Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — FGV 2022
Português›Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
fg054382
Banca
FGV
Órgão
Senado Federal
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Consultor Legislativo - Pronunciamentos
Leia com atenção o texto abaixo, de Théophile Gautier:“É também absurdo afirmar que um homem é um alcoólatra porque ele descreve uma orgia, um debochado porque ele relata um deboche e que um homem é virtuoso porque ele é o autor de um livro de moral: todos os dias presenciamos o contrário. – É o personagem que fala e não o autor; seu herói é ateu, o que não quer dizer que ele seja ateu; ele faz agir e falar alguns bandidos e não é por isso que ele deva ser um bandido. Nesse sentido, deveríamos guilhotinar Shakespeare, Corneille e todos os trágicos porque cometeram milhares de assassinatos”.Sobre esse pequeno texto argumentativo, assinale a afirmativa correta.
AO início do texto alude ao emprego de um “argumento pelo absurdo” ao referir-se à relação entre descrever uma orgia e ser um alcoólatra.
BO texto defende a tese de que os que escrevem sobre determinados temas devem ter experiência sobre esses temas.
CO texto pressupõe uma futura argumentação contrária à tese que o autor defende.
DO último argumento do texto pode ser classificado como “argumento pelo absurdo”.
EO autor do texto faz a separação clara entre autor e personagem porque os dois nunca mostram nada em comum.
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GabaritoD — O último argumento do texto pode ser classificado como “argumento pelo absurdo”.
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Argumentação e o "argumento pelo absurdo" no texto de Gautier
Gabarito: letra D. O último argumento do texto é um clássico "argumento pelo absurdo" (reductio ad absurdum): se levarmos ao extremo a ideia de que o autor se confunde com seus personagens, teríamos que guilhotinar Shakespeare e outros trágicos pelos assassinatos cometidos por seus personagens – conclusão absurda que refuta a premissa inicial. Essa estrutura está explicitamente no texto: "Nesse sentido, deveríamos guilhotinar Shakespeare, Corneille e todos os trágicos porque cometeram milhares de assassinatos".
O texto de Théophile Gautier defende a tese de que não se deve confundir autor com personagem: descrever uma orgia não torna o autor alcoólatra, relatar um deboche não o torna debochado, etc. A argumentação é direta, sem pressupor réplica futura.
1Premissa inicial: autor = personagem
2Consequência levada ao extremo
3Conclusão absurda: guilhotinar Shakespeare
4Refuta a premissa original
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"É também absurdo afirmar que um homem é um alcoólatra porque ele descreve uma orgia..."
O autor chama de absurda a afirmação, mas não usa a afirmação como argumento pelo absurdo. Argumento pelo absurdo consiste em assumir uma premissa e dela derivar uma contradição ou consequência ridícula. Aqui, ele apenas qualifica o raciocínio alheio como absurdo. O verdadeiro argumento pelo absurdo vem no final. ❌ Erro: confundir "afirmação absurda" com "argumento pelo absurdo".
Alternativa B — ❌ Incorreta
O texto defende a tese de que os que escrevem sobre determinados temas devem ter experiência sobre esses temas.
O texto afirma exatamente o contrário: "É o personagem que fala e não o autor; seu herói é ateu, o que não quer dizer que ele seja ateu". A tese central é que não é necessário ter experiência para escrever sobre algo. ❌ Erro: contradiz o texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O texto pressupõe uma futura argumentação contrária à tese que o autor defende.
O texto é autossuficiente: apresenta sua tese e a defende com exemplos. Não há indício de que o autor espere uma réplica ou que o texto seja parte de um debate maior. ❌ Erro: extrapolação sem base textual.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Nesse sentido, deveríamos guilhotinar Shakespeare, Corneille e todos os trágicos porque cometeram milhares de assassinatos".
Essa frase leva ao extremo a confusão entre autor e personagem, gerando uma consequência absurda (punir autores por crimes fictícios). Esse é o mecanismo do argumento pelo absurdo: mostrar que a premissa leva a um absurdo, portanto a premissa é falsa. A banca cobra justamente essa identificação. ✅ Correta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O autor do texto faz a separação clara entre autor e personagem porque os dois nunca mostram nada em comum.
O texto realmente separa autor e personagem ("É o personagem que fala e não o autor"), mas não afirma que eles "nunca mostram nada em comum". A separação é baseada no fato de que o personagem é uma criação, não que não haja qualquer ponto em comum – o autor poderia, em tese, compartilhar algumas características. A alternativa impõe uma generalização absoluta que não está no texto. ❌ Erro: extrapolação e absolutização ("nunca").
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar "argumento pelo absurdo", procure por uma conclusão claramente ridícula ou exagerada que sirva para refutar uma premissa. No texto, o exagero é "guilhotinar Shakespeare".