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Questão de Português — Interpretação de Textos — FGV 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fg056216
Banca
FGV
Órgão
TJ-GO
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Juiz Leigo

Literatura e justiça


Clarice Lispector



Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.

“Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também.”Essa primeira frase do texto poderia ser reescrita de forma mais adequada do seguinte modo:
  1. AHoje, de repente, como num verdadeiro achado, de minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;
  2. BHoje, de repente, como num achado verdadeiro, minha tolerância para com os outros também sobrou um pouco para mim;
  3. CDe repente, hoje, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;
  4. DComo num verdadeiro achado, hoje, de repente, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;
  5. EHoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros para mim sobrou um pouco também.
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GabaritoA — Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, de minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;

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Reescrita da primeira frase — adequação gramatical e semântica

Gabarito: letra A. A alternativa A é a única que reescreve a frase original preservando o sentido e utilizando uma construção partitiva mais natural e clara, sem ambiguidades ou alterações indevidas na ordem dos termos.

Análise da frase original

“Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também.”

Note que o sujeito é “minha tolerância” e o verbo “sobrou” é intransitivo, com o complemento “um pouco para mim”. Há uma leve personificação: a tolerância “sobra” (resta) para a autora. A estrutura, embora compreensível, pode ser melhorada com a partícula “de”, que indica a origem do que sobra (como em “sobrou um pouco do pão”).

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, de minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;

Essa reescrita emprega a preposição “de” para formar uma construção partitiva: “de minha tolerância sobrou um pouco” = “um pouco da minha tolerância sobrou”. Isso elimina a personificação, tornando a frase mais clara e gramaticalmente padrão. A ordem dos adjuntos adverbiais (“Hoje, de repente, como num verdadeiro achado”) é mantida, e “para mim também” permanece no final, semântica natural. É a reescrita mais adequada.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Hoje, de repente, como um achado verdadeiro, minha tolerância para com os outros também sobrou um pouco para mim;

A inversão de “verdadeiro achado” para “achado verdadeiro” é aceitável, mas o deslocamento de “também” para antes do verbo altera o escopo. No original, “também” incide sobre “para mim” (para mim também). Em B, “também sobrou” dá a entender que a tolerância também sobrou (além de outra coisa), o que é uma mudança sutil de sentido. Erro: alteração de foco semântico (generalização indevida).

Alternativa C — ❌ Incorreta

De repente, hoje, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;

A inversão da ordem dos advérbios (“De repente, hoje” em vez de “Hoje, de repente”) não é incorreta, mas a questão pede a reescrita “mais adequada”. A opção A é superior porque resolve a ambiguidade do sujeito. C não oferece melhoria; mantém a estrutura original. Embora gramatical, não é a “mais adequada” entre as opções. Erro: não é a melhor reescrita (afirmação incompleta).

Alternativa D — ❌ Incorreta

Como num verdadeiro achado, hoje, de repente, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também;

O deslocamento da expressão “Como num verdadeiro achado” para o início da frase quebra o fluxo natural e coloca ênfase excessiva nessa comparação, alterando a progressão temática do original. Erro: alteração na ordem dos constituintes que prejudica a coesão (troca de conceito).

Alternativa E — ❌ Incorreta

Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros para mim sobrou um pouco também;

A colocação de “para mim” logo após “outros” gera ambiguidade: pode-se ler “para com os outros para mim” como uma sequência confusa. O correto é manter “para mim” após o verbo ou no final. Essa reescrita torna a frase empolada e de difícil compreensão. Erro: sintaxe inadequada (falta de clareza).

Conclusão: A alternativa A é a única que utiliza a construção partitiva com “de”, tornando a frase mais clara e natural, sem alterar o sentido. As demais ou deslocam termos indevidamente (B, D, E) ou mantêm a estrutura original sem melhora (C). Portanto, Gabarito: letra A.

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