Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FGV 2023
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
fg064224
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cardiologia
No hospital em que você trabalha, encontra-se internada, há 3 dias, na Unidade Cardiointensiva, paciente do sexo feminino, 32 anos, com história de troca valvar mitral metálica ocorrida há 8 meses por estenose mitral grave sintomática, de etiologia reumática. Antes da internação atual, mantinha acompanhamento médico irregular.Desta vez, foi internada por quadro de dispneia aos mínimos esforços, ocorrendo há mais de 2 semanas. Durante internação, a despeito de anticoagulação plena, paciente evolui com hemiparesia esquerda.Exames complementares: hemoculturas negativas; ecocardiograma transesofágico demonstrou imagem aditiva em face atrial da prótese, restringindo mobilização dos folhetos, com densidade aumentada, medindo 15mm no maior diâmetro; tomografia computadorizada de crânio demonstrava hipodensidade do parênquima em topografia frontoparietal direita.No momento, a paciente se encontra estável clinicamente.O diagnóstico mais provável e a melhor conduta para o caso são, respectivamente,
Atrombose de prótese e cirurgia de troca valvar.
Bendocardite infecciosa e cirurgia de troca valvar.
Cendocardite infecciosa e antibiótico parenteral.
Dtrombose de prótese e trombólise.
Emixoma atrial e cirurgia cardíaca.
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GabaritoA — trombose de prótese e cirurgia de troca valvar.
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Trombose de prótese valvar mecânica: diagnóstico e conduta
Gabarito: letra A. A paciente apresenta trombose de prótese valvar mitral mecânica, evidenciada pelo ecocardiograma transesofágico mostrando imagem aditiva na face atrial da prótese com restrição de mobilidade dos folhetos, associada a evento embólico (hemiparesia esquerda por AVC isquêmico frontoparietal direito). A conduta indicada, diante de trombose obstrutiva de prótese em paciente estável, é a cirurgia de troca valvar, conforme as diretrizes de valvopatias.
A trombose de prótese valvar é uma complicação grave e potencialmente fatal que ocorre em pacientes portadores de próteses mecânicas, especialmente quando a anticoagulação é inadequada ou irregular — exatamente o caso da paciente, que mantinha acompanhamento médico irregular. A prótese mecânica é um material trombogênico que exige anticoagulação contínua e adequada; quando isso falha, pode formar-se um trombo que se adere à prótese, restringindo a abertura dos folhetos e causando obstrução ao fluxo sanguíneo. Essa obstrução leva a sintomas de insuficiência cardíaca, como a dispneia aos mínimos esforços apresentada pela paciente, e pode fragmentar-se, originando êmbolos que causam eventos isquêmicos em diversos territórios — no caso, o AVC isquêmico frontoparietal direito que resultou em hemiparesia esquerda.
O diagnóstico diferencial principal é com a endocardite infecciosa de prótese valvar. No entanto, alguns achados são decisivos para afastá-la: as hemoculturas foram negativas, não havia febre, e a imagem ecocardiográfica mostrava uma massa aditiva na face atrial da prótese com densidade aumentada, restringindo a mobilidade dos folhetos — padrão mais compatível com trombo do que com vegetação. Além disso, a paciente estava em anticoagulação plena, o que não exclui trombose, mas torna a endocardite menos provável na ausência de outros critérios. A endocardite de prótese precoce (até 12 meses da cirurgia) costuma apresentar febre, hemoculturas positivas e vegetações, o que não se observa aqui.
A conduta na trombose de prótese valvar depende da gravidade clínica e do tamanho do trombo. Em pacientes estáveis, com trombo obstrutivo, a cirurgia de troca valvar é a opção preferencial, pois a trombólise apresenta risco elevado de embolização e sangramento, sendo reservada para casos de alto risco cirúrgico ou contraindicação à cirurgia. A paciente está clinicamente estável, o que a torna candidata à abordagem cirúrgica. A trombólise seria considerada em situações de instabilidade hemodinâmica ou impossibilidade de cirurgia, o que não é o caso.
A distinção crucial que separa as alternativas é o par diagnóstico-conduta: trombose de prótese exige cirurgia de troca valvar (alternativa A), enquanto endocardite infecciosa seria tratada com antibióticos (alternativa C) e, em casos selecionados, cirurgia (alternativa B). O mixoma atrial (alternativa E) é um tumor cardíaco primário, geralmente localizado no átrio esquerdo, mas não se adere à prótese valvar e não causa restrição de mobilidade dos folhetos protéticos. A trombólise (alternativa D) é uma opção terapêutica, mas não é a melhor conduta para uma paciente estável com trombo obstrutivo de prótese, sendo preferível a cirurgia.
Trombose de prótese valvar mecânica
1Fatores de risco
Prótese mecânica (trombogênica)
Anticoagulação irregular
2Manifestações
Dispneia (obstrução ao fluxo)
Evento embólico (AVC isquêmico)
3Diagnóstico
ECO transesofágico: massa aditiva na face atrial
Restrição de mobilidade dos folhetos
Hemoculturas negativas (afasta endocardite)
4Conduta
Cirurgia de troca valvar (paciente estável)
Trombólise (risco de embolização/sangramento)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O diagnóstico de trombose de prótese valvar mitral mecânica é o mais provável, dado o contexto de prótese mecânica, anticoagulação irregular, imagem ecocardiográfica de massa aditiva na face atrial com restrição de mobilidade dos folhetos e evento embólico. A conduta indicada é a cirurgia de troca valvar, pois a paciente está clinicamente estável e a trombólise apresenta risco elevado de embolização e sangramento, sendo reservada para casos de alto risco cirúrgico ou contraindicação à cirurgia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A endocardite infecciosa de prótese é um diagnóstico diferencial, mas é menos provável aqui. As hemoculturas foram negativas, não há febre, e a imagem ecocardiográfica mostra massa com densidade aumentada restringindo a mobilidade dos folhetos — mais compatível com trombo do que com vegetação. Além disso, a conduta de cirurgia de troca valvar não seria a primeira escolha na endocardite de prótese estável, que é tratada inicialmente com antibióticos.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Embora a endocardite infecciosa seja um diagnóstico diferencial, as hemoculturas negativas, a ausência de febre e o padrão ecocardiográfico de massa aditiva com restrição de mobilidade dos folhetos favorecem fortemente a trombose de prótese. Além disso, a conduta de antibiótico parenteral seria adequada para endocardite, mas não para trombose de prótese, que exige intervenção mecânica (cirurgia ou trombólise).
Alternativa D — ❌ Incorreta
O diagnóstico de trombose de prótese está correto, mas a conduta de trombólise não é a melhor opção para esta paciente. Ela está clinicamente estável, e a trombólise apresenta risco elevado de embolização e sangramento, sendo reservada para casos de alto risco cirúrgico ou contraindicação à cirurgia. A cirurgia de troca valvar é a conduta preferencial em pacientes estáveis com trombo obstrutivo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O mixoma atrial é um tumor cardíaco primário, geralmente localizado no átrio esquerdo, mas não se adere à prótese valvar e não causa restrição de mobilidade dos folhetos protéticos. A imagem ecocardiográfica de massa aditiva na face atrial da prótese com restrição de mobilidade é típica de trombose de prótese, não de mixoma. Além disso, a conduta de cirurgia cardíaca seria indicada para mixoma, mas o diagnóstico mais provável aqui é trombose de prótese.