunta retórica que se refere ao presente da enunciação, não a um passado anterior. Não se encaixa na exigência do comando.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Seria" é o futuro do pretérito do indicativo, que indica um fato futuro em relação a um ponto de referência passado. No trecho, "O dr. Solis seria desmascarado?" expressa uma possibilidade ou um fato posterior ao tempo da narração, não anterior. Portanto, não atende ao pedido.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Mentira" é o pretérito mais-que-perfeito do indicativo, tempo que expressa um fato passado anterior a outro fato passado. No trecho, "Que todo este tempo o dr. Solis mentira para eles" indica que a mentira ocorreu antes do momento em que a plateia está em suspense. A forma "mentira" é a única que marca anterioridade em relação ao tempo-base da narração, cumprindo exatamente o que o comando pede.

Conclusão: a questão testa o reconhecimento do valor temporal do pretérito mais-que-perfeito. A forma "mentira" é a única que indica um fato anterior ao passado narrado. As demais formas ou estão no mesmo plano passado (tinham, sabia), ou no futuro do pretérito (seria), ou no presente (Será).

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o tempo-base de uma narração, pergunte: "essa forma verbal indica um fato que ocorreu antes, durante ou depois do tempo da narrativa?" O pretérito mais-que-perfeito (simples ou composto) é a resposta para "antes".

Gabarito: letra E

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