Questão de Direito Tributário — Repartição das Receitas Tributárias — FGV 2022
Direito Tributário›Repartição das Receitas Tributárias
Código
fg054322
Banca
FGV
Órgão
Senado Federal
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Consultor Legislativo - Política Econômica e Finanças Públicas
Considerando a repartição de receitas tributárias e a distribuição de atividades entre os entes da Federação no Brasil, assinale a afirmativa correta.
AAs alterações introduzidas pela Constituição de 1988 foram pautadas pela lógica da descentralização. Com isso os recursos à disposição do governo federal foram diminuídos, harmonizando as atividades por ele desenvolvidas com os recursos à sua disposição.
BUma mudança nas regras do ICMS, que unificasse a legislação e estabelecesse sua cobrança na origem reduziria a possibilidade de ocorrência da chamada Guerra Fiscal.
CAtualmente, existem grandes disparidades entre os estados no que diz respeito à renda tributária disponível em relação à população, o que representa uma distorção em relação ao princípio do Equilíbrio Vertical.
DA substituição dos impostos sobre valor adicionado atualmente existentes por um único imposto, cuja arrecadação fosse compartilhada entre a União e os estados, induziria a uma maior cooperação tributária entre as esferas de governo.
ECom relação aos municípios, os recursos recebidos da União e dos estados por meio dos mecanismos de transferências de receitas tributárias garantem o seu equilíbrio orçamentário.
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GabaritoD — A substituição dos impostos sobre valor adicionado atualmente existentes por um único imposto, cuja arrecadação fosse compartilhada entre a União e os estados, induziria a uma maior cooperação tributária entre as esferas de governo.
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Repartição de receitas tributárias e cooperação federativa
Gabarito: letra D. A substituição dos impostos sobre valor adicionado (ICMS e ISS) por um único imposto com arrecadação compartilhada entre União e estados reduziria a competição predatória entre os entes (a chamada guerra fiscal) e induziria maior cooperação tributária, pois eliminaria o conflito de interesses na definição das alíquotas e na destinação da receita. Essa é a lógica que fundamenta a reforma tributária do consumo (EC 132/2023), que criou o IBS e a CBS com gestão compartilhada.
A repartição de receitas tributárias é o mecanismo pelo qual o produto da arrecadação de determinados tributos é distribuído entre os entes federativos, conforme os arts. 157 a 162 da CF/88. Ela não altera a competência tributária — quem institui e cobra o tributo continua sendo o ente competente —, mas redistribui o produto arrecadado, com o objetivo de assegurar a autonomia financeira dos entes e reduzir as desigualdades regionais. A lógica da CF/88 foi a descentralização de receitas, mas a União, por meio das contribuições (cuja receita não é partilhada), reconcentrou a maior parte da arrecadação.
A guerra fiscal é um fenômeno decorrente da competição entre os estados para atrair investimentos, por meio de concessão de benefícios fiscais de ICMS, o que gera uma "corrida ao fundo do poço" e prejudica a cooperação federativa. A unificação da legislação do ICMS e a cobrança na origem (alternativa B) não eliminariam a guerra fiscal — pelo contrário, a cobrança na origem poderia até intensificá-la, pois cada estado teria incentivo para atrair operações para o seu território. A solução mais eficaz é a unificação dos impostos sobre o consumo em um único imposto, com arrecadação compartilhada, como propõe a alternativa D.
O princípio do equilíbrio vertical (ou equilíbrio federativo) busca harmonizar a distribuição de receitas com as atribuições de cada ente. As disparidades entre os estados, com alguns tendo muito mais receita per capita do que outros, representam uma distorção desse princípio — mas a alternativa C erra ao afirmar que isso é uma distorção do equilíbrio vertical, quando na verdade é uma distorção do equilíbrio horizontal (entre entes do mesmo nível). O equilíbrio vertical diz respeito à relação entre os diferentes níveis de governo (União, estados e municípios), enquanto o horizontal se refere à distribuição entre entes do mesmo nível.
Repartição de receitas tributárias: Conceito (Redistribui o produto arrecadado, Não altera a competência); Objetivos (Autonomia financeira dos entes, Reduzir desigualdades regionais); Equilíbrio federativo (Vertical (entre níveis de governo), Horizontal (entre entes do mesmo nível)); Guerra fiscal (Competição entre estados, Benefícios fiscais de ICMS, Solução: imposto único com arrecadação compartilhada)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A CF/88 realmente promoveu a descentralização de receitas, mas a afirmação de que os recursos à disposição do governo federal foram diminuídos é incorreta. A União, por meio das contribuições (cuja receita não é partilhada com os demais entes), conseguiu reverter o quadro de partilha e concentrar a maior parte das receitas tributárias. Portanto, não houve uma harmonização entre as atividades da União e os recursos à sua disposição — pelo contrário, a União mantém uma arrecadação desproporcionalmente alta em relação às suas atribuições.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A unificação da legislação do ICMS e a cobrança na origem não reduziriam a guerra fiscal; pelo contrário, poderiam até intensificá-la. A guerra fiscal decorre da competição entre os estados para atrair investimentos, e a cobrança na origem daria a cada estado o incentivo de atrair operações para o seu território, aumentando a disputa. A solução para a guerra fiscal é a unificação dos impostos sobre o consumo em um único imposto, com arrecadação compartilhada, como propõe a alternativa D.
Alternativa C — ❌ Incorreta
As disparidades entre os estados na renda tributária disponível per capita representam uma distorção do equilíbrio horizontal, não do equilíbrio vertical. O equilíbrio vertical diz respeito à relação entre os diferentes níveis de governo (União, estados e municípios), enquanto o horizontal se refere à distribuição entre entes do mesmo nível. A alternativa troca os conceitos, o que é uma pegadinha clássica da banca.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A substituição dos impostos sobre valor adicionado (ICMS e ISS) por um único imposto, com arrecadação compartilhada entre União e estados, eliminaria a competição predatória entre os entes e induziria maior cooperação tributária. Isso porque, com a arrecadação compartilhada, os entes teriam interesse comum em ampliar a base tributária e simplificar a legislação, em vez de disputar a atração de investimentos por meio de benefícios fiscais. Essa é a lógica da reforma tributária do consumo (EC 132/2023), que criou o IBS e a CBS com gestão compartilhada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
As transferências de receitas tributárias da União e dos estados para os municípios não garantem o equilíbrio orçamentário destes. Embora as transferências sejam importantes para a autonomia financeira dos municípios, muitos deles dependem exclusivamente delas, mas isso não significa que haja equilíbrio orçamentário — pelo contrário, muitos municípios enfrentam dificuldades financeiras. A alternativa é uma generalização indevida, pois as transferências não são suficientes para garantir o equilíbrio orçamentário de todos os municípios.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca o conceito de equilíbrio vertical pelo horizontal na alternativa C. O equilíbrio vertical diz respeito à relação entre os diferentes níveis de governo (União, estados e municípios), enquanto o horizontal se refere à distribuição entre entes do mesmo nível. As disparidades entre os estados são uma distorção do equilíbrio horizontal, não do vertical. Fique atento a essa distinção, pois ela é recorrente em provas de Direito Tributário.
PEGA ESSA DICA!
Para resolver questões sobre repartição de receitas, lembre-se de que a CF/88 promoveu a descentralização de receitas, mas a União reconcentrou a arrecadação por meio das contribuições. Além disso, a guerra fiscal é um problema de competição entre os estados, e a solução é a unificação dos impostos sobre o consumo. Memorize os percentuais de repartição (ex.: 50% do ICMS para os municípios, 22,5% do IR e IPI para o FPM, etc.) e as diferenças entre repartição direta e indireta.