Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FGV 2023
- Código
- fg064206
- Banca
- FGV
- Órgão
- FHEMIG
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Anestesiologia
- Aceratocone.
- Bcatarata.
- Cestrabismo convergente.
- Dglaucoma.
- Emiopia de alto grau.
GabaritoD — glaucoma.
Gabarito: letra D. O glaucoma é a alteração oftalmológica que mais impacta o transcurso anestésico, pois o paciente costuma fazer uso crônico de colírios betabloqueadores (como maleato de timolol) e inibidores da anidrase carbônica (como dorzolamida), que podem ser absorvidos sistemicamente e interferir na anestesia — por exemplo, potencializando a bradicardia e a hipotensão induzidas pelos agentes anestésicos. As demais opções (ceratocone, catarata, estrabismo convergente e miopia de alto grau) não implicam, em regra, uso de medicação sistêmica relevante para o ato anestésico.
A avaliação pré-anestésica é o alicerce da segurança perioperatória. Ela deve mapear comorbidades, medicações em uso, cirurgias prévias, condições das vias aéreas e exames complementares. O enunciado chama atenção para um ponto frequentemente negligenciado: as doenças oftalmológicas. Muitas delas não têm repercussão sistêmica, mas o glaucoma é a exceção clássica — não pela doença em si, mas pelo tratamento.
O glaucoma é uma neuropatia óptica progressiva, geralmente associada ao aumento da pressão intraocular. O tratamento clínico visa reduzir essa pressão, e as principais classes farmacológicas são:
Betabloqueadores tópicos (timolol, betaxolol): reduzem a produção de humor aquoso. A absorção sistêmica pode causar bradicardia, broncoespasmo e mascaramento de hipoglicemia.
Inibidores da anidrase carbônica (dorzolamida, brinzolamida): também reduzem a produção de humor aquoso; sistemicamente, podem causar acidose metabólica e hipocalemia.
Análogos de prostaglandinas (latanoprosta): aumentam o escoamento do humor aquoso; têm menos efeitos sistêmicos.
Agonistas alfa-2 (brimonidina) e parassimpatomiméticos (pilocarpina): podem causar hipotensão e bradicardia.
Na prática, o anestesiologista deve:
Perguntar sobre uso de colírios — muitos pacientes não os mencionam espontaneamente, pois não os consideram "medicamentos".
Verificar a dose e a frequência — o uso crônico de betabloqueador tópico pode levar a dessensibilização dos receptores, mas ainda assim há risco de bradicardia intraoperatória.
Considerar a interação com anestésicos — por exemplo, a associação com opioides ou agentes halogenados pode potencializar a depressão cardiovascular.
Manter a medicação no perioperatório — a suspensão abrupta pode causar pico de pressão intraocular, o que é especialmente perigoso em cirurgias oculares, mas também relevante em outras cirurgias.
As demais alterações listadas não têm, em regra, tratamento farmacológico sistêmico que interfira na anestesia:
Ceratocone: doença ectásica da córnea; tratamento com lentes de contato ou crosslinking; sem medicação sistêmica.
Catarata: opacificação do cristalino; tratamento cirúrgico; sem medicação sistêmica crônica.
Estrabismo convergente: desalinhamento ocular; tratamento com óculos, oclusão ou cirurgia; sem medicação sistêmica.
Miopia de alto grau: erro refrativo; correção com óculos ou lentes; sem medicação sistêmica.
A pegadinha da banca está em associar "alteração oftalmológica" a "medicação que interfere na anestesia". O candidato pode pensar em catarata (cirurgia frequente) ou miopia (muito comum), mas a única que exige tratamento farmacológico contínuo com potencial sistêmico é o glaucoma.
A banca explora a confusão entre "doença ocular comum" e "doença ocular com tratamento farmacológico sistêmico relevante". Catarata e miopia são comuns, mas não têm medicação crônica; o glaucoma, sim. Lembre-se: colírios de betabloqueador são absorvidos pela mucosa nasal e podem causar efeitos sistêmicos — essa é a chave da questão.
O ceratocone é uma ectasia corneana progressiva, tratada com lentes de contato especiais, crosslinking de colágeno ou, em casos avançados, transplante de córnea. Não há uso crônico de medicação sistêmica que interfira na anestesia. O erro da alternativa é sugerir que essa condição exigiria ajustes anestésicos por medicação, o que não ocorre.
A catarata é a opacificação do cristalino, tratada cirurgicamente (facoemulsificação com implante de lente intraocular). Não há tratamento farmacológico crônico para catarata; portanto, não interfere na anestesia por via medicamentosa. A confusão pode surgir porque a cirurgia de catarata é comum em idosos, mas a doença em si não altera a conduta anestésica.
O estrabismo convergente é um desalinhamento ocular, comum na infância, tratado com óculos, oclusão, toxina botulínica ou cirurgia. Não há medicação sistêmica crônica relevante para a anestesia. A toxina botulínica, quando usada, é aplicada localmente e não tem efeito sistêmico significativo.
O glaucoma é a única condição listada que exige tratamento farmacológico contínuo com potencial de absorção sistêmica. Os colírios betabloqueadores (timolol) e inibidores da anidrase carbônica (dorzolamida) podem causar bradicardia, hipotensão, broncoespasmo e distúrbios eletrolíticos, interferindo diretamente na anestesia. O anestesiologista deve estar atento a essas medicações e considerar suas interações com os agentes anestésicos.
A miopia de alto grau é um erro refrativo, corrigido com óculos ou lentes de contato. Não há medicação sistêmica crônica associada. A confusão pode ocorrer porque a miopia é muito prevalente, mas não tem implicação farmacológica para a anestesia.
Gabarito: letra D — o glaucoma é a alteração oftalmológica cujo tratamento (colírios com absorção sistêmica) pode interferir no transcurso da anestesia.
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