Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Sintaxe — FGV 2022

PortuguêsSintaxe
Código
fg056215
Banca
FGV
Órgão
TJ-GO
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Juiz Leigo

Literatura e justiça


Clarice Lispector



Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.

“Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo ‘literário’ (isto é, transformado na veemência da arte) da ‘coisa social’.”Nesse período do texto, a oração reduzida “eu não saber” pode ser adequadamente substituída pela seguinte oração desenvolvida:
  1. Aque eu não sabia;
  2. Bque eu não tivesse sabido;
  3. Cque eu não soubesse;
  4. Dque eu não soube;
  5. Eque eu não saiba.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — que eu não saiba.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição de oração reduzida de infinitivo por desenvolvida (subordinada substantiva)

Gabarito: letra E. A oração reduzida "eu não saber" deve ser substituída por "que eu não saiba" (presente do subjuntivo), pois o verbo "perdoar" exige subjuntivo e há simultaneidade com o presente do indicativo da oração principal ("é perdoar").

No trecho do texto: "minha tolerância... é perdoar eu não saber como me aproximar...", a oração "eu não saber" é uma subordinada substantiva objetiva direta (complemento de "perdoar") na forma reduzida de infinitivo. Para desenvolvê-la, é preciso introduzir a conjunção integrante "que" e flexionar o verbo no modo e tempo adequados.

O verbo "perdoar" rege subjuntivo: perdoa-se que alguém faça/não faça algo. O sentido é de uma ação presente (não saber) concomitante ao ato de perdoar (também presente). Logo, o tempo correto é o presente do subjuntivo: "que eu não saiba".

Alternativa A — ❌ Incorreta

"que eu não sabia" — pretérito imperfeito do indicativo. O verbo "perdoar" não admite indicativo nesse contexto; além disso, o imperfeito indicaria ação passada habitual, e não presente.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"que eu não tivesse sabido" — pretérito mais-que-perfeito composto do subjuntivo. Expressa ação passada anterior a outra passada, inadequada para a simultaneidade presente exigida.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"que eu não soubesse" — pretérito imperfeito do subjuntivo. Embora o subjuntivo esteja correto, o tempo imperfeito remete a passado ou hipótese, não ao presente atual do texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"que eu não soube" — pretérito perfeito do indicativo. Modo inadequado (indicativo) e tempo passado pontual, incompatível com o presente generalizante do texto.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"que eu não saiba" — presente do subjuntivo. Mantém a simultaneidade com o presente da principal e respeita a regência de "perdoar" (subjuntivo). A substituição preserva o sentido original: a tolerância é perdoar o fato de que agora a autora não sabe como abordar literariamente o social.

PEGA ESSA DICA!

Sempre que uma oração reduzida de infinitivo complementar um verbo, pergunte-se: "esse verbo principal exige subjuntivo ou indicativo?" Verbos como perdoar, querer, esperar, desejar, pedir pedem subjuntivo. Depois, verifique a simultaneidade: presente do subjuntivo para ações presentes, imperfeito para passadas.

Gabarito: letra E.

Link permanente: /questoes/fg056215