Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — FGV 2023
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
fg064228
Banca
FGV
Órgão
FHEMIG
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico - Cardiologia
Você é o médico do ambulatório de Insuficiência Cardíaca do Hospital Terciário em que trabalha.
Chega para consulta de primeira vez, “Seu” João: sexo masculino, 59 anos, natural de São Sebastião da Boa Vista (PA). Refere história de morte súbita em familiares de primeiro grau. Encaminhado ao ambulatório por queixa crônica de falta de ar ao pendurar as roupas no varal.
Ao exame físico, o que você notou de alterado foi um íctus cardíaco desviado à esquerda, presença de extrassístoles e, à ausculta, sopro sugestivo de insuficiência mitral. Membros inferiores com edema 3+/4+ em terço distal.
Seu João trouxe para a consulta alguns exames realizados recentemente.
• Eletrocardiograma: ritmo sinusal, eixo elétrico desviado à esquerda, com bloqueio do ramo direito.
• Radiografia de tórax: cardiomegalia.
• Ecocardiograma transtorácico: disfunção sistólica biventricular, com aneurisma apical em “dedo de luva”.
Assinale a opção que indica a cardiomiopatia mais provável para este paciente.
AHipertrófica.
BAmiloidose.
CEndomiocardiofibrose.
DChagásica.
EArritmogênica do ventrículo direito.
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GabaritoD — Chagásica.
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Gabarito: letra D. O quadro é clássico de cardiopatia chagásica crônica: paciente de área endêmica (São Sebastião da Boa Vista, PA), com história familiar de morte súbita, disfunção sistólica biventricular, aneurisma apical em "dedo de luva" ao ecocardiograma, bloqueio de ramo direito e extrassístoles. O aneurisma apical é a pista morfológica mais específica — é a marca registrada da doença de Chagas, não das outras cardiomiopatias listadas.
A doença de Chagas, causada pelo Trypanosoma cruzi, é uma causa importante de insuficiência cardíaca na América Latina, especialmente em áreas rurais e endêmicas. Na fase crônica, o parasita desencadeia uma resposta inflamatória e fibrosante difusa no miocárdio, levando a um padrão de cardiomiopatia dilatada com características peculiares. O que distingue a cardiopatia chagásica das demais é a combinação de: (1) epidemiologia compatível (origem em área endêmica), (2) distúrbios de condução (bloqueio de ramo direito, hemibloqueios), (3) arritmias ventriculares (extrassístoles, taquicardia ventricular), (4) aneurisma apical do ventrículo esquerdo — um achado ecocardiográfico quase patognomônico, descrito como "dedo de luva" — e (5) alto risco de morte súbita, frequentemente com história familiar.
O exame físico do paciente reflete a disfunção biventricular: íctus desviado à esquerda (cardiomegalia), sopro de insuficiência mitral (dilatação do anel valvar ou disfunção de músculo papilar), e edema de membros inferiores (congestão sistêmica). O ECG mostra bloqueio de ramo direito com eixo desviado à esquerda — o chamado bloqueio divisional ântero-superior esquerdo, que, associado ao BRD, configura um bloqueio bifascicular, padrão típico da doença de Chagas. A radiografia confirma a cardiomegalia.
A distinção entre as cardiomiopatias é essencial, pois cada uma tem etiologia, prognóstico e tratamento específicos. A hipertrófica é genética, com hipertrofia assimétrica e padrão obstrutivo; a amiloidose é infiltrativa, com espessamento parietal e baixa voltagem no ECG; a endomiocardiofibrose é restritiva, com fibrose endocárdica e obliteração apical; a arritmogênica do VD é genética, com substituição fibrogordurosa predominante no ventrículo direito. A chagásica, por sua vez, é uma miocardiopatia dilatada com predileção por áreas específicas — o ápice do VE e o sistema de condução — o que explica o aneurisma apical e os bloqueios.
A pegadinha da questão está em reconhecer que o aneurisma apical em "dedo de luva" não é um achado inespecífico de qualquer cardiomiopatia dilatada — ele é altamente sugestivo de doença de Chagas. O candidato que não conhece essa associação pode se perder entre as alternativas, mas a combinação de epidemiologia + bloqueio de ramo direito + aneurisma apical fecha o diagnóstico. Guarde essa tríade: é ela que separa a chagásica das demais.
Critério
Cardiomiopatia Hipertrófica (A)
Amiloidose (B)
Endomiocardiofibrose (C)
Cardiomiopatia Chagásica (D)
Cardiomiopatia Arritmogênica do VD (E)
Etiologia
Genética (autossômica dominante)
Infiltrativa (depósito de proteínas amiloides)
Restritiva (fibrose endocárdica, endêmica na África/Ásia)
Onda épsilon, inversão de T em precordiais direitas
Perfil funcional
Disfunção diastólica (FE preservada)
Padrão restritivo (disfunção diastólica)
Disfunção diastólica, átrios gigantes
Disfunção sistólica biventricular dilatada
Disfunção ventricular direita (arritmogênica)
Epidemiologia/contexto
Familiar, qualquer região
Sistêmica (ex.: mieloma, hereditária)
Regiões tropicais (África/Ásia)
Área endêmica (Brasil/Pará), história familiar de morte súbita
Familiar, qualquer região
Cardiomiopatias
1Dilatada
Chagásica
Aneurisma apical "dedo de luva"
BRD + hemibloqueio
Área endêmica
Isquêmica
2Hipertrófica
Genética, septo assimétrico
3Restritiva
Amiloidose
Baixa voltagem no ECG
Endomiocardiofibrose
Obliteração apical
4Arritmogênica do VD
Substituição fibrogordurosa
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética autossômica dominante, caracterizada por hipertrofia ventricular esquerda assimétrica, frequentemente septal, sem dilatação da cavidade. O ECG mostra sobrecarga ventricular esquerda, ondas Q patológicas e alterações de repolarização, mas não é típico o bloqueio de ramo direito nem o aneurisma apical. A disfunção sistólica biventricular com dilatação e o edema periférico são incomuns nas fases iniciais. O padrão é de disfunção diastólica, não sistólica dilatada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A amiloidose cardíaca é uma doença infiltrativa, na qual proteínas amiloides se depositam no interstício miocárdico, causando espessamento parietal biventricular, com aspecto granular/"brilhante" ao ecocardiograma. O ECG clássico mostra baixa voltagem dos complexos QRS, frequentemente com padrão de pseudoinfarto. Não há aneurisma apical em "dedo de luva" — o padrão é restritivo, com disfunção diastólica e fração de ejeção preservada até fases avançadas. A epidemiologia e os achados de condução não se encaixam.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A endomiocardiofibrose é uma cardiomiopatia restritiva, endêmica em regiões tropicais da África e Ásia, caracterizada por fibrose do endocárdio e do miocárdio subjacente, com obliteração dos ápices ventriculares (padrão restritivo). Embora possa haver envolvimento apical, o quadro é de disfunção diastólica com átrios gigantes, e não de disfunção sistólica biventricular com aneurisma apical. O bloqueio de ramo direito e as extrassístoles não são marcadores da doença. A epidemiologia (Brasil, Pará) e o padrão ecocardiográfico apontam para outra etiologia.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A cardiomiopatia chagásica crônica é a causa mais provável. O paciente é natural da região Norte do Brasil (área endêmica), tem história familiar de morte súbita (risco arrítmico), e apresenta ao ecocardiograma o achado mais característico: aneurisma apical do ventrículo esquerdo em "dedo de luva". O ECG com bloqueio de ramo direito e hemibloqueio ântero-superior esquerdo (eixo desviado à esquerda) é o padrão de condução mais comum na doença. A disfunção sistólica biventricular, a insuficiência mitral secundária e o edema periférico completam o quadro de insuficiência cardíaca avançada. A combinação de epidemiologia, distúrbio de condução, arritmia ventricular e aneurisma apical é praticamente diagnóstica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A cardiomiopatia arritmogênica do ventrículo direito (DAVD) é uma doença genética (desmossômica) que causa substituição fibrogordurosa do miocárdio, predominantemente no ventrículo direito. O ECG pode mostrar onda épsilon, inversão de ondas T nas derivações precordiais direitas e taquicardia ventricular com padrão de bloqueio de ramo esquerdo. O aneurisma apical do VE em "dedo de luva" não faz parte do espectro. A disfunção sistólica biventricular com dilatação e congestão sistêmica é mais característica de envolvimento biventricular avançado, mas a epidemiologia e o achado apical apontam fortemente para a etiologia chagásica.
Gabarito: letra D — cardiomiopatia chagásica, pela tríade epidemiológica (área endêmica), eletrocardiográfica (BRD + hemibloqueio) e ecocardiográfica (aneurisma apical em "dedo de luva").