Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FGV 2023
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
fg064218
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cardiologia
Na figura a seguir temos o traçado eletrocardiográfico de paciente com marcapasso programado para VVI.BRAUNWALD. Marca-passos e Cardioversores-desfibriladores implantáveis, inTratado de Doenças Cardiovasculares. 9ª Ed., pg. 773.Assinale a opção que indica as alterações sinalizadas pela primeira marcação (um asterisco: *) e pela segunda marcação (dois asteriscos: **), respectivamente,
AUndersensing; falha de captura.
BOversensing; undersensing.
CFalha de captura; oversensing.
DOversensing; falha de captura.
EUndersensing; oversensing.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — Oversensing; falha de captura.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Disfunção de marcapasso: undersensing e falha de captura
Gabarito: letra D. A primeira marcação (*) indica oversensing — o marcapasso detecta um sinal que não é um evento cardíaco real (como uma onda T ou um potencial muscular), inibindo ou disparando inapropriadamente — e a segunda marcação () indica falha de captura — o estímulo é emitido, mas não despolariza o miocárdio, resultando em ausência de complexo QRS após o spike. A distinção entre os dois fenômenos é o coração da questão: oversensing é um problema de detecção (sensing), enquanto falha de captura é um problema de estimulação** (output).
Para entender a questão, é preciso dominar os dois conceitos fundamentais da função de um marcapasso: sensing (detecção) e captura (estimulação). O sensing é a capacidade do dispositivo de "enxergar" a atividade elétrica intrínseca do coração (ondas P e R) para decidir quando estimular. A captura é a capacidade de o estímulo elétrico gerado pelo marcapasso despolarizar efetivamente o miocárdio, produzindo uma contração. Quando qualquer um desses mecanismos falha, temos disfunções específicas.
O undersensing ocorre quando o marcapasso não detecta um evento cardíaco intrínseco que deveria detectar. Como consequência, ele emite um estímulo desnecessariamente, mesmo havendo atividade espontânea. No ECG, isso se manifesta como um spike (marca de estimulação) que aparece logo após uma onda R ou P intrínseca, sem necessidade — o dispositivo "compete" com o ritmo próprio do paciente.
O oversensing é o oposto: o marcapasso detecta um sinal que não é um evento cardíaco real — pode ser uma onda T, um potencial muscular (miopotencial), interferência eletromagnética ou até mesmo o próprio spike do eletrodo contralateral. Essa detecção espúria inibe a emissão do estímulo (no modo VVI, que é inibitório) ou dispara um estímulo inapropriado. No ECG, o oversensing se manifesta como uma pausa no ritmo de estimulação — o marcapasso "acha" que viu um batimento e não estimula, mas na verdade não houve batimento.
A falha de captura ocorre quando o marcapasso emite o estímulo (o spike está presente no traçado), mas o miocárdio não responde — não há despolarização ventricular, portanto não há complexo QRS após o spike. No ECG, vemos o spike seguido de uma linha isoelétrica (sem QRS), o que indica que a energia do estímulo foi insuficiente para ultrapassar o limiar de excitabilidade do miocárdio. As causas mais comuns são: deslocamento do eletrodo, aumento do limiar de estimulação (por fibrose, por exemplo), fratura do cabo, baixa voltagem programada ou distúrbios eletrolíticos (como hipercalemia).
A pegadinha clássica desta questão é confundir undersensing com oversensing. A banca troca os termos para testar se o candidato sabe a diferença entre "não detectar o que deveria" (undersensing) e "detectar o que não deveria" (oversensing). No traçado, a primeira marcação (*) aponta para uma pausa — o marcapasso deixa de estimular por um período, o que é típico de oversensing (o dispositivo foi inibido por um sinal espúrio). A segunda marcação () aponta para um spike sem QRS subsequente — falha de captura. Guarde a fronteira: undersensing = spike desnecessário após batimento intrínseco; oversensing = pausa na estimulação; falha de captura = spike sem QRS.** É exatamente nessa distinção que as alternativas se dividem.
Fenômeno
Definição
Manifestação no ECG
Undersensing
Marcapasso não detecta evento cardíaco intrínseco (onda P/R)
Spike desnecessário logo após batimento intrínseco (competição com o ritmo)
Pausa na estimulação (inibição inapropriada do dispositivo)
Falha de captura
Estímulo emitido, mas sem despolarização miocárdica
Spike presente, seguido de linha isoelétrica (sem QRS)
Disfunções de marcapasso
1Problema de detecção (sensing)
Undersensing
não detecta evento intrínseco
spike desnecessário após QRS/P
Oversensing
detecta sinal espúrio (onda T, miopotencial)
pausa na estimulação
2Problema de estimulação (output)
Falha de captura
spike presente sem QRS subsequente
causas: deslocamento, fibrose, baixa voltagem
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
Inverte o primeiro fenômeno: a primeira marcação (*) não é undersensing, mas oversensing. O undersensing produziria um spike desnecessário após um batimento intrínseco, não uma pausa. A pausa na estimulação é a assinatura do oversensing — o marcapasso foi inibido por um sinal que não era um evento cardíaco real.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erra na segunda marcação (): não é undersensing, mas falha de captura**. O undersensing é um problema de detecção (o dispositivo não vê o batimento intrínseco), enquanto a segunda marcação mostra um spike sem QRS subsequente — o estímulo foi emitido, mas não houve resposta miocárdica. São mecanismos distintos: um é de sensing, o outro é de output.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Inverte a ordem: a primeira marcação (*) não é falha de captura, mas oversensing. A falha de captura se manifesta como spike sem QRS, o que corresponde à segunda marcação (**), não à primeira. A primeira marcação mostra uma pausa na estimulação, típica de oversensing.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A primeira marcação (*) indica oversensing: o marcapasso detecta um sinal espúrio (como uma onda T ou miopotencial) e é inibido, gerando uma pausa na estimulação. A segunda marcação () indica falha de captura**: o spike está presente, mas não há complexo QRS subsequente, pois o estímulo não despolarizou o miocárdio. A sequência oversensing → falha de captura é a leitura correta do traçado.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erra na primeira marcação (*): não é undersensing, mas oversensing. O undersensing produziria um spike desnecessário após um batimento intrínseco, não uma pausa. A pausa na estimulação é a assinatura do oversensing — o marcapasso foi inibido por um sinal que não era um evento cardíaco real.
A regra de ouro para a prova: undersensing = spike a mais (compete com o ritmo); oversensing = pausa (inibição espúria); falha de captura = spike sem QRS. Identifique primeiro se o problema é de detecção (sensing) ou de estimulação (captura), e depois, se for de detecção, pergunte-se: o dispositivo viu demais (oversensing) ou viu de menos (undersensing)?