Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FGV 2023
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
fg064217
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cardiologia
Homem, 78 anos, com história de hipertensão arterial e insuficiência renal crônica, apresenta-se com dispneia progressiva ao esforço, além de episódios de síncope após estresse emocional e lipotímia ao se levantar rapidamente da cama.Eletrocardiograma demonstra fibrilação atrial e complexo QRS de baixa amplitude.Ecocardiograma transtorácico com aumento da espessura das paredes ventriculares, dilatação dos átrios e espessamento do septo interatrial. Disfunção biventricular. Válvulas cardíacas espessadas, mas normofuncionantes.Realizou Ressonância Magnética Cardíaca com as seguintes imagens e padrão de realce tardio:A partir do quadro clínico acima, o diagnóstico mais provável é
ADoença de Fabry.
BCardiomiopatia hipertrófica.
CSarcoidose.
DEndomiocardiofibrose.
EAmiloidose.
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GabaritoE — Amiloidose.
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Amiloidose cardíaca: diagnóstico diferencial das miocardiopatias infiltrativas
Gabarito: letra E. O quadro clínico — idoso com insuficiência renal crônica, dispneia progressiva, síncope, fibrilação atrial, baixa voltagem do QRS no ECG, espessamento das paredes ventriculares e do septo interatrial no ecocardiograma — é altamente sugestivo de amiloidose cardíaca, especialmente quando a ressonância magnética mostra padrão de realce tardio compatível. A combinação de baixa voltagem no ECG com espessamento ventricular no ecocardiograma é a pista clássica que separa a amiloidose das demais causas de hipertrofia ventricular.
A amiloidose cardíaca é uma doença infiltrativa em que proteínas amiloides se depositam no interstício miocárdico, causando espessamento das paredes ventriculares (que na verdade é pseudo-hipertrofia, pois o aumento de espessura se deve à infiltração, não à hipertrofia dos miócitos). Esse depósito torna o ventrículo rígido, com padrão restritivo de enchimento, levando a disfunção diastólica e, posteriormente, sistólica. O espessamento do septo interatrial é um achado ecocardiográfico bastante específico da amiloidose, assim como o padrão de realce tardio subendocárdico difuso ou transmural na ressonância magnética. A baixa voltagem do QRS no ECG ocorre porque o tecido amiloide "isola" eletricamente o miocárdio, reduzindo a amplitude dos potenciais gerados — um contraste marcante com a cardiomiopatia hipertrófica, em que o QRS costuma estar amplo (sobrecarga ventricular).
A doença de Fabry, por sua vez, é uma doença de armazenamento lisossômico ligada ao cromossomo X, que também causa espessamento ventricular, mas com características distintas: costuma manifestar-se em homens mais jovens, com acroparestesias, angioqueratomas, hipoidrose e, no ECG, sinais de hipertrofia (QRS amplo), não baixa voltagem. A cardiomiopatia hipertrófica (CMH) é uma doença genética do sarcômero, com hipertrofia assimétrica (frequentemente do septo basal), e no ECG apresenta ondas R amplas e ondas Q patológicas — não baixa voltagem. A sarcoidose cardíaca pode causar espessamento e disfunção, mas o padrão típico de realce tardio na RM é basal-septal e epicárdico, além de frequentemente cursar com bloqueios de condução (especialmente bloqueio de ramo direito) e arritmias ventriculares. A endomiocardiofibrose é uma forma de miocardiopatia restritiva endomiocárdica, mais comum em regiões tropicais, com fibrose do endocárdio e frequentemente associada à síndrome hipereosinofílica; o espessamento do septo interatrial e o padrão de realce tardio difuso não são características.
A chave para diferenciar essas doenças está na combinação de achados: baixa voltagem no ECG + espessamento ventricular no ecocardiograma + espessamento do septo interatrial + padrão de realce tardio difuso na RM apontam fortemente para amiloidose. Esse é o critério que vamos aplicar a cada alternativa.
A doença de Fabry é uma esfingolipidose ligada ao X que também causa espessamento ventricular, mas o ECG mostra hipertrofia (QRS amplo), não baixa voltagem. Além disso, o espessamento do septo interatrial e o padrão de realce tardio difuso são atípicos. A doença de Fabry costuma manifestar-se com acroparestesias, angioqueratomas e hipoidrose, ausentes no caso.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A cardiomiopatia hipertrófica (CMH) é uma doença genética do sarcômero com hipertrofia assimétrica, frequentemente do septo basal. No ECG, o padrão típico é de sobrecarga ventricular (ondas R amplas), não baixa voltagem. O espessamento do septo interatrial e o realce tardio difuso na RM não são características da CMH, que costuma apresentar realce tardio em áreas de fibrose focal, geralmente no septo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A sarcoidose cardíaca pode causar espessamento e disfunção ventricular, mas o padrão de realce tardio na RM é tipicamente basal-septal e epicárdico, não difuso subendocárdico. Além disso, a sarcoidose frequentemente cursa com bloqueios de condução (especialmente bloqueio de ramo direito) e arritmias ventriculares, e o espessamento do septo interatrial não é um achado típico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A endomiocardiofibrose é uma miocardiopatia restritiva endomiocárdica, mais comum em regiões tropicais, associada à síndrome hipereosinofílica. O espessamento do septo interatrial e o padrão de realce tardio difuso na RM não são características. A doença costuma cursar com fibrose do endocárdio, frequentemente com trombos apicais e regurgitação valvar, e o ECG pode mostrar baixa voltagem, mas o quadro clínico e os achados de imagem apontam para outra etiologia.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A amiloidose cardíaca é a doença infiltrativa que melhor explica o conjunto de achados: idoso com insuficiência renal crônica (a amiloidose pode acometer os rins), dispneia progressiva, síncope, fibrilação atrial, baixa voltagem do QRS no ECG, espessamento das paredes ventriculares e do septo interatrial no ecocardiograma, e padrão de realce tardio difuso na RM. O espessamento do septo interatrial é um sinal ecocardiográfico bastante específico da amiloidose, e a combinação de baixa voltagem com espessamento ventricular é a pista clássica que diferencia a amiloidose das demais causas de hipertrofia.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre as miocardiopatias infiltrativas e a cardiomiopatia hipertrófica. A chave é lembrar que, na amiloidose, o ECG mostra baixa voltagem (o amiloide "isola" eletricamente o miocárdio), enquanto na CMH e na doença de Fabry o QRS é amplo (hipertrofia verdadeira). Além disso, o espessamento do septo interatrial é um sinal ecocardiográfico específico da amiloidose. Com treino, você enxerga essas diferenças de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as causas de espessamento ventricular, monte um quadro mental com os achados de ECG e RM: