Questão de Direito Processual Penal — Prova pericial e exame de corpo de delito — FGV 2021
Direito Processual Penal›Prova pericial e exame de corpo de delito
Código
fg044235
Banca
FGV
Órgão
PC-RN
Ano
2021
Nível
Superior
Cargo
Delegado de Polícia Civil Substituto
No curso de inquérito policial para investigar a prática de crime sexual, a autoridade policial entendeu necessária a realização de exame de DNA de Leonardo, suspeito do delito, para colher informações sobre a sua autoria. Nesse sentido, a prova em questão:
Anão poderá ser recusada por Leonardo, diante da sua condição de indiciado, independentemente de exigir comportamento ativo ou passivo;
Bpoderá ser realizada, independentemente da concordância de Leonardo, ainda que invasiva, mas exige decisão judicial prévia;
Cpoderá ser recusada por Leonardo no curso do inquérito policial, mas não no curso de processo judicial;
Dpoderá ser realizada sobre material descartado por Leonardo, independentemente de sua concordância;
Epoderá ser realizada independentemente da concordância de Leonardo, ainda que exija comportamento ativo do agente, desde que sujeita ao contraditório e ampla defesa.
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GabaritoD — poderá ser realizada sobre material descartado por Leonardo, independentemente de sua concordância;
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Exame de DNA e o direito à não autoincriminação
Gabarito: letra D. A coleta de DNA de material descartado pelo suspeito (ex.: fio de cabelo, saliva em copo) não viola o direito à não autoincriminação, pois não exige comportamento ativo do indivíduo, sendo lícita independentemente de consentimento ou autorização judicial (CF, art. 5º, LXIII; STF HC 71.373). As demais alternativas confundem a necessidade de autorização judicial com a impossibilidade de coação ativa.
A questão aborda o conflito entre a busca da verdade real (prova de DNA) e o privilégio contra a autoincriminação (nemo tenetur se detegere), garantido constitucionalmente. A jurisprudência do STF firmou-se no sentido de que o suspeito não pode ser compelido a fornecer material biológico que demande conduta ativa (como fornecer sangue ou saliva), mas o material abandonado (cabelo, células descartadas, objetos usados) pode ser coletado sem seu consentimento.
Aspecto Analisado
Descrição
Fundamento Jurídico
Consequência Processual
Material descartado
Coleta de DNA de objetos abandonados (cabelo, saliva em copo, etc.)
Não viola o direito à não autoincriminação (nemo tenetur se detegere)
Lícita independentemente de consentimento ou autorização judicial
Conduta ativa exigida
Fornecimento de sangue, saliva ou outro material mediante ação do suspeito
Viola o privilégio contra a autoincriminação (CF, art. 5º, LXIII)
Não pode ser imposta, mesmo com autorização judicial
Condição de indiciado
Suspeito formalmente investigado
Não suprime a garantia constitucional de não autoincriminação
Recusa é possível quando exige conduta ativa
Autorização judicial
Decisão do juiz autorizando coleta invasiva
Não supera o privilégio contra a autoincriminação (STF HC 71.373)
Coleta invasiva não pode ser imposta, independentemente de decisão judicial
Fase processual
Inquérito policial ou processo judicial
Garantia constitucional exercitável em qualquer fase da persecução penal
Suspeito/acusado não perde o direito de não se autoincriminar ao longo do processo
Exame de DNA e não autoincriminação: Material descartado (passivo) (Coleta lícita sem consentimento, Independe de autorização judicial); Material corporal (ativo) (Coleta exige consentimento, Autorização judicial não supre); Fase da persecução (Inquérito: pode recusar, Processo: pode recusar)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que Leonardo não pode recusar o exame por ser indiciado, independentemente de exigir comportamento ativo ou passivo. O direito ao silêncio e à não autoincriminação impede que o suspeito seja compelido a praticar atos que produzam prova contra si, como fornecer sangue ou saliva ativamente. A condição de indiciado não suprime essa garantia constitucional. Logo, a recusa é possível quando se exige conduta ativa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Sugere que o exame pode ser realizado sem consentimento, ainda que invasivo, desde que com autorização judicial. O entendimento consolidado no STF (HC 71.373) é que a autorização judicial não supera o privilégio contra a autoincriminação; a coleta invasiva (como punção venosa) não pode ser imposta ao suspeito, independentemente de decisão judicial. Assim, a alternativa erra ao considerar a decisão judicial como suficiente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Distingue a possibilidade de recusa no inquérito e no processo, afirmando que no processo não seria possível. A garantia constitucional de não autoincriminação é exercitável em qualquer fase da persecução penal, tanto na investigação quanto no processo judicial. O suspeito ou acusado não perde esse direito ao longo do procedimento.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O material descartado por Leonardo (ex.: fio de cabelo, células descartadas, saliva de copo) não é fruto de coação. Por tratar-se de vestígio abandonado, a coleta prescinde de consentimento e não viola o direito ao silêncio, pois não exige qualquer comportamento ativo do suspeito. Esse entendimento é pacífico na jurisprudência do STF (HC 71.373) e na doutrina.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Supõe que o exame pode ser realizado sem consentimento mesmo exigindo comportamento ativo, desde que respeitados o contraditório e a ampla defesa. O contraditório e a ampla defesa não autorizam a produção de prova mediante coação física ou psicológica. O direito de não produzir prova contra si (nemo tenetur se detegere) é absoluto nesse aspecto, prevalecendo sobre a busca da verdade real.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, lembre-se do teste do comportamento ativo: se o suspeito precisa fazer algo (ex.: soprar, assinar, fornecer material), a coleta depende de consentimento; se o material já está disponível (ex.: cabelo no chão, impressão digital no copo), pode ser coletado independentemente de anuência. Essa distinção é a chave para questões sobre exame de DNA e outras provas biológicas.