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Questão de Português — Interpretação de Textos — FGV 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fg058677
Banca
FGV
Órgão
TCE-TO
Ano
2022
Nível
Superior
Texto 1

Z de depressão (fragmento)

     “Quando o sol nasce em Minas Gerais, Caio está em seu quarto. Ao cair da noite, também é lá que o rapaz fica, isolado. Ele tem 21 anos e mora em Luz, cidade mineira de pouco mais de 18 mil habitantes. Até os 8 anos, levou a vida tranquila de alguém que cresce numa cidade pequena. Mas então um dos seus tios se matou, e o menino foi se tornando cada vez mais triste. Virou alvo de bullying na escola, perdeu os amigos – ‘não sobrou ninguém’, ele conta. Aos 10 anos, tentou suicídio e precisou ser internado às pressas. [...]
    Na adolescência, Caio identificou que era um homem transgênero, e sua sensação de isolamento só cresceu. Com o agravamento do quadro depressivo, foi levado ao hospital algumas vezes depois de se automutilar. Embora os médicos tenham recomendado, ele nunca tratou a depressão por um longo período de tempo. Cresceu encontrando pequenos alívios para a angústia: cachorros, namoradas, bebidas alcoólicas, cortes nos braços. Conseguiu terminar o ensino médio, mas não teve motivação para prestar vestibular ou trabalhar. [...]
     Caio representa uma história, mas não a única, de um quadro de adoecimento mental de crianças e jovens brasileiros, com casos repetidos de depressão, ansiedade e síndrome do pânico. [...] Em um Boletim Epidemiológico divulgado setembro passado, o Ministério da Saúde apontava que as taxas de suicídio saltaram 116% entre crianças e adolescentes de 5 a 14 anos no intervalo de 2010 a 2019; nos jovens de 15 a 19 anos, o aumento foi de 81%. Nas demais faixas etárias, a taxa não cresceu mais que 30%. Os dados levaram o governo federal a classificar o suicídio como ‘um problema de saúde pública crescente no Brasil, com destaque aos grupos etários mais jovens’.
        [...]
      Entre junho e novembro de 2020, [Guilherme] Polanczyk e outros pesquisadores da USP e do Hospital das Clínicas entrevistaram remotamente 5.795 crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos de todas as regiões do país para medir os efeitos da pandemia sobre a saúde mental deles. No segundo semestre do primeiro ano de isolamento, 36% apresentaram sintomas de depressão e ansiedade. Como as escolas estavam fechadas e seria perigoso realizar as entrevistas presencialmente, só participaram aqueles com conexão à internet. ‘A gente sabe que os dados da pesquisa não refletem a realidade das crianças e dos adolescentes mais pobres’, Polanczyk diz. Ainda assim, os resultados indicaram que a insegurança alimentar esteve associada a maiores níveis de ansiedade e a sintomas depressivos. [...]
        [...]
     O Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde não aponta causas exatas do sofrimento mental dos jovens brasileiros, mas dá a entender que certas particularidades ajudariam a explicar o aumento das taxas de suicídio juvenil. Com base em estudos americanos, menciona que a geração Z, formada por nascidos a partir de 1995, está mais propensa a ter depressão por ser menos resiliente e não saber lidar com frustrações. [...]
        [...]” 

Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/z-de-depressao/.
Acesso em: 22/07/2022


Texto 2

A nova era do divórcio (fragmento)

      “‘Novelas da Globo aumentam o número de divórcios no Brasil.’ Parece fake news de haters, mas não. Trata-se de um dado histórico. A conclusão é de um estudo de 2009, feito pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A pesquisa fez um cruzamento entre informações de censos das décadas de 1970, 1980 e 1990 e dados sobre a expansão do sinal da Globo no país. Segundo os autores do estudo, o número de mulheres que se separaram aumentou conforme a teledramaturgia da emissora foi chegando a mais cidades.
     ‘A exposição a estilos de vida modernos mostrados na TV, a funções desempenhadas por mulheres emancipadas e a uma crítica aos valores tradicionais mostrou estar associada aos aumentos nas frações de mulheres separadas e divorciadas nas áreas municipais brasileiras’, diz a pesquisa. [...]
     O que os estudiosos do BID não poderiam prever é o quanto os divórcios aumentariam no Brasil do século 21, por um motivo ainda mais insuspeito: a disseminação de um vírus.
     Segundo o Colégio Notarial do Brasil, que congrega os tabeliães de notas e protestos, no primeiro ano da pandemia, em 2020, houve um aumento de 15% no número de divórcios em comparação com o ano anterior. Em 2021, então, o número de casais que oficializaram a separação bateu recorde: 80.573 divórcios consensuais, o maior da série histórica, que é registrada desde 2007.
       [...]
     Sim, o início desnorteante da pandemia foi o gatilho para um boom de divórcios planeta afora. Motivos para a escalada nas tensões entre casais não faltaram, você sabe: o encarceramento no lar de ambos os cônjuges (condição que se estendeu indefinidamente para quem aderiu ao home office), perrengues financeiros, a necessidade de lidar com as crianças estudando em casa, distúrbios psicológicos (ansiedade, depressão, paranoia…).
[...]
    A [empresa americana] Legal Templates mostrou que os casados há menos de cinco anos foram os que mais se separaram em 2020: 58%. Aliás, quanto menor o tempo de união oficial, maior o aumento no índice de cada um para o seu lado. Enquanto, em 2019, pré-Covid, apenas 11% dos que se separaram tinham menos de cinco meses sob o mesmo teto, em 2020 essa porcentagem quase dobrou: foi para 20%.
       Estudiosos que analisaram esses dados chegaram a uma conclusão que faz sentido: casais que haviam se unido havia pouco tempo são menos calejados para enfrentar o maremoto que atingiu a praia conjugal na onda do vírus. Os parceiros mais longevos já tinham passado por outras crises. Talvez ilesos, talvez feridos. E muitos aprenderam a sair delas juntos.
[...]
        Nesta nova era do divórcio, vale um alerta: mesmo nas separações mais amigáveis – e até afetuosas –, romper um relacionamento de anos segue sendo tão difícil quanto sempre foi. Os primeiros tempos tendem a ser um período deprimente, de luto mesmo, acordos difíceis e de pisar em ovos. Se você se separou, vale a pena um esforço a mais para manter o bom convívio. Não apenas pelo bem dos filhos – se o casamento produziu crianças. É importante honrar uma história que, em boa parte do tempo, foi partilhada com a pessoa que um dia você amou como se fosse a única.” 

Disponível em: https://super.abril.com.br/comportamento/a-nova-era-do-divorcio.
Acesso em: 24/07/2022
Embora tanto o texto 1 quanto o texto 2 pertençam ao gênero textual reportagem, o segundo exibe uma linguagem mais informal que o primeiro.Essa maior informalidade é evidenciada pela presença, no texto 2, de:
  1. Aestrangeirismos recentes e marcas de interlocução direta;
  2. Borações subordinadas adjetivas e discurso indireto livre;
  3. Cgírias associadas à fala jovem e paralelismos sintáticos;
  4. Dfrases nominais e abreviações;
  5. Eregionalismos e verbos impessoais.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — estrangeirismos recentes e marcas de interlocução direta;

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Marcas de informalidade no texto 2 (reportagem sobre divórcio)

Gabarito: letra A. O texto 2 exibe linguagem mais informal que o texto 1, e essa informalidade é comprovada pela presença de estrangeirismos recentes (como fake news, haters, home office, boom) e marcas de interlocução direta (como você sabe, sim, perguntas retóricas dirigidas ao leitor). Esses elementos são evidentes no fragmento e não aparecem no texto 1 (que mantém tom mais impessoal e formal).


Análise do comando

A questão pede que se identifiquem evidências textuais da maior informalidade do texto 2. A pegadinha comum é confundir informalidade com qualquer recurso linguístico raro (como orações adjetivas, discurso indireto livre, paralelismos, etc.), mas esses não são marcas de informalidade per se nem estão especificamente presentes como traços predominantes no texto 2.


Marcas de informalidade
  • 1Estrangeirismos recentes
    • fake news
    • haters
    • home office
    • boom
  • 2Marcas de interlocução direta
    • "você sabe"
    • "sim" (resposta)
    • Perguntas retóricas ao leitor
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O texto 2 emprega estrangeirismos recentes (anglicismos como fake news, haters, home office, boom) e marcas de interlocução direta (uso de você sabe, sim em resposta, perguntas como “Motivos para a escalada nas tensões entre casais não faltaram, você sabe”). Esses recursos são típicos de uma linguagem mais informal e coloquial, em contraste com o texto 1, que mantém distanciamento e formalidade.

“Parece fake news de haters, mas não.” / “Sim, o início desnorteante da pandemia foi o gatilho…” / “Motivos para a escalada nas tensões entre casais não faltaram, você sabe.”


Alternativa B — ❌ Incorreta

Orações subordinadas adjetivas e discurso indireto livre são estruturas sintáticas que podem aparecer em registros formais e informais. No texto 2, não há predomínio de discurso indireto livre (que mistura vozes) nem orações adjetivas que sejam marcadores de informalidade. A banca troca conceito: esses recursos são neutros quanto ao grau de formalidade.


Alternativa C — ❌ Incorreta

Gírias associadas à fala jovem e paralelismos sintáticos não são identificados como traços marcantes no texto 2. A linguagem do texto 2 é coloquial, mas não juvenil (ex.: “perrengues financeiros” é expressão usual, não gíria jovem). Paralelismos sintáticos são recursos de ênfase, não de informalidade. A alternativa extrapola ou generaliza a noção de informalidade.


Alternativa D — ❌ Incorreta

Frases nominais e abreviações não ocorrem de forma significativa no texto 2. O texto é composto predominantemente por frases verbais completas. Não há abreviações como “vc”, “pq”, etc. A alternativa contradiz o texto: esses elementos estão ausentes.


Alternativa E — ❌ Incorreta

Regionalismos e verbos impessoais não são marcas de informalidade nem estão presentes no texto 2. Não há vocabular regional (como “uai”, “trem”) e verbos impessoais (ex.: “há”, “faz”) são neutros. A alternativa tangencia o que define informalidade no texto.


NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre “informalidade” e qualquer recurso linguístico menos comum. Candidatos podem achar que “orações subordinadas adjetivas” ou “paralelismos” são marcas de informalidade, mas esses são elementos estilísticos que podem aparecer em qualquer registro. A chave é observar o léxico (estrangeirismos recentes) e a interação direta com o leitor.


Gabarito: letra A.

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