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Questão de Português — Pontuação — FGV 2022

PortuguêsPontuação
Código
fg056218
Banca
FGV
Órgão
TJ-GO
Ano
2022
Nível
Superior
Cargo
Juiz Leigo

Literatura e justiça


Clarice Lispector



Hoje, de repente, como num verdadeiro achado, minha tolerância para com os outros sobrou um pouco para mim também (por quanto tempo?). Aproveitei a crista da onda, para me pôr em dia com o perdão. Por exemplo, minha tolerância em relação a mim, como pessoa que escreve, é perdoar eu não saber como me aproximar de um modo “literário” (isto é, transformado na veemência da arte) da “coisa social”. Desde que me conheço o fato social teve em mim importância maior que qualquer outro: em Recife os mocambos foram a primeira verdade para mim. Muito antes de sentir “arte”, senti a beleza profunda da luta. Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria “fazer” alguma coisa, como se escrever não fosse fazer. O que não consigo é usar escrever para isso, ainda que a incapacidade me doa e me humilhe. O problema de justiça é em mim um sentimento tão óbvio e tão básico que não consigo me surpreender com ele – e, sem me surpreender, não consigo escrever. E também porque para mim escrever é procurar. O sentimento de justiça nunca foi procura em mim, nunca chegou a ser descoberta, e o que me espanta é que ele não seja igualmente óbvio em todos. Tenho consciência de estar simplificando primariamente o problema. Mas, por tolerância hoje para comigo, não estou me envergonhando totalmente de não contribuir para algo humano e social por meio do escrever. É que não se trata de querer, é questão de não poder. Do que me envergonho, sim, é de não “fazer”, de não contribuir com ações. (Se bem que a luta pela justiça leva à política, e eu ignorantemente me perderia nos meandros dela.) Disso me envergonharei sempre. E nem sequer pretendo me penitenciar. Não quero, por meios indiretos e escusos, conseguir de mim a minha absolvição. Disso quero continuar envergonhada. Mas, de escrever o que escrevo, não me envergonho: sinto que, se eu me envergonhasse, estaria pecando por orgulho.

“Mas é que tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria ‘fazer’ alguma coisa, como se escrever não fosse fazer.”Nesse segmento do texto, o termo “fazer” aparece entre aspas para indicar que:
  1. Ao vocábulo está empregado em sentido irônico;
  2. Ba ação de fazer se opõe à de escrever;
  3. Co fazer, nesse caso, é visto como algo simplório;
  4. Da crítica ao ato de escrever literatura é justa;
  5. Eo sentido do verbo se restringe a algo concreto.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — o sentido do verbo se restringe a algo concreto.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Uso de aspas em 'fazer' no texto de Clarice Lispector

Gabarito: letra E. As aspas na palavra 'fazer' indicam que o verbo é empregado em um sentido restrito e concreto, em contraposição ao ato de escrever, que a autora considera uma forma de 'fazer' mas que ela mesma distingue da ação prática.

A chave para entender a questão está no contexto. Clarice afirma:

"Do que me envergonho, sim, é de não 'fazer', de não contribuir com ações."

Aqui, 'fazer' aparece novamente entre aspas, sempre vinculado à ideia de ação concreta, material, em oposição à escrita. Ela diz que queria 'fazer' alguma coisa, 'como se escrever não fosse fazer' – ou seja, escrever também é uma forma de fazer, mas ela se refere a um tipo específico de fazer: o ato prático de contribuir com ações sociais. As aspas sinalizam esse deslocamento de sentido, restringindo o verbo a uma acepção mais limitada.

Vejamos cada alternativa:

Alternativa A — ❌ Incorreta

o vocábulo está empregado em sentido irônico;

Não há ironia. A autora expressa um lamento sincero: "Do que me envergonho, sim, é de não 'fazer'...". O tom é de reconhecimento de uma limitação, não de sarcasmo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

a ação de fazer se opõe à de escrever;

De fato, no texto há uma oposição entre 'fazer' (ação concreta) e escrever. Porém, as aspas não servem primariamente para marcar oposição; elas servem para delimitar o sentido da palavra. A oposição é consequência do sentido restrito, não a função das aspas.

Alternativa C — ❌ Incorreta

o fazer, nesse caso, é visto como algo simplório;

O advérbio 'simplório' qualifica o 'modo' de se aproximar do fato social, não o ato de fazer. Diz: "tenho um modo simplório de me aproximar do fato social: eu queria 'fazer' alguma coisa". O simplório é a maneira de abordar, não o 'fazer' em si.

Alternativa D — ❌ Incorreta

a crítica ao ato de escrever literatura é justa;

A autora não julga a justiça da crítica; ela apenas constata sua própria dificuldade. Não há avaliação de 'justiça' nesse trecho.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

o sentido do verbo se restringe a algo concreto.

Exato. As aspas isolam 'fazer' para significar exclusivamente a ação prática, material, em contraste com a escrita, que também é uma ação mas não é abrangida por esse 'fazer' específico. O trecho citado acima comprova: 'fazer' equivale a 'contribuir com ações'.

PEGA ESSA DICA!

Aspas podem ter várias funções: citação, destaque, ironia, neologismo, estrangeirismo, e também restrição de sentido. Sempre volte ao contexto para identificar qual função está sendo exercida.

Gabarito: letra E

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