Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — FGV 2022
Português›Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
fg054385
Banca
FGV
Órgão
Senado Federal
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Consultor Legislativo - Pronunciamentos
Eis o início do discurso do deputado Ulysses Guimarães no lançamento da Constituição de 1988:“Senhoras e senhores constituintes.Dois de fevereiro de 1987. Ecoam nesta sala as reivindicações das ruas. A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. São palavras constantes do discurso de posse como presidente da Assembleia Nacional Constituinte.Hoje. 5 de outubro de 1988, no que tange à Constituição, a Nação mudou. (Aplausos). A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos Poderes. Mudou restaurando a federação, mudou quando quer mudar o homem cidadão. E é só cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa.Num país de 30 milhões, 401 mil analfabetos, afrontosos 25 por cento da população, cabe advertir a cidadania começa com o alfabeto. Chegamos, esperamos a Constituição como um vigia espera a aurora.A Nação nos mandou executar um serviço. Nós o fizemos com amor, aplicação e sem medo”.Um manual clássico de Retórica dá uma série de conselhos para a construção de um bom discurso. Entre os conselhos a seguir, assinale aquele que é predominantemente seguido pelo orador.
ANa introdução do discurso deve-se apelar para uma declaração de impacto a fim de captar a benevolência e a curiosidade do público (captatio benevolentiae).
BUtilizar conectores lógicos para destacar a clareza e a solidez do raciocínio.
CUtilizar grande número de imagens para tocar o espírito do público: comparações, metáforas, hipérboles.
DEmpregar repetições, anáforas ou epístrofes, para martelar claramente uma ideia.
EInterpelar o público para que ele se sinta ligado ao tema, por meio de apóstrofes, interjeições, questões retóricas e perífrases.
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GabaritoD — Empregar repetições, anáforas ou epístrofes, para martelar claramente uma ideia.
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Retórica no discurso de Ulysses Guimarães
Gabarito: letra D. O discurso do deputado Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição de 1988 emprega de forma predominante repetições e anáforas, recurso que “martela” claramente a ideia de mudança. Essa técnica está em linha com o conselho D: empregar repetições, anáforas ou epístrofes para martelar uma ideia.
O texto evidencia isso em passagens como:
"A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos Poderes. Mudou restaurando a federação, mudou quando quer mudar o homem cidadão." "A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar."
A repetição do verbo "mudou" no início de orações sucessivas caracteriza anáfora, e a reiteração de "A Nação" com variação verbal também configura anáfora. Nenhum outro recurso retórico aparece com tanta ênfase.
Análise das alternativas:
Recurso Retórico
Ocorrência no Discurso
Predominância
Repetições/Anáforas
"A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar." / "A Constituição mudou... mudou... mudou..."
Predominante (Gabarito D)
Captatio benevolentiae
Início direto com tese da mudança, sem apelo explícito à simpatia
"esperamos a Constituição como um vigia espera a aurora"; "cidadania começa com o alfabeto"
Pouca ocorrência (C)
1Repetição/anáfora
2Apóstrofe/interpelação
3Metáfora/comparação
4Conectores lógicos
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Na introdução do discurso deve-se apelar para uma declaração de impacto a fim de captar a benevolência e a curiosidade do público (captatio benevolentiae)."
A introdução do discurso não é uma declaração de impacto isolada; ela já começa com a repetição rítmica de "A Nação quer... deve... vai...". Embora haja algum impacto, não é o recurso predominante no discurso inteiro. O orador não busca especificamente a captatio benevolentiae (conquistar a simpatia) com uma declaração impactante; ele já inicia com a tese da mudança.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Utilizar conectores lógicos para destacar a clareza e a solidez do raciocínio."
O discurso tem pouquíssimos conectores lógicos explícitos (como "portanto", "assim", "porque"). A argumentação se dá mais pela força das repetições e pela enumeração de áreas em que a Constituição mudou do que por encadeamento lógico formal. Portanto, não é o recurso predominante.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Utilizar grande número de imagens para tocar o espírito do público: comparações, metáforas, hipérboles."
Há apenas uma figura de linguagem marcante: a comparação "esperamos a Constituição como um vigia espera a aurora". Também se pode considerar metafórica a expressão "cidadania começa com o alfabeto". Contudo, não há um grande número de imagens; o texto é predominantemente direto e repetitivo, não metafórico.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Empregar repetições, anáforas ou epístrofes, para martelar claramente uma ideia."
Conforme demonstrado, o discurso é construído sobre repetições: a anáfora do verbo "mudou" e a repetição da estrutura "A Nação [verbo] mudar". Essa repetição martela a ideia central de que a mudança ocorreu em múltiplos aspectos. O próprio orador usa o verbo "mudou" seis vezes em sequência. Assim, essa alternativa descreve exatamente o recurso predominante.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Interpelar o público para que ele se sinta ligado ao tema, por meio de apóstrofes, interjeições, questões retóricas e perífrases."
O discurso não contém interjeições, questões retóricas (não há perguntas) nem perífrases. A única forma de interpelação é o tratamento "Senhoras e senhores constituintes", mas isso não configura apóstrofe no sentido de chamamento emocional constante. O orador não busca engajar o público por meio desses recursos, mas sim pela força da repetição.
Conclusão: O único conselho que encontra predominância no texto é o da alternativa D: o emprego de repetições e anáforas para enfatizar a ideia de mudança.