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Questão de Português — Sintaxe — FGV 2022

PortuguêsSintaxe
Código
fg056217
Banca
FGV
Órgão
TJ-GO
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Juiz Leigo

Literatura e justiça


Clarice Lispector



Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.

“Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria ‘fazer’ alguma coisa, como se escrever não fosse fazer.”

Nesse segmento do texto, a expressão sublinhada tem valor expressivo, com função de realce de algum termo ou ideia.

A frase abaixo em que essa expressão tem valor gramatical, fazendo parte da estrutura sintática da frase, é:
  1. AOs autores é que sabem o que escrever em seus livros;
  2. BA verdade é que os escritores se preocupam com o social;
  3. CAs preocupações sociais é que valorizam uma obra;
  4. DAutores como Clarice é que escrevem bem;
  5. EUm texto escrito é que pode envergonhar seu autor.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — A verdade é que os escritores se preocupam com o social;

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função gramatical vs. expressiva de "é que"

Gabarito: letra B. A única alternativa em que "é que" não tem valor expressivo (realce), mas sim valor gramatical, integrando a estrutura sintática como verbo da oração principal ("A verdade é que..."), é a letra B.

O enunciado pede para identificar, dentre as frases, aquela em que a expressão "é que" (igual à do texto de Clarice) não exerce função de realce, mas sim faz parte da estrutura sintática obrigatória. Para isso, o teste prático é retirar o "é que": se a frase perder o sentido ou ficar agramatical, então ele é parte da estrutura; se a frase continuar íntegra (apenas perdendo ênfase), o valor é expressivo.

PEGA ESSA DICA!

Ao se deparar com questões sobre "é que", aplique o teste da omissão: remova a expressão e veja se a frase ainda é gramatical e mantém a mesma estrutura essencial.

Alternativa

Frase original

Frase sem "é que"

Função do "é que"

Resultado

A

Os autores é que sabem...

Os autores sabem...

Expressiva (realce)

❌ Incorreta

B

A verdade é que os escritores...

A verdade os escritores... (agramatical)

Gramatical (estrutura sintática)

✅ Correta

C

As preocupações sociais é que valorizam...

As preocupações sociais valorizam...

Expressiva (realce)

❌ Incorreta

D

Autores como Clarice é que escrevem...

Autores como Clarice escrevem...

Expressiva (realce)

❌ Incorreta

E

Um texto escrito é que pode envergonhar...

Um texto escrito pode envergonhar...

Expressiva (realce)

❌ Incorreta

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Os autores é que sabem o que escrever em seus livros;"

  • Retirando "é que": "Os autores sabem o que escrever em seus livros." → Frase perfeitamente gramatical. A função de "é que" aqui é realçar o sujeito "os autores" (cleft sentence). Valor expressivo.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"A verdade é que os escritores se preocupam com o social;"

  • Retirando "é que": "A verdade os escritores se preocupam com o social" → Frase agramatical (falta verbo de ligação ou conectivo). Aqui, "é" é o verbo de ligação da oração principal (sujeito "a verdade"), e "que" introduz a oração subordinada substantiva predicativa. O conjunto "é que" é estrutura sintática obrigatória, sem valor de realce.

NÃO CAIA NESSA!

O candidato pode achar que "é que" de B também é enfático, mas a presença do sujeito "a verdade" antes do verbo "é" mostra que não há inversão enfática típica das clivadas.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"As preocupações sociais é que valorizam uma obra;"

  • Retirando "é que": "As preocupações sociais valorizam uma obra." → Frase normal. Valor expressivo (realce do sujeito).

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Autores como Clarice é que escrevem bem;"

  • Retirando "é que": "Autores como Clarice escrevem bem." → Frase normal. Valor expressivo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Um texto escrito é que pode envergonhar seu autor."

  • Retirando "é que": "Um texto escrito pode envergonhar seu autor." → Frase normal. Valor expressivo.

Conclusão: Apenas em B o "é que" integra a estrutura sintática como verbo principal seguido de conjunção integrante; nas demais, é partícula de realce (clivagem). Portanto, gabarito é a letra B.

NÃO CAIA NESSA!

Sujeito nunca tem preposição

Se um termo vem regido de preposição (de, em, a...), ele não é o sujeito da oração. Serve para não confundir sujeito com objeto/adjunto preposicionado.

— Sintaxe — identificação do sujeito

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