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Questão de Português — Flexão de voz (ativa, passiva, reflexiva) — FGV 2022

PortuguêsFlexão de voz (ativa, passiva, reflexiva)
Código
fg056211
Banca
FGV
Órgão
TJ-GO
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Juiz Leigo

Literatura e justiça


Clarice Lispector



Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.

A frase abaixo (retirada do texto) que pode ser modificada para a voz passiva, é:
  1. AAproveitei a crista da onda;
  2. BO sentimento de justiça nunca foi procura em mim;
  3. CSe bem que a luta pela justiça leva à política;
  4. Dainda que a incapacidade me doa;
  5. Eem Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Aproveitei a crista da onda;

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Voz passiva – identificação de frase viável

Gabarito: letra A. A única frase que apresenta um verbo transitivo direto (VTD) acompanhado de objeto direto, condição indispensável para a transposição para a voz passiva. As demais alternativas contêm verbos de ligação, intransitivos ou transitivos indiretos, que não admitem passiva.

Condição para voz passiva
  • 1Verbo transitivo direto (VTD)
    • Objeto direto (sem preposição)
  • 2Verbos que NÃO admitem passiva
    • Verbo de ligação (ser, estar, permanecer)
    • Verbo intransitivo (dormir, nascer, doer)
    • Verbo transitivo indireto (VTI)
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Análise de cada alternativa

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Aproveitei a crista da onda”

O verbo aproveitei é VTD (aproveitar algo). O termo a crista da onda é objeto direto. Logo, pode-se reescrever na voz passiva analítica: A crista da onda foi aproveitada por mim. Também é possível a passiva sintética: Aproveitou-se a crista da onda.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“O sentimento de justiça nunca foi procura em mim”

O verbo foi é de ligação (ser). O termo procura é predicativo do sujeito, e não objeto direto. Não há ação verbal recaindo sobre um complemento; trata‑se de uma estrutura predicativa, que não comporta passiva.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“Se bem que a luta pela justiça leva à política”

O verbo leva exige preposição a (levar a algo), sendo transitivo indireto (VTI). O complemento à política é objeto indireto. A voz passiva requer objeto direto; VTI não forma passiva a não ser que tenha dupla transitividade com objeto direto, o que não ocorre aqui.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“ainda que a incapacidade me doa”

O verbo doa (doer) é intransitivo; me é objeto indireto (pronome oblíquo átono com função de complemento indireto). Não há objeto direto, portanto impossível passivar.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim”

Novamente o verbo foram (ser) é de ligação, e a primeira verdade é predicativo do sujeito. Estrutura de predicativo, sem objeto direto.

Dica de método

PEGA ESSA DICA!

Para saber se uma frase admite passiva, identifique o verbo e verifique se ele rege um complemento sem preposição (objeto direto). Se sim, pode ser passivado. Verbos de ligação (ser, estar, permanecer etc.) e intransitivos (dormir, nascer, doer etc.) nunca geram passiva.

Conclusão: A única alternativa que atende aos requisitos gramaticais é a letra A.

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