Avaliação do doador de coração: critérios de recusa na captação
Gabarito: letra A. O tempo de isquemia menor que 4 horas é um critério favorável à captação, pois representa menor dano ao órgão durante o período sem perfusão — não implicando, portanto, em provável recusa. As demais alternativas (PCR revertida, septicemia, uso de altas doses de catecolaminas e disfunção ventricular esquerda grave) são condições que, segundo a Diretriz de Transplante Cardíaco da SBC, classicamente contraindicam ou elevam o risco de falha do enxerto, levando à recusa da captação.
A doação de órgãos é um processo complexo que envolve a avaliação criteriosa de cada órgão para maximizar o sucesso do transplante. No caso específico do coração, a Diretriz de Transplante Cardíaco da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) estabelece critérios para a seleção de doadores, visando reduzir o risco de disfunção primária do enxerto e outras complicações pós-transplante. O conceito de "doador limítrofe" (ou marginal) refere-se àqueles que apresentam características que, no passado, eram consideradas contraindicações absolutas, mas que, com a evolução das técnicas e do manejo clínico, podem ser aceitos em situações específicas, desde que avaliados individualmente.
O tempo de isquemia é o intervalo entre a interrupção da circulação sanguínea no órgão do doador e o restabelecimento da perfusão no receptor. Para o coração, esse período deve ser o mais curto possível, sendo aceitável até aproximadamente 4 a 6 horas. Um tempo de isquemia menor que 4 horas é considerado ideal e está associado a melhores resultados, não sendo, portanto, um motivo de recusa. Pelo contrário, tempos prolongados aumentam o risco de lesão miocárdica e disfunção do enxerto.
A parada cardiorrespiratória (PCR) revertida no doador é um fator de risco, pois pode ter causado lesão isquêmica ao miocárdio, mesmo que o coração tenha retomado a função. A septicemia (infecção generalizada) é uma contraindicação relativa ou absoluta, dependendo da gravidade e do agente etiológico, pelo risco de transmissão da infecção ao receptor imunossuprimido. O uso de doses elevadas de catecolaminas (como noradrenalina e dopamina) para manter a hemodinâmica do doador pode indicar disfunção miocárdica e está associado a pior evolução do enxerto. A disfunção ventricular esquerda grave ao ecocardiograma é um critério de exclusão, pois indica que o coração não terá capacidade de bombear adequadamente no receptor.
A banca explora a capacidade do candidato de distinguir entre um critério favorável (tempo de isquemia curto) e critérios desfavoráveis (as demais condições). A pegadinha está em reconhecer que a pergunta pede a opção que não implicaria em recusa, ou seja, a que representa uma condição aceitável ou até desejável para a captação.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O tempo de isquemia menor que 4 horas é um fator protetor e desejável. Quanto menor o tempo de isquemia, menor o dano celular e melhor a preservação do órgão. A diretriz estabelece que tempos de isquemia mais curtos estão associados a melhores desfechos, não sendo, portanto, um critério de recusa. Esta é a única alternativa que representa uma condição favorável à captação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O relato de PCR revertida é um fator de risco, pois a parada cardíaca pode ter causado lesão isquêmica ao miocárdio, mesmo com a recuperação do ritmo. Essa condição pode levar à disfunção do enxerto e, portanto, é um critério que pode implicar em recusa da captação. A banca troca o conceito de "reversão da PCR" como algo positivo, quando na verdade representa um evento adverso relevante.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A septicemia no doador é uma contraindicação relativa ou absoluta para a doação de órgãos, devido ao risco de transmissão da infecção ao receptor, que estará imunossuprimido. Mesmo com tratamento antibiótico, a presença de infecção sistêmica ativa é um critério de recusa, especialmente para órgãos como o coração, onde a infecção pode comprometer o enxerto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O uso de doses elevadas de catecolaminas para manter a estabilidade hemodinâmica do doador é um marcador de disfunção miocárdica. A necessidade de altas doses de vasopressores sugere que o coração não está funcionando adequadamente, o que aumenta o risco de disfunção primária do enxerto após o transplante. Por isso, é um critério que pode levar à recusa da captação.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A disfunção ventricular esquerda grave ao ecocardiograma é um critério de exclusão absoluto ou relativo, pois indica que o coração não tem capacidade de bombear sangue de forma eficaz. Um coração com disfunção grave não conseguirá atender às necessidades do receptor, levando a alto risco de falência do enxerto. Portanto, é um forte indicativo de recusa da captação.
Gabarito: letra A — a única alternativa que representa uma condição favorável à captação é o tempo de isquemia menor que 4 horas.