Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FGV 2023
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
fg061715
Banca
FGV
Órgão
Câmara dos Deputados
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Analista Legislativo - Médico - Área: Cardiologia - Tarde
Em relação aos padrões reversíveis de disfunção isquêmica, que podem ocorrer em segmentos de miocárdio viável, analise as afirmativas a seguir.I. Por definição, no miocárdico atordoado pós-isquêmico o fluxo coronariano ainda se encontra significativamente reduzido.II. No miocárdio hibernante resultante de isquemia crônica, há graus variáveis de melhora funcional após restabelecimento do fluxo coronariano.III. A recuperação funcional após a revascularização de um segmento miocárdico hibernante pode ocorrer em até 12 meses.Está correto o que se afirma em
AII e III, apenas.
BI e III, apenas.
CI e II, apenas.
DII, apenas.
EI, apenas.
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GabaritoA — II e III, apenas.
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Padrões reversíveis de disfunção isquêmica: miocárdio atordoado e hibernante
Gabarito: letra A. Estão corretas as afirmativas II e III. O miocárdio hibernante, resultante de isquemia crônica, apresenta melhora funcional após o restabelecimento do fluxo coronariano (afirmativa II), e essa recuperação pode ocorrer em até 12 meses após a revascularização (afirmativa III). A afirmativa I está incorreta porque, por definição, no miocárdio atordoado pós-isquêmico o fluxo coronariano já está restabelecido (normal ou quase normal), sendo a disfunção contrátil persistente apesar da reperfusão.
O conceito central aqui é a distinção entre dois padrões de disfunção miocárdica reversível que ocorrem em segmentos viáveis: o miocárdio atordoado (stunned myocardium) e o miocárdio hibernante (hibernating myocardium). Ambos representam estados de disfunção contrátil que podem se recuperar, mas com fisiopatologias e cronologias distintas.
O miocárdio atordoado é uma disfunção contrátil pós-isquêmica que persiste mesmo após a restauração do fluxo sanguíneo. Ou seja, ocorre após um evento isquêmico agudo (como um infarto ou uma angioplastia), e o fluxo coronariano já foi restabelecido, mas a função contrátil do segmento permanece deprimida por um período variável. A palavra-chave é "pós-isquêmico": a isquemia já passou, o fluxo voltou, mas o miocárdio ainda não se recuperou. Isso contraria diretamente a afirmativa I, que diz que o fluxo ainda está "significativamente reduzido" — na verdade, o fluxo está normal ou quase normal.
O miocárdio hibernante, por sua vez, é uma disfunção contrátil crônica resultante de isquemia crônica (geralmente por doença arterial coronariana obstrutiva grave). O miocárdio "hiberna" — reduz sua contratilidade para diminuir o consumo de oxigênio e sobreviver à redução crônica do fluxo. Quando o fluxo é restabelecido (por revascularização cirúrgica ou percutânea), o miocárdio pode recuperar sua função, e essa recuperação pode ser gradual, ocorrendo em semanas a meses — em até 12 meses, como afirma a afirmativa III.
A distinção fundamental entre os dois padrões é o status do fluxo coronariano no momento da avaliação:
Característica
Miocárdio Atordoado
Miocárdio Hibernante
Fluxo coronariano
Restabelecido (normal ou quase normal)
Reduzido (isquemia crônica)
Temporalidade
Aguda (pós-isquêmica)
Crônica
Mecanismo
Disfunção contrátil após reperfusão
Adaptação à isquemia crônica
Recuperação
Espontânea, em dias a semanas
Após revascularização, em semanas a meses (até 12 meses)
A banca explora exatamente essa confusão: a afirmativa I inverte o conceito, atribuindo ao miocárdio atordoado a característica de fluxo reduzido, que é própria do miocárdio hibernante. É uma pegadinha clássica de troca de conceitos entre dois institutos que o candidato precisa diferenciar.
Guarde a fronteira: atordoado = fluxo restabelecido, disfunção pós-isquêmica; hibernante = fluxo reduzido, disfunção por isquemia crônica. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Disfunção isquêmica reversível
1Miocárdio atordoado
Pós-isquêmico agudo
Fluxo restabelecido
Recuperação espontânea
2Miocárdio hibernante
Isquemia crônica
Fluxo reduzido
Recuperação após revascularização (até 12 meses)
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Item I — ❌ Incorreto
A afirmativa afirma que, no miocárdio atordoado pós-isquêmico, o fluxo coronariano ainda se encontra significativamente reduzido. Isso é incorreto: por definição, o miocárdio atordoado é a disfunção contrátil que persiste após a restauração do fluxo. O fluxo já foi restabelecido (normal ou quase normal), mas a função contrátil ainda está deprimida. A característica de fluxo reduzido é do miocárdio hibernante, não do atordoado. A banca inverteu os conceitos.
Item II — ✅ Correto
A afirmativa está correta. O miocárdio hibernante é resultado de isquemia crônica, e a melhora funcional após o restabelecimento do fluxo coronariano é a característica definidora desse padrão. A revascularização (cirúrgica ou percutânea) permite que o miocárdio hibernante recupere sua contratilidade, com graus variáveis de melhora dependendo da extensão e da duração da isquemia.
Item III — ✅ Correto
A afirmativa está correta. A recuperação funcional do miocárdio hibernante após a revascularização pode ser gradual, ocorrendo em semanas a meses. A literatura médica reconhece que essa recuperação pode ocorrer em até 12 meses após o procedimento de revascularização. É um prazo que o candidato deve memorizar.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar miocárdio atordoado de hibernante, pergunte-se: "o fluxo está normal ou reduzido?" Se o fluxo está restabelecido e a disfunção é pós-isquêmica → atordoado. Se o fluxo está reduzido por isquemia crônica → hibernante. Essa é a chave para resolver questões sobre o tema.
Conclusão: Corretos os itens II e III → portanto, a alternativa é a letra A.